O Casamento Perfeito
Perfect Marriage Material

Penny Jordan

(Verso Grandes Romances 05)
Famlia Crighton - 03

       Tullah Richards tem conscincia que no devia ficar nutrindo fantasias sobre seu chefe. Quando comeou a trabalhar na empresa, estava convencida que nutria 
o maior desprezo pelo mulherengo Saul Crighton. Mas quanto mais ela trabalha e socializa com ele, mais vem a perceber que este dedicado pai solteiro de trs filhos 
 a personificao do casamento perfeito. Ela sabe disso, s precisa encontrar uma maneira de provar a Saul.
       
Digitalizao: Polyana
Reviso: Rita Cunha
      

PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES li B.V.
Copyright (c) 1997 by Penny Jordan
Originalmente publicado por Mills & Boon London
      
     Captulo Um
      
       Tullah pegou o fone com cansao ao ouvi-lo tocar. Tinha acabado de entrar em seu apartamento. A despeito de a companhia para a qual trabalhava estar fazendo 
cortes nas admisses e promoes de funcionrios, a quantidade de trabalho que passava por sua mesa parecia crescer a cada dia. Oficialmente ela encerrava o expediente 
s cinco e meia, mas naquele dia, bem como em todas as noites das ltimas seis semanas ou coisa assim, ela tinha ficado trabalhando at depois das nove. Mas ela 
no teria que aguentar aquilo por muito mais tempo... Graas a Deus.
       - Tullah Richards - ela anunciou suavemente ao telefone com aquela voz ligeiramente rouca e sensual da qual seus amigos zombavam, dizendo ser sexy demais 
para quem se dizia to sria e profissional.
       - Tullah! Que maravilha. Tenho tentado encontr-la o dia inteiro. Ainda est de p este fim de semana, no est?
       Tuflah sorriu ao reconhecer a voz de Olivia. Elas haviam trabalhado juntas alguns anos antes e continuavam sendo boas amigas, apesar de Olivia estar agora 
casada e com uma filhinha, morando no interior de Cheshire, enquanto Tullah permanecera em Londres, determinada a perseverar no caminho profissional que havia escolhido.
       Mas no por muito mais tempo. Por uma estranha reviravolta do destino, ela tambm logo estaria de mudana para Haslewich...
       - Sim, se ainda estiver de p para voc - ela respondeu.
       - Estamos ansiosos - Oliva afirmou. - A que horas voc acha que estar chegando?
       - Acho que por volta das cinco. Tenho um encontro com o responsvel pela mudana  uma da tarde, vamos dar uma olhada em diversos imveis que eles seleciona-ram 
para mim.
       - Imveis... Soa bastante imponente - Olivia disse, brincando com a amiga.
       Tullah riu.
       - Assim espero - concordou. - Na verdade, j disse a eles que no poderei bancar nada mais caro que um apartamento de um quarto, ou melhor, uma casinha de 
um comodo, apesar de entender que, com o fluxo de novos moradores que Haslewich recebe vindos de Aarlston-Becker, os imveis a devam estar muito disputados.
       - Alguns esto mesmo - Olivia concordou. - Acho que, no comeo, os figures da Aarlston-Becker pensavam que poderiam trocar suas casas de dois andares na 
cidade por manses de sete quartos no campo, com espao para estbulos e jardins no estilo de Gertrude Jekyll, voc sabe, aquela paisagista do final do sculo 19, 
comeo do sculo 20. E a realidade no era bem essa. Os imveis so mais baratos aqui, mas... Existem algumas casinhas realmente lindas em Haslewich mesmo. Minha 
tia-av Ruth j tem quatro novos vizinhos na Praa da Igreja, onde ela mora, e com toda certeza teremos de lidar com um aumento na quantidade de carros. Alis, o 
que voc vai fazer com seu apartamento de Londres?
       - Ah, bem, tive muita sorte quanto a isso. Sarah, a moa que dividia o apartamento comigo, vai casar e ela e o marido esto comprando-o, assim no perderei 
tempo esperando por um comprador. Apesar que a oferta de trabalho que me ofereceram prev que cabe a eles arcar com os custos da mudana, inclusive emprstimos que 
eu venha a precisar, alm de me garantir um financiamento de casa prpria.
       - Essa garota  das minhas - Olivia riu. - Estou ansiosa para voc mudar logo para c. Vai ser como nos velhos tempos. s vezes nem posso crer que faz mais 
de trs anos que deixei a empresa. Tanta coisa aconteceu. Caspar e eu casamos, tivemos Amlia, os negcios comearam a melhorar ano passado e o tio Jon e eu temos 
conversado ultimamente sobre contratar um advogado.
       - Hummm... Bem, voc com certeza fez a coisa certa quando largou a companhia - Tullah assegurou. - A quantidade de demisses desde ento  assustadora.
       - Mas eles vo lamentar sua perda - Olivia respondeu. - Fiquei extremamente orgulhosa de voc quando soube que a Aarlston-Becker queria contrat-la.
       - Eu e mais uma dzia - Tullah sentiu-se compelida a dizer -, e s porque eles decidiram se transferir para Haslewich quase no ltimo minuto, ao invs de 
seguir adiante com o plano original de levar a sede da companhia para Haia. Os incentivos britnicos acabaram sendo bem melhores.
       - Bem, pode estar certa de que estar trabalhando em uma multinacional de primeira classe - Olivia disse, cheia de entusiasmo. - Meu primo Saul est impressionado 
desde que comeou a trabalhar com eles, h seis meses. Como voc, ele recebeu uma proposta logo que eles se transferiram e...
       - Saul - Tulah a interrompeu, com uma pungncia incomum tomando conta de sua voz normalmente suave e rouca.
       - Hummm... Ele  primo meu por parte de pai, bem, talvez primo de segundo ou terceiro grau. Nunca sei bem, com essa nossa famlia to embaralhada. Voc no 
deve lembrar dele, apesar de ele ter ido ao casamento e ao batismo da Amlia tambm. Alto, moreno e...
       - Belo - Tullah suspirou corajosamente e acrescentou, sendo bem direta: - At onde me lembro, Olivia, voc tem pelo menos meia dzia de primos de segundo 
e terceiro grau que correspondem a esta descrio.
       - Talvez - Olivia concordou e sua voz suavizou levemente ao continuar -, mas s um Saul.
       - Quisera eu... - Tullah murmurou entredentes. Ento, levantando a voz, continuou. - Lembro vagamente dele. Bera moreno, um tanto autoritrio e bem galante, 
pelo que lembro. Falou muito que era um timo pai, mas pelo que lembro foi sua tia Jenny quem ficou tomando conta dos filhos dele. Eu achava que esse seu lado da 
famlia morava em Pembroke - acrescentou com desdm.
       - E moravam... Moram.  que desde que o tio Hugh se aposentou, ele e Ann passam boa parte de seu tempo viajando pelo exterior. Tio Hugh  um navegador bem 
preparado e, bem, para encurtar a histria, Saul agora  divorciado e achou melhor que os filhos crescessem em um ambiente onde tivessem fortes vnculos familiares, 
e na verdade este foi o motivo principal para que ele aceitasse o emprego na Aarlstons.  realmente uma coincidncia que vocs dois estejam trabalhando para o departamento 
legal da empresa, mas tambm, trata-se de uma grande multinacional. Eles despertaram muito antagonismo na regio. Tia Ruth comentou que a chegada deles a fez lembrar 
de quando os americanos chegaram durante a Segunda Guerra Mundial; s que eles traziam meias de seda e chocolate para serem aceitos na comunidade. Tia Jenny estava 
dizendo outro dia que a opinio geral do povo local tende a ser favorvel ao influxo de moradores, ou ao menos favorvel ao estmulo  economia que eles vo trazer. 
Ela ouviu isso de seu scio, Guy Cooke. Alis, fique sabendo que a enorme famlia de Guy Cooke  de Hasle-wich; eles esto aqui desde o incio dos tempos.
       - Hummm... Bem,  bom saber que no terei de lidar com o comit regional de despejo - Tullah disse, melanclica.
       Olivia riu.
       - Voc? De jeito nenhum! Vai ser timo que voc passe o final de semana conosco, Tullah. Estou realmente ansiosa.
       - Eu tambm - Tullah correspondeu com um sorriso.
       Contudo, aps pr o fone no gancho, ela j no estava sorrindo. Saul Crighton. Ela no havia percebido que ele estava morando em Haslewich agora ou, ainda 
pior, trabalhando na Aarlston-Becker.  claro que ela sabia que OJi-via j havia tido uma certa queda por ele, apesar de Tullah no entender o porqu. De acordo 
com a opinio geral e as fofocas que ouvira no casamento de Olivia e Gaspar, Saul chegou bem perto de conseguir separ-los ao tentar, com o maior sangue-frio, persuadir 
Oiivia a ter um caso com ele, apesar de ele ainda estar casado na poca. E, como se isso no fosse ruim o bastante, Tullah tambm ouviu as mesmas duas pessoas conversarem 
sobre o fato de uma das primas adolescentes de Olivia, Louise, ser uma prxima vtima em potencial da necessidade grosseira e egosta que Saul tinha de alimentar 
sua auto-estima da nica maneira que aparentemente sabia, ou seja, lisonjeando e seduzindo meninas jovens, imaturas e vulnerveis at conseguir um romance.
       Tullah sabia tudo sobre aquele tipo de homem, e conhecia tambm o tipo de devastao que sujeitos assim podiam acarretar, como deixavam suas vtimas magoadas 
e com raiva de si mesmas. Ela deveria saber. Afinal de contas...
       Mas no havia sentido em ficar relembrando o passado. Havia definitivamente posto uma p de cal naquele episdio de sua vida, quando foi morar e trabalhar 
em Londres. A mesma moa que, quando muito jovem, havia se apaixonado to intensa e perniciosamente por um homem casado, o qual se aproveitou com frieza de sua ingenuidade 
e inexperincia, de sua confiana na sinceridade dele quando dizia que a amava e que seu casamento era uma grande mentira, simplesmente no existia mais. Como ela 
fora capaz? No havia cura para o que sofrera: ela havia sido destruda pelo trauma de descobrir como seu amado a enganara, ao saber que no s ele no tinha nenhuma 
inteno de deixar a esposa como tambm que ela era apenas mais uma em uma longa ista de casos que ele acumulara atravs dos anos.
       Sendo honesta consigo mesma, ela agora conseguia ver que nem foram tanto seu amor e adorao juvenis que lhe deixaram cicatrizes to profundas, mas a humilhao, 
a raiva de si mesma que passou a nutrir, a conscincia de ter sido tola e crdula.
       A esposa dele lhe disse naquela poca, aparentando cansao, que a nica razo pela qual ela no o havia deixado eram os filhos.
       - Eles ainda precisam dele, apesar de eu no - ela confessou a Tullah de maneira bem direta, e Tullah, humilhantemente ciente do quanto sentira falta do pai 
depois que ele e sua me se divorciaram, teve de morder o lbio inferior com fora para no chorar como se fosse ela a criana.
       Atravs dos anos ela conheceu boa quantidade de homens que sofriam das mesmas necessidades egocntricas; criaturas rasas e vaidosas, donos de um charme perigosamente 
sedutor que podia enganar com a maior facilidade as vulnerveis e as ingnuas. At segunda ordem, ela no tinha dvida de que Saul Crighton era mais um daqueles.
       Ela lembrava que ele a convidara para danar no casamento, olhando-a do alto de seu mais de um metro e oitenta, franzindo o cenho quando ela recusou, to 
sucinta e abruptamente quanto uma criana.
       Ela tambm lembrava de ver que Oiivia estava tomando cuidado demais com ele. Ela explicou, ao ver que Tullah a observava, que ele estava passando por um momento 
difcil, com uma enorme responsabilidade nas costas.
       - Ele e a esposa... esto separados - ela explicou, um tanto desconfortvel com a ausncia de resposta de Tullah, que nada disse por no querer discutir com 
Oiivia dizendo que aquilo no a surpreendia. Afinal de contas, acabara de ouvir que Saul tentara seduzir Olivia para que se afastasse de Caspar.
       Foi Max Crighton, outro dos primos de Olivia, filho mais velho de Jon e Jenny, que explicou toda a situao.
       - Saul gosta das novinhas... Ainda est nessa fase - Max contou, cheio de cinismo. - Veja bem, ele no faz exatamente a linha fiel. To logo percebeu que 
havia perdido Olivia, comeou a fazer o mesmo jogo com minha irm Louise.
       Tullah passou uma boa meia hora escutando Max explicar as intricadas relaes interfamiliares que existiam entre os vrios membros dos Crighton. Ele mesmo 
deixava bem elaro ser do tipo de homem que gostava de jogar charme, mas Tullah considerou muito mais fcil para sua cabea lidar com as tentativas bastante explcitas 
de Max de envolv-la do que com a sinistra e muito mais dissimulada pseudo-sinceridade de Saul, principalmente ao ver Louise toda serelepe, observando-o com a boca 
trmula e o corao saltando dos olhos. No, ela no havia gostado nada de Saul Crighton... nem um pouquinho.
       - Voc est parecendo muito pensativa e preocupada - Gaspar comentou com a esposa enquanto caminhava em direo  cozinha, deixando os artigos que trouxera 
para ler sobre um mvel e indo at a mesa onde sua mulher estava para tom-la nos braos e beij-la.-Hummm... Que beijo gostoso.
       - Hummm... bastante - ela concordou. - Falei com Tullah hoje. Ela confirmou que vem neste fim de semana.
       - Ah, ento entendi.  a possibilidade de atuar como casamenteira que est deixando-a pensativa...
       - Bem, Tullah est com vinte e oito anos, na hora de se estabilizar - Olivia respondeu, na defensiva. - E ela  to maternal...
       - Maternal? - Caspar gargalhou alto. - Estamos falando da mesma Tullah? A Tullah que parece ter sado diretamente da fantasia de todo homem...? Algo entre 
Claudia Schiffer e uma gatinha de SOS Malibu? A mesma Tullah com aqueles olhos negros maravilhosos e cachos e a boca com aquela expresso graciosamente enfezada 
nos lbios que a faz parecer to provocante e ao mesmo tempo to mais vulnervel e menos inteligente, se  que voc me entende... e...
       - GCaspar - Olivia disse, em tom de aviso.
       - Desculpe - Gaspar respondeu, sem muita inteno. Seus olhos brilhavam enquanto ele reconhecia -, talvez eu tenha exagerado... Mas voc tem que concordar 
comigo que ningum jamais pensaria que ela  uma advogada altamente qualificada.  como se o seu sex-appeal extrapolasse os limites, enquanto seu QI...
       - Gaspar - Olivia disse, em um tom mais severo.
       - OK, OK... calma. Voc sabe perfeitamente bem que gosto de louras petulantes com olhos luminosos e... Tudo o que estou tentando dizer - acrescentou, pacientemente 
-  que Tullah pode ser estonteante, sedutora e extremamente sexy, mas maternal...
       - Isto  porque voc a est julgando pela aparncia - Olivia falou, muito seriamente. - Como voc mesmo disse, ela  altamente qualificada. Na verdade, comeou 
a trabalhar em um pequeno escritrio, voc sabe, mas lidar com tantos casos de divrcio e custdia a abalou tanto que ela decidiu passar a trabalhar para corporaes. 
Os pais dela mesmo se divorciaram quando ela ainda era adolescente e, pelo que ela me contou, parece que foi bastante traumtico para ela.
       - Hummm...  provvel mesmo. - Trocaram longos olhares de compreenso mtua. A infncia de Caspar no tinha sido das mais fceis; ele ficou sendo passado 
para l e para c, da me para o pai e vice-versa, sendo deixado em segundo plano, enquanto os pais comeavam outros casamentos, formando novas famlias, as quais, 
na cabea de Caspar, pareciam suplant-lo.
       A infncia de Olivia tampouco tinha sido desprovida de problemas. Seu pai, David, irmo gmeo de seu tio Jon, desapareceu quando se recuperava de um srio 
infarto: simplesmente saiu e foi embora, sem deixar pistas de para onde estava indo ou do que pretendia fazer e, quanto  me...
       Tnia, sua me, aps sofrer de uma desordem alimentar por anos a fio, estava morando no sul da Inglaterra. Vrias semanas antes, ela telefonara a Olivia para 
dizer, muito animada, que havia um novo homem em sua vida, e queria que a filha o conhecesse.
       - Estive pensando que um dos primos de Chester poderia ser perfeito para Tullah - Olivia disse a Caspar.
       - Um deles? - ele repetiu, levantando as sobrancelhas.
       - Bem, h tantos para ela escolher - ela se defendeu - e agora que Luke e Bobbie esto casados... Bem, talvez isto possa dar um empurro de estmulo nos outros. 
Afinal de contas, no  falta de segurana financeira que os est detendo.
       - Voc soa como um dos personagens de Jane Austen
       - Gaspar zombou. Olivia riu mais uma vez.
       - Voc quer dizer, " fato universalmente reconhecido que um homem que tenha fortuna est necessariamente em busca de uma esposa", no ? Mas eu estava me 
referindo mais s necessidades emocionais - ela disse a Gaspar com muita dignidade. - Agora me deixe ver... Temos James e Aliester, Niall e Kit - ela contava nos 
dedos os primos.
       - Ela no pode casar com todos eles - Gaspar interrompeu-a.
       -  claro que no - ela respondeu, olhando-o de forma mordaz. - Mas tenho certeza que um deles... Afinal, pense no que ela tem em comum com eles.
       - O qu?
       - Bem, para comeo de conversa, a mesma profisso
       - ela respondeu, levantando os olhos em direo ao teto.
       - Homens... Francamente! - E, balanando a cabea, voltou-se para o jornal que estava comeando a ler antes de ele chegar.
       - Livvy...
       Ela olhou para Gaspar, que conduziu gentilmente sua cabea em direo a ela.
       - Veja, sei que voc tem boas intenes, e seus primos e Tullah tm, sim, algo em comum, mas ela  uma mulher, uma profissional altiva de quase trinta anos 
de idade. Voc no acha que, se ela quisesse se ajeitar com algum e ter filhos, j teria encontrado um parceiro por si mesma a esta altura do campeonato? Olivia 
mordeu o lbio.
       - Voc est tentando me dizer que eu no deveria me meter?
       - Bem...
       - Eu estava s pensando em oferecer um ou dois jantares aqui... retornar convites... este tipo de coisa.
       - Hummm... Suponho que eu deva entender isto como um elogio, que voc adora o casamento e a maternidade de tal maneira que quer infligir, ou melhor, compartilhar 
a sensao com pessoas amigas.
       - Suponho que sim - ela concordou. - Por falar nisso... Voc se lembra como conversamos, outra noite destas, que j estava na hora de comearmos a pensar 
em um irmo ou irm para Amlia?
       - O que, voc no est...
       - Ainda no - respondeu, timidamente. - Mas realmente temos que...
       - Ah, sim, temos mesmo - Gaspar concordou, rindo, conduzindo-a at a porta da cozinha e subindo as escadas com ela.
       
       
     Captulo Dois
      
       - Ento, encontrou algo aqui do seu agrado? - Olivia perguntou a Tullah ansiosamente quando a amiga retornou das visitas que fizera, acompanhada de um corretor, 
aos imveis que a imobiliria seiecionara.
       - Na verdade no, a no ser esta bonequinha. - Tullah riu, parando um pouco de embalar em seus braos Amlia, filha de dois anos de idade de Gaspar e Olivia, 
para responder a pergunta.
       -Ah, bem, se  disso que voc gosta, no era uma casa que voc devia estar procurando, e sim um homem - Olvia brincou com ela.
       - No, obrigada - Tullah replicou, o sorriso que estava em seu rosto desaparecendo enquanto ela devolvia Amlia  me.
       - Tullah... - Olivia comeou, mas parou ao ver a maneira que a outra olhou para ela. Apesar de boas amigas, Tullah sempre fora do tipo distante e, a despeito 
de sua aparncia voluptuosa e sensual, os homens da empresa para a qual trabalhara logo aprenderam a trat-la com muito cuidado.
       Olivia sabia a razo da cautela de Tullah com o sexo oposto, e sabia tambm que Tullah no gostava de conversar sobre sua vida amorosa.
       Sabia que a nica vez que Tullah havia baixado a guarda com os homens foi quando se relacionou com um homem casado que Oliva sabia muito bem que no tinha 
a menor inteno de se separar da esposa. Ser que, por ser aquele homem j comprometido, ela se sentia segura?
       - Ento nenhum dos imveis serviu? - Olivia perguntou, calorosamente.
       Tullah fez cara feia.
       - Bem, os apartamentos modernos de quarto-e-sala que eles me mostraram eram viveis em termos de preo, mas muito mal localizados, e as casinhas ou eram grandes 
demais ou muito caras, ou ambas as coisas. Mas uma, contudo... - Ela fez uma pausa enquanto Olivia aguardava. - Bem, tinha tanta coisa contra, e at o corretor disse 
que ela s havia sido includa na lista na ltima hora, mas...
       - Mas... - Olivia a encorajou a continuar, pacientemente.
       Tullah olhou para ela de maneira tristonha e admitiu:
       - Mas foi amor  primeira vista.
       - Ah, querida... - Olivia condoeu-se. - Tanto assim?
       - E tem mais - Tullah concordou sardonicamente, contando nos dedos cada ponto. - Preo caro demais, casa longe demais do trabalho. Precisa de uma fortuna 
em reformas. Talvez desinsetizar a madeira, novas instalaes eltricas e sanitrias, imagine s. No tem sequer um sistema de esgoto decente.
       - Ento, o que exatamente tem na casa? - Olivia perguntou, acrescentando, solcita. - Tem que haver algo que a tenha atrado tanto.
       - Ah, mas tem - Tullah concordou. - O lugar  cercado por terras de cultivo. Tem a vista mais maravilhosa do rio. Tem um jardim enorme.  uma das metades 
de uma s construo dividida em duas, e a outra metade  de duas irms idosas e vivas que aparentemente viajam muito para a Austrlia para visitar parentes. O 
caminho que leva  casa s d para uma casa-grande, que nem d para ver de l.
       - Uma casa na fazenda... - Oliva parecia intrigada e levemente excitada. - Onde exatamente fica esta casinha, Tullah? Parece...
       - Eu sei que parece horrvel - Tullah completou para ela - e com certeza no  o tipo de coisa que uma profissional razovel e em s conscincia sequer cogitaria 
comprar. Mesmo que seja uma pechincha, e certamente no , pode levar meses at estar pronta para morar.
       - Bem, voc pode ficar aqui sempre que precisar - Olivia ofereceu generosamente, e quando Tiillah fez que no com a cabea, ela perguntou. - Ento o que voc 
fez? Disse ao corretor que era impraticvel?
       - No - Tullah admitiu com urn sorriso envergonhado. - Fiz uma oferta...
       Ambas ainda estavam rindo quando Caspar entrou na cozinha e ele, como era de se esperar de um homem, no conseguiu compreender muito bem o motivo das risadas 
mtuas, nem depois de Olivia explicar.
       - Saul ligou quando voc estava fora - ele disse a Olivia. - Vai chegar um pouquinho depois do combinado para o jantar, parece que teve problemas com a bab, 
mas disse que com certeza estar aqui at as oito e meia.
       - Tudo bem. Convidei Saul, Jon e Jenny para jantar hoje conosco - ela explicou a Tulah. - O que, alis, me lembra da sua casinha na fazenda... - Olivia parou 
de falar ao ver que a pequena cadela retriever dourada soltou um tmido uivo de objeo quando Amlia puxou seu rabo e deu uma bronca maternal na filha, livrando 
o cachorro de seu puxo. - No, Amlia, assim voc machuca a Flossy. Voc tem de ser delicada com ela.
       Umas duas horas depois, Tullah estava de p em frente ao lindo espelho vitoriano do quarto de hspedes de Olivia, observando sua aparncia e pensando que 
gostaria muito mais de passar uma noite relaxante com Olivia e Gaspar do que ter de ficar sentada conversando amenidades com os convidados durante o jantar. J havia 
estado com Jon e Jenny antes, e com Saul e, apesar de ter simpatizado com o casal o mesmo no podia dizer de Saul...
       Comprou o vestido que havia escolhido para usar naquela noite por uma verdadeira pechincha, coagida pela me e pela irm de Hampshire durante um final de 
semana de compras e, como j havia dito na ocasio, no achava que fizesse muito seu estilo.
       Lucinda, sua irm, balanou a cabea como boa irm mais velha e disse para deixar de ser boba.
       -  claro que faz seu estilo. Este tom de creme  perfeito para a cor da sua pele e do seu cabelo, e o vestido no poderia ser mais fcil de vestir. Se eu 
no estivesse to enorme no momento, ficaria tentada a compr-lo para mim mesma.
       - Bem, voc no vai ficar grvida para sempre-Tullah respondeu, mas Lucinda fez que no com a cabea e suspirou.
       - Acredite em mim, no ponto em que estou, trs meses parecem ser para sempre, e alm do qu, tenho minhas dvidas se um dia serei novamente magra o suficiente 
para us-lo, ou mesmo se terei oportunidade para tal.
       A cor do vestido de fato lhe caa bem, Tullah teve que reconhecer, mas ainda tinha conscincia de que o efeito estreito, delgado e levemente aderente do tecido 
sedoso e de corte enviesado no era algo que ela escolheria naturalmente.
       O decote do vestido era discreto o bastante, mas a maneira com que o tecido se deslocava, o modo com que pendia generosamente de suas curvas... Felizmente 
ela tinha selecionado um casaco do mesmo tecido, e o comprou tambm. Ao vesti-lo, percebeu que ficaria com calor com aquele casaco.
       L embaixo a campainha soou.
       Tullah vestiu o casaco, correu at a porta do quarto e desceu as escadas, esperando ver Jon e Jenny na entrada com Olivia. Parou bruscamente ao chegar l 
e ver que o primeiro a chegar havia sido o primo de Olivia, no seus tios.
       - Tullah - Os olhos de Olivia se arregalaram ligeiramente de satisfao ao ver a amiga. "No banque a casamenteira" , Caspar havia dito a ela enfaticamente, 
mas na verdade... era um desperdcio... - Voc se lembra de Saul, no ? - Ela continuou a sorrir de Tullah para Saul, que estava ao seu lado.
       - Sim - Tullah concordou friamente, fingindo no ver a mo que Saul estendeu em sua direo e tomando cuidado para ficar do outro lado de Olivia, longe do 
alcance de seu olhar direto.
       - Sim... Bem, Caspar est na sala de jantar, Saul, se voc desejar uma bebida. Voc deu um jeito no problema com a bab? - Olivia disse, sorrindo.
       - Felizmente, sim - ele confirmou. - Desde o caso da custdia que tenho de ter mais cuidado em escolher a bab...
       Enquanto o escutava, Tullah ficou contente que nem ele nem Olivia estavam olhando para ela, pois sabia que seu rosto devia estar transparecendo seus sentimentos. 
Que tipo de pai seria Saul para ter de ser coagido pela justia a escolher uma bab aceitvel para seus filhos? Eram muitos os casos impressionantes de crianas 
pequenas deixadas aos cuidados de babs incompetentes, ou em certos casos, sem bab alguma, muitas vezes com resultados chocantes. Com toda certeza no seriam dificuldades 
financeiras que estariam impedindo Saul de contratar uma boa bab.
       Pessoalmente, ela considerou errado o bastante que ele escolhesse sair durante uma das visitas dos filhos ao invs de passar seu tempo com eles, e ficara 
at surpresa de Olivia t-lo encorajado a isto.
       - Eu vou ajudar na cozinha - ela se ofereceu, balanando a cabea quando Olivia sugeriu que ela se juntasse aos homens para um drinque enquanto esperavam 
pela chegada de Jon e Jenny. A ltima coisa que ela queria era ter de passar um minuto alm do estritamente necessrio conversando com Saul Crighton.
       - Olivia estava me dizendo que voc em breve estar se juntando a ns na Aarlston-Becker - Saul comentou com Tullah, fazendo que no com a cabea quando Gaspar 
tentou encher sua taa de vinho novamente. - Melhor no - ele disse ao outro. - Vou dirigir.
       Bem, ao menos ele tinha algum senso de responsabilidade, refletiu Tullah, ainda que ela no pudesse ter em alta conta um homem que parecia considerar mais 
sua carteira de motorista que os prprios filhos.
       - Sim, isso mesmo - ela concordou, respondendo a pergunta e depois se voltando para Jon, que estava sentado do outro lado, para perguntar se a chegada da 
grande multinacional  regio teve algum efeito em seus negcios.
       - Bem, realmente tivemos uma verdadeira exploso de casos de transferncia de posse - Jon respondeu, sorrindo - apesar de que, como voc sabe, todo o trabalho 
interno e corporativo da Aarlston  executado pelo departamento legal da empresa. Olivia estava dizendo que voc se especializou em lei europeia.
       - Sim, isso mesmo - Tullah concordou mais uma vez entre uma colherada e outra da deliciosa vichyssoise, uma sopa cremosa de batata e alho-por. Ela prpria 
gostava de cozinhar, apesar de no dispor de muito tempo.
       - Tullah passou um ano trabalhando em Haia - Olivia contou ao tio, sorrindo para a amiga. - Mais uma coisa que voc e Saul tm em comum - disse, voltando-se 
para Tullah. - Saul trabalhou l por um tempo. Foi assim que conheceu Hillary.
       - Sua esposa? - Tullah perguntou a Saul, com um tom indiferente na voz.
       - Ex-esposa - ele a corrigiu com calma, mas ela percebeu que ele a fitava como se ciente da animosidade dela.
       Ela desconfiou que estar ciente no queria dizer que ele estivesse particularmente preocupado. Mas tambm, por que estaria? Saul podia ser considerado, dentro 
de qualquer critrio normal, um homem muito atraente e elegante e, a julgar pelo modo com que Olivia e Jenny falavam 1 com ele, dava para ver que elas tinham uma 
queda por ele. j Ele certamente no era o tipo de homem que jamais se queixaria de falta de companhia ou de aprovao por parte das mulheres, mas ela seria uma das 
excees. Tullah admirava bastante a maneira amigvel e calorosa com que Caspar o tratava, levando-se em considerao que Saul tentou deliberadamene destruir o 
relacionamento de Cas par e Olivia.
       - Saul, a Aarlston parece ser uma tima empresa para se trabalhar, de acordo com o que voc nos disse sobre eles - Jon interveio diplomaticamente.
       - E so - Saul confirmou, e disse mais. - Na verdade, a empresa  reconhecida como lder no campo da igualdade sexual, sendo tambm uma das primeiras multinacionais 
no s a oferecer creche para as funcionrias com filhos, mas tambm a introduzir a licena-paternda-de automaticamente to logo a criana nasa. Com certeza ela 
foi tima para mira em relao  quantidade de tempo que tive de me ausentar por causa das crianas, especialmente devido ao processo de custdia.
       - Sempre fico impressionada de ver como muitos homens parecem desenvolver um forte instinto paternal quando esto sob ameaa de perder os filhos - Tullah 
comentou, provocando Saul e dirigindo-lhe um olhar cido.
       - Alguns pais podem desenvolver, uma tendncia a subestimar seu papel na vida dos filhos - Jon concordou amistosamente.
       Saul nada disse, mas Tullah sabia que estava sendo atentamente observada por ele, e a forma com que ele a olhava no indicava que sua concentrao nela se 
devia a qualquer tipo de desejo masculino ou de aprovao.
       Tanto melhor! Se ela tinha conseguido achar um ponto fraco por debaixo de sua arrogncia e autoconfiana, ti-mo. Ainda podia se lembrar da angstia que seu 
pai causou a todos ao insistir em seus direitos de visita, os quais em geral ele acabava se esquecendo de exercer ou, quando lembrava, acabavam sendo visitas insuportveis 
nas quais Tullah ficava vendo televiso em seus aposentos, proibida de perturb-lo enquanto ele trabalhava. Mas tambm,  claro que o que ele queria nq era a companhia 
dos filhos. No, o que ele queria era simplesmente privar a ex-esposa da companhia deles e tornar a vida dela o mais difcil possvel.
       Olivia comeou a recolher os pratos de sopa vazios e Tullah se apressou em ajud-la.
       - No precisa... - Olivia comeou, mas Tullah fez que no com a cabea e rapidamente recolheu o seu prprio prato e o de Jon, mas ficou tensa ao perceber 
que Saul tinha pego seu prprio prato e o estava passando para ela.
       A tentao de simplesmente ignor-lo foi to forte que ela quase o fez, mas antes de lhe dar as cosias, seus olhares se cruzaram.
       A compreenso cnica que ela pde ver foi desconcer-tante, porm foi quase nada em comparao ao modo calmo, mas determinado, com que ele virou o jogo, dizendo 
a ela:
       - Sente-se, eu cuido disso - e se levantou, parecendo se impor a ela com a altura. Pegou os pratos que ela segurava com o maior jeito e ento, ao afastar-se, 
disse calorosamente a Olivia - Esta sopa estava deliciosa. Voc precisa me dar a receita.
       - Ah, mas  bastante simples - Olivia comeou a dizer enquanto ambos caminhavam em direo  cozinha.
       - Voc s vai precisar  de uma boa batedeira.
       - Saul est determinado a garantir um lar estvel para as crianas, no ? - Jenny comentou quando ele e Olvia j estavam na cozinha e no poderiam escutar. 
- Eu realmente o admiro pelo que ele est tentando fazer.
       - Por que um homem que  pai solteiro atrai muito mais simpatia do que unia mulher na mesma situao? - Tullah perguntou, de modo azedo. - E Saul no  sequer 
um pai solteiro em perodo integral. - Ela fez silncio quanto a porta da cozinha se abriu e Saul e Olivia voltaram.
       Tullah notou que havia deixado Jenny um pouco surpresa pelo seu comentrio hostil, mas estava ficando muito irritada de ouvir Saul ser elogiado por algo que 
de fato no merecia.
       - Voc teve muitas oportunidades de visitar os museus enquanto estava trabalhando em Haia?
       - Alguns - Tullah respondeu a Saul, nitidamente no querendo prolongar o papo. Estava decidida a no alimentar qualquer conversao com ele. Quanto mais ficava 
sentada ouvindo as pessoas, mais claro ficava como todos, mas principalmente Jenny e Olivia, tinham Saul em alta estima, o que, por alguma razo, a fez ficar mais 
determinada ainda a manter sua animosidade para com ele. Por que, afinal de contas, um homem deveria ser elogiado simplesmente por se responsabilizar por seus prprios 
filhos durante um final de semana por ms, ou fosse qual fosse o acordo firmado no caso de Saul? Mesmo assim, parecia que ele no conseguia passar o tempo todo com 
eles, dando um jeito de encontrar algum para tomar conta deles para poder sair para jantar e se deleitar com a admirao e afeio de suas parentas. Que pai!
       Ela ainda se lembrava muito bem como seu pai havia feito a mesma coisa, deixando os filhos com a me dele, com a desculpa de ter uma reunio de negcios.
       - Tullah... Eu estava falando com Saul na cozinha sobre a casinha que voc viu hoje  tarde. Tullah se apaixonou por uma casinha que viu hoje  tarde - ela 
explicou aos outros. - ...
       -  totalmente fora de questo - Tullah a interrompeu rapidamente - e completamente impraticvel.
       - De vez em quando  bom no sermos prticos, nos permitirmos sonhar acordados... fantasiar - ela ouviu Saul dizer. - Afinal, nossos sonhos so parte importante 
daquilo que nos faz humanos.
       Tullah sentiu um pequeno frisson de sensao lhe percorrendo a espinha, mas quando encarou-o para rebater o que ele havia dito viu que ele estava olhando 
para Olivia... e que ela tinha um sorriso largo nos lbios".
       Ela sentiu a cabea doer. Estava cansada e sabia bem que era uma estranha em meio queles parentes to ligados uns aos outros que dividiam a mesa com ela.
       - Quando Louise entra de frias da faculdade? - Saul perguntou a Jenny com um tom aparentemente fortuito.
       Tullah enrijeceu o corpo com o choque e o horror de ouvir Saul perguntar a Jenny to casualmente sobre sua filha, uma menina que devia ser quase vinte anos 
mais jovem que Saul, e de quem ouvira falar que tinha uma forte queda por ele. Viu que Jenny tambm pareceu desconfortvel, pois ela trocou rpidos olhares com o 
marido antes de responder, rapidamente.
       - Na .verdade, nem to cedo, apesar de ela ter dito que viria para casa antes. Parece que suas aulas terminam um pouquinho depois do encerramento oficial 
do perodo.
       Estava bem claro que Jenny estava desconfortvel de conversar com Saul sobre a filha, e no era de admirar, considerando que Tullah sabia da situao entre 
eles. De fato, Tullah ficou mesmo impressionada com a tolerncia de Jenny e com a tremenda cara-de-pau e a evidente desconsiderao de Saul pelos sentimentos de 
Jenny e Jon.
       De modo geral, Tullah sentiu um grande alvio quando a noite finalmente se encerrou e Jon e Jenny se levantaram para ir embora. Poucos depois Saul fez o mesmo, 
aps recusar uma dose de licor.
       Gaspar se ofereceu para acompanh-lo e, quando ambos j tinham sado, Tullah acompanhou Olivia at a cozinha para ajud-la com a loua.
       - Saul  um amor - Olivia comeou, calorosamente, enquanto punha os pratos na lavadora. - S espero...gostaria... - Ela parou de falar ao ver a expresso 
de Tullah. - Voc no gosta dele, no ? - perguntou  amiga.
       - Desculpe, Olivia - Tullah disse -, mas no gosto. Eu sei que ele  seu primo, que  da sua famlia, mas... - Respirou fundo e levantou a cabea, forando 
a si mesma a encarar Olivia, que tinha uma expresso de desalento.
       - Ele tem tudo que eu mais detesto em um homem, Olivia. Eu sei que voc... que voc e ele... - Balanou a cabea de modo estranho. - Quer dizer, veja s a 
maneira que ele deixou os filhos para vir para c esta noite. Um homem assim no merece ser pai. Ele...
       - Tullah... - ela ouviu Olivia interromp-la com um tom de aviso contido, mas j era tarde demais. Tullah acompanhou seu olhar e, ao se virar, deu de cara 
com Saul, logo atrs dela, com uma expresso de fria.
       - Para seu governo, a nica razo pela qual deixei meus filhos, de acordo com sua interpretao maldosa, para vir aqui hoje foi porque Olivia me pediu...
       - Saul... - Olivia interveio, tentando contemporizar.
       - Tullah no teve a inteno... ela no entendeu que...
       - No, ao contrrio, entendi perfeitamente - Tullah objetou sumariamente.
       - Eu voltei para me certificar se ainda est de p deixar Meg com voc segunda-feira  noite - Saul perguntou a Olivia, ignorando Tullah completamente.
       - Sim, claro que est. Caspar ir peg-la na escola e traz-la.
       Saul deu a volta para ir embora, mas pareceu hesitar e voltou-se para Tullah, fulminando-a com o olhar, falando calmamente:
       - Espero que voc se mostre mais criteriosa e responsvel em suas atitudes no trabalho do que em suas atitudes com seus conhecidos - ele disse, friamente. 
- Porque, caso contrrio...
       - Caso contrrio o qu? - Tulah o desafiou, empinando o queixo. Ele podia ser hierarquicamente superior  a ela na empresa, mas estava envolvido com o lado 
transa-| tlntico do negcio e graas aos cus, eles dificilmente teriam muito contato um com o outro.
       - Tenho de ir, Livvy - Saul disse, ignorando-a mais uma vez. - Prometi a Bobbie que voltaria antes da meia-noite. Ela e Luke querem passar algum tempo com 
tia Ruth e Grant antes de voltarem para Boston.
       - , eu sei - Olivia respondeu. - Acho que foi maravilhoso que Ruth e Grant tenham feito um acordo pr-nupcial de passar seis meses por ano na Inglaterra 
e seis meses nos Estados Unidos.
       - Uma deciso digna de Salomo -Saul concordou, sorrindo. Seu sorriso desapareceu ao se voltar para Tullah e dirigir-lhe um curto aceno de cabea antes de 
dar um sumrio " boa-noite".
       Tullah mal pde esperar para que a porta se fechasse atrs de Saul para dizer, com a voz rouca:
       - Voc se importa se eu for dormir, Livvy? Estou com um pouco de dor de cabea e...
       - No, no, pode subir - Olivia assegurou. Tullah sabia que seu antagonismo contra Saul a havia perturbado, mas no havia como se desculpar nem voltar atrs 
no que dissera.
       Uma hora depois, j na cama, aninhada nos braos de Caspar, Olivia disse a ele, sonolenta:
       - No consigo entender porque Tullah no gosta de Saul, logo dele, que  sem dvida um dos homens mais legais que se pode conhecer. Tio Hugh costumava dizer 
que Saul fez bem ao decidir trabalhar no ramo industrial, pois, a despeito de suas qualificaes, ele no tem agressividade para se destacar num tribunal. Luke, 
por outro lado, tem de sobra e...
       - Hummm... Ela realmente parece no gostar dele - Gaspar concordou, beijando-a no alto da cabea e depois acrescentando. - Que bom que voc no escolheu a 
ele para ser o pai dos filhos que voc decidiu que Tullah deseja ter. - Ele riu ao pensar na ideia.
       - Saul e Tullah... No, nunca daria certo - Olivia disse, rindo.
       - Papai...
       - Hummm - Saul respondeu, abaixando-se para tirar, um fio de cabelo do rosto da filha mais nova. Ela estivera chorando durante o sono, em mais um dos pesadelos 
que andava tendo desde que foi viver Estados Unidos com a me e o padrasto. Aps acord-la gentilmente e acalm-la, Saul a observou com ternura  luz do pequeno 
abajur de criana enquanto esperava que terminasse de dizer o que havia comeado.
       - Voc no vai sair e nos abandonar, vai?
       Ele conseguiu dar um jeito de resistir ao impulso de arranc-la da cama e abra-la bem forte.
       - Bem, s vezes tenho que sair para trabalhar - ele respondeu com calma - e s vezes voc tambm vai embora, quando tem de ficar com a mame, mas prometo 
que nunca ficarei longe muito tempo, boneca.
       
       - Eu tenho que ficar com mame mesmo que no queira?
       Saul sentiu um aperto no corao.
       Tentou explicar aos filhos, da melhor maneira que pde, que eles eram filhos de Hillary tanto quanto dele, e que ela os amava e os queria com ela. Os outros 
dois, Ro-bert e Jemima, haviam entendido, apesar de terem deixado claro que seu desejo era ficar com ele. Mas com Meg, contudo, estava sendo bem mais difcil explicar 
que no era s uma questo legal, mas tambm sua prpria convico de que, em determinada poca de suas vidas, os trs filhos iriam querer ter contato com a me 
e, se ele cedesse agora, iria se sentir culpado no s por priv-los de um lao afetivo que eles precisavam ter, mas no final seria provvel que eles acabassem culpando-o 
por tomar uma deciso daquelas, quando eles no tinham maturidade emocional para opinar. E foi por isso, por causa deles, que ele fez de tudo para que seu divrcio 
e a subsequente custdia fossem menos amargos, dentro do possvel.
       Levara muito tempo para que ele esquecesse o telefonema que recebeu de Hillary trs meses antes, exigindo aos gritos que ele tomasse um avio at os Estados 
Unidos e pegasse os filhos, pois eles estavam destruindo sua relao com o marido, que havia exigido que ela decidisse entre os filhos do primeiro casamento e ele.
       Como era de se esperar, em se tratando de Hillary, ela havia escolhido o marido. Hillary jamais tinha sido maternal. Eles haviam se casado impetuosamente 
e sem de fato conhecerem um ao outro, e Saul ainda se sentia culpado pelo fato de, mesmo sabendo como Hillary era mal preparada para lidar com duas crianas pequenas, 
ter cedido ao seu desejo de ter um terceiro filho para tentar remendar o casamento fracassado.
       Mas por mais que se arrependesse das razes que levaram  concepo de Meg jamais se arrependeria de t-la, e estava determinado a jamais deixar que ela soubesse 
que tinha sido, em vrios sentidos, o ltimo prego no caixo do casamento deteriorado dos pais.
       "Eu nunca quis ter filhos. No gosto de crianas", Hillary jogara na cara dele de modo petulante em um de seus frequentes embates. E Saul sentia vergonha 
de lembrar que tinha retaliado, em um tom to desaforado quanto o dela, "bem, com certeza voc no parece gostar dos meus."
       Dele. Bem, eram com certeza dele, pela lei e pelo sangue.
       - Mas como voc vai fazer? - Ann, me de Saul, perguntou a ele, ansiosa, na primeira vez que ele disse estar disposto a lutar pela custdia integrai dos filhos.
       - Veja - Saul respondeu  me -, voc e papai tm suas prprias vidas para viver. Todos ns sabemos como papai est ansioso para se aposentar. Eu vou dar 
um jeito, no se preocupe com isso.
       E at segunda ordem estava mesmo dando seu jeito, apesar de vezes, como naquela noite, em que a bab de sempre no podia ir e ele era forado a engolir seu 
orgulho e pedir ajuda  famlia.
        claro que uma soluo seria contratar algum por tempo integral, para morar com eles, mas ele no queria que as crianas se sentissem como um peso que ele 
estava transferindo para os outros, e com certeza no queria que elas pensassem que ele no as amava ou no as queria por perto, principalmente a pequena Meg, que 
havia voltado dos Estados Unidos com uma insegurana e uma carncia de cortar o corao.
       - Voc se divertiu na casa da tia Livvy? - Meg perguntou a ele.
       - Sim, bastante, obrigado - Saul mentiu. Quando Olivia lhe telefonou para convid-lo, dizendo toda animada que sua amiga, aquela recm-contratada para trabalhar 
na mesma empresa que ele, estaria no jantar e lembrando-o que eles j haviam se encontrado no casamento com Caspar e no batizado de Amlia, ele no poderia imaginar 
a noite que lhe esperava.
       Sim, ele lembrava de Tullah. Qual macho heterossexual com sangue nas veias no lembraria? Ela tinha o visual, a aparncia que produzia um apelo instantneo 
 psique masculina. Havia algo na combinao daqueles cabe-', los grossos e brilhantes, aquela pele suave e o corpo maravilhosamente delineado por curvas que sugeriam 
uma sensualidade e uma exuberncia que produziam um efeito bem mais imediato e estonteante nos hormnios masculinos que qualquer mulher magrela, do tipo modelo, 
que a mdia gostava tanto de enaltecer.
       Qual homem que, ao ver a boca carnuda e suave de Tullah, e seus seios ainda mais carnudos e suaves, poderia.. resistir a imaginar como seria perder-se no 
puro prazer de toc-la, acarici-la, fazer amor com ela?
       Estes pensamentos podiam ser politicamente incorretos, mas sem dvida representavam uma parte importante do que fazia dele um homem e eram, ao menos na cabea 
de Saul, aceitveis, conquanto permanecessem restritos e controlados na imaginao. Mas havia acabado de descobrir naquela noite que Tullah tinha sua maneira muito 
prpria de garantir que quaisquer fantasias ntimas masculinas que a envolvessem fossem afastadas bem rapidamente.
       Talvez fosse o choque causado pelo contraste entre a suave e feminina exuberncia do corpo aparentemente caloroso de Tullah e seus modos hostis e incisivos, 
chegando a beirar a agressividade, o que o deixava to desconcertado com a animosidade dela por ele. Ou talvez fosse simplesmente um gene masculino de vaidade, por 
ela ser to desdenhosa e altiva para com ele. Ele no sabia o que era. O que sabia era que ele passara por momentos difceis tentando se controlar para no revidar 
ao tratamento agressivo e aos comentrios venenosos, tanto como acusado quanto como protagonista.
       E o problema no se limitava ao fato de que ela era meramente uma amiga de Olivia. Havia outras complicaes. Ela iria trabalhar para a mesma empresa e...
       Meg soltou um pequeno ronco, o que significava que havia finalmente cado no sono. Ao se abaixar para beij-la delicadamente na bochecha e cobri-la, Saul 
pensou ironicamente o que diabos ele tinha fito de to terrvel para merecer tantos problemas.
       Primeiro, seu casamento com Hillary, depois o problema que enfrentara com Louise, e finalmente Tullah. Cansado, voltou para seu quarto e jogou o robe que 
vestia sobre uma cadeira antes de puxar as cobertas e se recolher.
       Era irnico o efeito que um mau casamento, uma m relao, causava. Ele agora estava na verdade gostando de dormir sozinho. Era um alvio poder acordar de 
manh sem Hillary por perto, ambos j prontos para comear o prximo round em sua constante batalha. Exausto, fechou os olhos.
       Saul suspirou prazerosamente em seu sono, inalando profunda e sensualmente o perfume delicioso da mulher em seus braos; ela no tinha cheiro de perfume caro 
e sim seu prprio aroma, bastante especial, profundamente feminino e intensamente ertico. Ele estava bem ciente disso e dela durante todo o jantai', e lhe doa 
fazer o que estava fazendo, sentir o cheiro dela: ele provou daquele aroma em seus lbios enquanto beijava a suave curva de seu pescoo, mordiscando-o todo, passando 
pelo maxilar  at chegar  boca.
       Seu cabelo era como uma nuvem escura de cetim suave e sedoso, pesado, to perfumado quanto ela por inteiro, com seus braos curvilneos e macios e os contornos 
inebriantes e femininos de seus seios. Ele deliberadamente se permitiu demorar no prazer, pelo qual tanto ansiava, de beijar aquela boca.
       Tocando a suavidade aveludada da parte interna de seu antebrao, ele sentiu o corpo dela tremer todo enquanto ! ele gentilmente acariciava seu cotovelo com 
a ponta da} lngua, at que ela afastou o brao para poder abra-lo :J forte, pedindo que fizesse amor " direito" com ela.
       - "Direito"... O que voc quer dizer com "direito" ? O que  " direito" ? - ele zombou  meia-voz enquanto ela o  abraava mais e mais forte, seus mamilos 
duros roando < contra sua pele, levando-o  loucura de tanto desejo.
       - Pare de falar e me beije - ela sussurrou, voltando  insistentemente o rosto dele em direo ao dela com a mo, seus lbios entreabertos...
       - Hummm... - Saul passou a mo pela parte inferior de seu corpo, tentando no se deter em nenhuma parte especfica, nem mesmo no calor acetinado da parte 
interna de suas coxas, que f-la tremer ao ser acariciada. - Ah, eu vou beij-la sim, Tullah - ele falou, com a voz emba-ada. Ela gemeu suavemente mais uma vez 
e se contorceu avidamente contra ele. - Vou beijar voc at que essa boca deliciosa, irresistvel e gostosa que voc tem fique...
       - Papai... papai. Acorde. Estou me sentindo mal... Saul abriu os olhos com relutncia e piscou, aturdido ao ver o filho.
       - Estou me sentindo mal - Robert repetiu, com insistncia. - Eu...
       - Certo, tudo bem... vamos l... - Saul j estava de p, tomando Robert nos braos e correndo para o banheiro com ele.
       Robert havia tido crises srias de gastrenterite quando beb, to srias que o mdico chegou a levantar a possibilidade de ele no sobreviver. Ele havia sobrevivido, 
mas seu sistema digestivo era muito sensvel.
       Saul sabia, por experincia, que as crises de Robert eram lancinantes, mas, felizmente, curtas. De toda forma, tudo levava a crer que ele no conseguiria 
mais dormir muito naquela noite, o que provavelmente no era de todo mau, considerando a natureza extremamente ertica e enormemente inapropriada do sonho do qual 
seu filho o acordara.
       O subconsciente era uma coisa estranha, uma coisa muito estranha, ele concluiu, e baniu com veemncia a sedutora e insistente imagem de Tullah deitada em 
sua cama, voluptuosamente nua, ainda quente aps fazerem amor.
       Que ele sonhasse com ela j era ruim o suficiente, mas muito pior era ter gostado tanto daquele sonho, ter ficado to excitado com ele, to determinado a 
continuar sonhando que chegou mesmo a relutar em ser acordado e atender a Robert.
       Ele nem se lembrava da ltima vez que havia tido um sonho daqueles. Na verdade, para ser honesto, no se lembrava de jamais ter tido um sonho to intenso 
e excitante. Nem mesmo com...
       - Papai...
       - Est tudo bem, Robert.
       Rejeitando severamente seus pensamentos, tratou de cuidar do filho.
       
       
     Captulo Trs
       
       -Amiga vou cruzar os dedos para que a oferta que voc fez para a casinha na fazenda seja aceita - Olivia prometeu enquanto dava um abrao de despedida em 
Tullah.
       Ao corresponder ao abrao, Tullah sentiu-se culpada por saber que no tinha sido exatamente uma hspede perfeita. Era totalmente contra seus princpios agir 
de maneira escusa ou desleal. No podia fingir compartilhar da tica cor-de-rosa com que Olivia via o primo, mas tampouco queria partir sem tentar explicar a Olivia 
o porqu de no gostar daquele tipo de homem.
       - Livvy, quanto  noite de ontem... - ela comeou um tanto sem jeito - imagino que voc deve ter pensado que exagerei em relao a Saul e...
       - Bem, voc me surpreendeu muito - Olivia admitiu tristemente, interrompendo-a. - Voc deve ser a primeira mulher que j vi ter uma reao assim com Saul.
       Tullah abriu a boca para alegar que a outra mulher no devia t-lo em to alta conta, do contrrio no teria se divorciado, mas antes que pudesse dizer alguma 
coisa, Olivia continuou:
       - Mas veja bem, talvez seja melhor assim. A situao j est difcil o bastante no momento com Louise se dilacerando de paixo por ele.
       - Sim - Tullah concordou. - Compreendo que seja uma situao esquisita para... para os pais dela. Deu para ver como Jenny pareceu desconfortvel ontem  noite 
quando Saul perguntou a ela quando Louise voltaria para casa.
       Todo o desprazer e desaprovao que sentia pelo comportamento de Saul de no apenas permitir, mas tambm encorajar ativamente a queda de Louise por ele, transpareceu 
na maneira com que falou.
       -  tpico desse tipo de homem no pensar duas vezes se estaria ofendendo ou ferindo Jon e Jenny ao tocar no nome de Louise. Era bvio que eles no estavam 
nada felizes com a situao, e ningum poderia culp-los. Quer dizer, sei que  seu primo, Livvy - Tullah disse a ela incisivamente, com as emoes lhe turvando 
os olhos enquanto lembrava como se sentira pelo casal na noite anterior. - Mas que tipo de homem... qual homem decente, carinhoso, maduro, de bem consigo mesmo, 
em paz com a prpria sexualidade, precisa ficar seduzindo uma srie de meninas mais jovens e ingenuas para massagear o prprio ego?
       Quando Tullah parou para respirar, viu que Olivia parecia bastante chocada.
       - Desculpe - disse, com pesar. -  claro que sei que voc no pensa o mesmo que eu e que sua opinio sobre Saul  bem diferente da minha, especialmente tendo 
em vista o... o relacionamento que voc e ele...
       - Tullah, Saul e eu... - Olivia comeou, mas parou ao escutar o choro de Amlia, que estava brincando alegremente a poucos metros no jardim. - Ah, no! Provavelmente 
ela tentou pegar outra abelha - explicou a Tullah. - Amlia, querida...
       - Ah, querida - Tullah condoeu-se enquanto trocavam outro abrao rpido e se afastaram. Oivia foi salvar tanto a abelha indignada quanto sua filhinha, enquanto 
Tullah entrava em seu carro.
       - Acho que descobri por que Tullah no gosta de Saul - Olivia comentou com Caspar no jantar, muitas horas depois de Tullah ter ido embora.
       - Hum... Voc quer dizer que existe uma razo, e no  s por ela ser uma mulher de gosto e bom senso incomparveis, que no pode deixar de preferir um tipo 
como eu? - Caspar brincou.
       - No, lamento dizer que monopolizei essa marca em particular de bom gosto e bom senso - Olivia o informou com seriedade, tentando no rir.
       - Ah, bem, prossiga ento. Qual a razo profundamente traumtica por trs de tanta averso?
       - No tem graa, Gaspar. Ao menos no quando se sabe do passado de Tullah. Os pais dela se divorciaram quando ela era adolescente e, pouco depois, um homem 
mais velho... um amigo da famlia, na verdade, por quem ela tinha uma forte queda, o qual, ao invs de ver que o que ela estava mesmo procurando era um pai substituto, 
resolveu usar a inocncia e ingenuidade de Tullah para alimentar a prpria vaidade. Ela tinha apenas dezesseis anos de idade e achava que o amava. Ele disse a ela 
que seu casamento estava acabado, ela caiu na conversa dele e agora parece que concluiu, de maneira totalmente equivocada, que Saul est fazendo com Louise a mesma 
coisa que o tal homem fez com ela.
       - Ahhh... Agora comeo a entender. E  claro que voc explicou a ela... - Caspar disse, enquanto comeava a se servir de um pouco mais de pudim.
       - No... Amlia foi brincar de novo de pegar abelhas e comeou a chorar antes que eu pudesse terminar de falar e, quando consegui acalmar Amlia e afastar 
a abelha, Tullah j tinha ido embora. Voc acha mesmo que devia comer isto tudo? - ela perguntou ao marido. - Este creme  cheio de colesterol e voc...
       - Preciso de energia - Gaspar retrucou. - Ou voc mudou de ideia quanto a tornar a vida de nossa caadora de abelhas mais emocionante e com um pouquinho mais 
de competio com a presena de um irmo ou irm?
       - De jeito nenhum - Olivia respondeu, continuando com um tom provocante. Mas se formos fazer isso, posso imaginar maneiras muito melhores de usar este creme...
       - E quais so? - Gaspar perguntou insinuantemente.
       - Achei que voc no conseguiria chegar a tempo - Olivia comentou calorosamente com Saul ao encontr-lo com os filhos na sala de espera do aeroporto.
       A famlia toda havia se reunido para se despedir de Ruth e Grant, que estavam de partida para os Estados Unidos, como faziam duas vezes por ano.
       Aps cinquenta anos de separao, um pensando ter sido trado pelo outro, encontravam-se agora unidos e felizes, e resolveram fazer valer o burlesco acordo 
de manter a agradvel rotina de passar trs meses em Haslewich e trs meses na casa de campo de Grant na Nova Inglaterra.
       Seriam Bobbie, a neta americana de Ruth, e seu primo Luke, que iriam sentir mais falta deles, Olivia reconheceu. Para a viagem foi feita uma concesso muito 
especial a Joss, o filho mais novo de Jon e Jenny, que sempre fora muito apegado a Ruth e Jack, irmo de Olivia. Ambos iriam viajar com o casal e passar um tempo 
na Nova Inglaterra com aquele ramo da famlia.
       - Hummm... Eu estava com medo de no chegar a tempo - Saul respondeu aps abraar Ruth demoradamente e apertar a mo de Grant. - Robert teve outra noite daquelas.
       - Ah, querido, ele est...?
       - Ele est bem agora - Saul assegurou, antecipando sua pergunta e indicando com a cabea os trs filhos, que estavam misturados a um pequeno grupo de membros 
mais jovens da famlia, incluindo Joss e Jack.
       - Com Robert passando mal e Meg tendo pesadelos fica mesmo difcil ter uma noite de sono - Olivia disse, demonstrando compreenso.
       - Fica mesmo - Saul admitiu, entristecido. - E no s por causa das crianas.
       Mas quando Olivia olhou para ele como quem no entendera, ele simplesmente balanou a cabea. No havia a menor chance de falar, nem mesmo com Oivia, sobre 
seu sono ter sido perturbado no s pelas crianas, mas principalmente pelos sonhos com sua convidada de fim de semana, sonhos de uma sensualidade to intensa que, 
se ele no fosse um homem maduro de trinta e tantos anos, ficaria envergonhado s de lembrar.
       - Ah, vov... Gostaria tanto de ir com o senhor - Bobbie disse com um tom choroso na voz, abraando forte o av ao ouvir a chamada para o embarque.
       - Muito obrigado - Luke, seu marido, brincou, olhando ao redor em busca de algum que segurasse sua filhinha enquanto consolava a esposa.
       - Deixe que eu seguro - Saul se ofereceu, pegando a menina com jeito e colocando-a confortavelmente contra o ombro, enquanto Meg veio para perto dele e ele 
sentiu sua mozinha segurando a dele.
       - Posso dar uma olhada na Francesca? - ela pediu. Enquanto observava o beb adormecido, Meg o informou, toda comunicativa - Minha amiga da escola, a Grace, 
bem, a me dela vai ter um beb. Ns vamos ter outro beb algum dia, papai? - completou, franzindo a testa.
       - No seja boba, Meg. S as mes podem ter filhos, e ns...
       Saul ficou aborrecido consigo mesmo ao ver que Robert tinha escutado o que ele disse e estava implicando com a irm menor.
       - Eu no sou boba - Meg respondeu, alterada. - Sou, papai?
       Jemima, sua filha mais velha, olhava para os dois irmos com desaprovao. Sua Jeminha, Saul assim a chamava. Sentia que o fim do casamento tinha sido bem 
mais sofrido para ela do que para os mais novos. Aos oito anos de idade ela j era mentalmente madura para sua idade, estava comeando a entender a complexidade 
das relaes adultas e que os adultos no eram infalveis.
       Ele sempre achou que ela sara mais  me do que a ele, e ficou surpreso ao descobrir como ela quisera to apaixonadamente voltar para a Inglaterra e ficar 
com ele.
       
       - Nossa me no vai ter mais filho nenhum - ela disse aos irmos com um tom severo na voz. - Ela no gosta de crianas.
       Saul perdeu o flego.
       O que Jemima disse era essencialmente verdade. Hillary no gostava de crianas e j tinha informado a ele que, como seu novo marido tampouco gostava, ela 
havia decidido submeter-se a uma esterilizao.
       - Algo que deveria ter feito antes de casar com voc - ela disse a ele, incisiva e amarga, ao comunicar-lhe que no se opunha a que ele tivesse a guarda integral 
dos filhos.
       - Ela ama vocs - ele disse aos trs filhos, que o fitavam. E como poderia no ser verdade? Hillary podia no gostar de crianas, mas certamente teria amor 
pelos filhos. Qual me no teria?
       Aos oito, sete e cinco anos de idade, os trs haviam sido concebidos com intervalos curtos demais para uma mulher que no era particularmente maternal, ele 
reconhecia. E tambm reconhecia que boa parte da responsabilidade com eles nos primeiros anos, especialmente quanto a Jemima e Robert, havia cado sobre os ombros 
de Hillary.
       Com Meg havia sido diferente; sua ltima e desesperada tentativa de salvar e fortalecer o casamento atravs da concepo de Meg havia sido um erro danado, 
sobretudo para com a prpria Meg.
       Seis semanas aps seu nascimento, ele chegou em casa certa tarde, levado sabe-se l por que intuio paternal, e encontrou Hillary a ponto de partir para 
os Estados Unidos, sem as crianas e, ao que parecia, sem a menor inteno de avisar nada a ele.
       Mais tarde naquele dia, sem conseguir persuadir Hillary a mudar de ideia, foi pegar os filhos, que estavam com a bab, e prometeu mentalmente que, mesmo talvez 
tendo falhado como marido e amante, no falharia como pai...
       - Quando Louise vem nos visitar de novo? - Meg perguntou mais tarde, enquanto voltavam para casa. - Eu gosto dela.
       - Ela no gosta de voc - Jemima disse, com desprezo na voz. - Ela s vem aqui para ver papai.
       - Jem... - Saul avisou, olhando pelo retrovisor de cara feia, ao mesmo tempo em que supervisionava Meg.
       Eram todos to vulnerveis... cada um a seu modo. Meg com seu medo de escuro, to carente; Rob e sua mania de achar que meninos no choram, preferindo ficar 
se sentindo mal, e Jem... grande, corajosa, com um qu de cinismo e uma defesa planejada que se apresentava como um misto de desdm e raiva.
       O que Tullah disse no sbado o fez lembrar de Jemima.
       Tullah...
       No comece, avisou a si mesmo. Voc j tem problemas demais para procurar por mais um.
       -  impressionante imaginar que o primeiro ano de Louise e Katie na faculdade j esteja quase no fim - Jen-ny comentou com Jon enquanto iam para casa aps 
se despedir de Ruth e Grant.
       -  mesmo - Jon respondeu.
       - Eu ainda tinha minhas esperanas que, agora que Louise est na faculdade, aquela queda que ela tem por Saul fosse desaparecendo aos poucos. Ela s vezes 
me deixa preocupada, Jon.  to geniosa e cabea-dura.
       - Nem me diga - Jon respondeu com indiferena na voz. - Ela  mesmo uma Crighton, de cabo a rabo.
       - Temo que ela venha a ter uma vida difcil se no aprender a se dobrar um pouquinho de vez em quando - Jenny suspirou. -  difcil acreditar que ela e Katie 
so gmeas. s vezes demonstram ter temperamentos to diferentes.
       - No  to difcil entender - Jon comentou. - E s ver como David e eu somos diferentes.
       Jenny olhou para o marido. Aps todos aqueles anos e tudo que David fizera, Jon ainda punha o irmo na frente ao falar sobre ele.
       - Voc acha que um dia ainda teremos notcias dele? - ela perguntou, referindo-se ao fato de que, quando estava internado em recuperao de um infarto, o 
irmo de Jon e pai de Olivia havia simplesmente ido embora de suas vidas, sem dar qualquer explicao. J fazia mais de trs anos e eles ainda no sabiam nada de 
concreto sobre ele.
       - Quem sabe? Pelo papai, eu desejo e espero que ele d notcias. O velho no vai admitir, voc sabe como ele  cabeudo, mas acho que ele suspeita que no 
foi s a doena de Tiggy que o fez ir embora.  claro que no podemos nos arriscar a lhe dizer a verdade, mas ele se agarra  sua teimosia como se fosse uma bengala, 
ao invs de us-la como um porrete para dar na cabea de todos ns.
       Jenny riu.
       - Ben est ficando velho - ela disse ao marido.
       - E no estamos todos? - Jon respondeu, emotivo.
       - O que vamos fazer em relao a Louise? - Jenny tocou no assunto espinhoso. - Da ltima vez que ela veio para casa se tornou um tormento com essa fixao 
em Saul, se oferecendo para ficar com Hugh e Ann daquele jeito, e depois... com Saul morando agora to perto, vai ser ainda pior.
       - Ela  sua filha. - Jon disse, e ainda zombou. - Esse tipo de coisa  funo da me.
       -  sua filha, tambm - Jenny no perdeu tempo em retaliar, concluindo, triunfante - e como voc mesmo disse, ela  com toda certeza uma Crighton. A parte 
qualquer brincadeira, Jon, teremos de fazer alguma coisa... dizer algo. Se fosse Katie, por exemplo, ela estaria mortificada de pensar que algum tomasse conhecimento 
de seus sentimentos, mas por outro lado ela nunca perseguiria ningum como Louse est perseguindo Saul.
       -  uma pena que Ruth no v estar aqui enquanto Louise estiver de frias. Ela se sai muito bem com1 esse tipo de coisa. O melhor mesmo seria se Saul encontrasse 
algum... casasse de novo.
       - Saul casar de novo? - Jenny franziu o cenho. - Voc acha que ele faria isso? Ele ficou muito abalado ao se separar de Hillary, Lembro que ele me disse na 
poca que se sentia um fracassado. Que havia fracassado no s com Hillary e consigo, mesmo, mas com seus pais, com a famlia, sua criao e suas crenas... com 
tudo. Ele disse at que, mesmo sabendo que no amava mais Hillary, estava pronto para continuar com o casamento em nome das crianas.
       - A propsito, o que voc achou da convidada de Oli-via no ltimo fim de semana? - Jenny perguntou ao marido. - Ela era bem anti-Saul, no era?
       - Ah, era? - Jon perguntou, com uma expresso meio boba no rosto. - No prestei muita ateno ao que ela disse - ele admitiu, sorrindo para Jenny.
       - Ainda bem que  voc quem est dirigindo o carro, seno eu ficaria tentada a empurr-lo para fora. Por que sempre que um homem pe os olhos em uma moa 
um pouquinho mais bonita esquece que ela pode ser algum com pleno uso de suas faculdades intelectuais?
       - No esqueci - Jon objetou com um tom falsamente ofendido. -  claro que ela  inteligente... e muito bem qualificada, mas voc tem de admitir que ela ... 
bem, que ela...
       - Sexy - Jenny completou em um tom perigosamente dcil.
       - Sexy - Jon revirou os olhos. - Isto  o mesmo que chamar o Grand Canyon de vale. Ela ...
       - Pare de babar, Jon - Jenny disse, em tom de aviso. - Parece que est senil. Veja bem - ela acrescentou -, d para dizer que ela parece ser mais chegada 
s amigas que aos homens. Ela no parece fazer o tipo que gosta de flertes, nem tampouco parece lanar mo de seus, digamos, predicados.
       - No, ela faz mesmo o tipo srio. Ainda assim, morar em Haslewich provavelmente a far dar uma desacelera-da. Alis, quando  que Max e Madeleine vm nos 
visitar novamente?
       Jenny olhou para ele de maneira judiciosa.
       Max, seu filho mais velho, era um advogado de tribunal, em rpida ascenso em um dos escritrios mais conceituados de Londres. Era tambm a eptome de seu 
tio David, com todos os seus defeitos, alm de vrios outros defeitos prprios. E alm disso ele era lindo e sensual, casado com uma jovem muito dcil, mas um tanto 
sem graa, com a qual se envolveu somente por ser filha de um destacado j uiz da Corte Superior e neta de um membro da Cmara dos Lordes.
       Ainda se deveria adicionar ao quadro os ingredientes altamente volteis que eram um bebe, que Max no havia desejado, do que no fazia segredo, e vrias clientes 
bem relacionadas as quais, de acordo com as fofocas, ele seduzia at conseguir o que queria, razo pela qual Jenny sentiu um aperto no corao ao imaginar que Max 
pudesse vir a conhecer Tullah.
        claro que ele iria investir com tudo, simplesmente porque ele era aquele tipo de homem, mas felizmente Tullah no parecia ser do tipo de mulher que chegaria 
perto de corresponder.
       Ao ouvi-la suspirar, Jon olhou para a esposa com um brilho nos olhos.
       - Bem, com certeza no foi de mim que o seu filho e a sua filha herdaram esta libido to altamente desenvolvida.
       A boca de Jersny comeou a formar um crculo, como se ela fosse protestar, antes que ela percebesse que ele estava zombando dela, e ela disse:
       - Ah, no? E quanto  noite de ontem, hein?
       - O que tem isso? - Jon perguntou se fingindo de inocente, mas corou levemente.
       Jenny balanou a cabea e refrescou a memria de Jon.
       - No fui eu que tive de mentir a Joss, dizendo que precisava ir para a cama uma hora mais cedo por estar com dor de cabea.
       - No. Mas voc veio comigo assim mesmo - ele lembrou a ela.
       - Era minha funo como sua esposa - ela retaliou com firmeza. - Afinal, um homem da sua idade... uma dor de cabea podia ser... podia ser...
       - Uma desculpa para fazer minha esposa ir para a cama comigo para eu poder fazer amor com ela - Jon sugeriu suavemente, e acrescentou: - Bem, esta noite ns 
no precisamos de desculpa, no  mesmo? Temos a casa toda s para ns.
       - Duas vezes em uma s semana - Jenny protestou, em tom de brincadeira.
       - O que voc quer dizer com duas vezes em uma s semana - Jon murmurou. - Ns passamos da meia-noite ontem!
       - Bem, esta  a ltima. - Tirando os sapatos de salto alto, Tullah sorriu ao olhar para a me em meio s caixas caprichosamente fechadas. - Obrigada por me 
ajudar. - Balanou a cabea e acrescentou com tristeza: - Eu no tinha ideia de ter tantas coisas.
       - Bem, voc no pode chegar perto dos trinta sem acumular algumas coisas - a me respondeu.
       Tullah dirigiu-lhe um olhar irnico.
       - Voc s lamenta que eu tambm no tenha acumulado marido e filhos, no ? - brincou.
       A despeito da separao de seu primeiro casamento, depois do pai de Tullah t-la deixado pela secretria, Jean continuou sendo uma romntica incurvel, e 
casou pela segunda vez quando Tullah tinha seus vinte e poucos anos, aps ser intensamente cortejada por um homem que havia conhecido durante as frias.
       Tullah gostava do padrasto, que tinha verdadeira adorao pela me dela. Era um homem gentil cuja primeira esposa havia morrido dez anos antes que ele e sua 
me se conhecessem; no tinha nada a ver com seu pai.
       - No  que eu queira que voc se case, querida - Jean retrucou. -  s que... Bem, no d para deixar de achar que, se seu pai e eu no tivssemos nos divorciado 
e aquele homem horroroso no tivesse...
       - O divrcio no foi sua culpa. - Tullah a relembrou. - E, quanto quele homem horroroso... Eu devia ter percebido as verdadeiras intenes deie, em vez de 
ser to crdula.
       - Querida, mas voc tinha apenas dezesseis anos - a me objetou. - Ainda assim, talvez agora que voc vai sair de Londres pode ser que encontre algum que 
valha a pena,
       - Tenho c minhas dvidas. Haslewich  territrio dos Crighton e, a julgar por...
       - Territrio dos Crighton? - Jean parecia confusa. Tulah riu.
       - Desculpe.  s uma piadinha. Olivia, que na poca assinava ainda Crighon, e j trabalhou comigo, mora em Haslewich. A famlia dela  da regio.
       - Olivia... Ah, sim, voc foi ao casamento dela.
       -- E ao batismo de sua filha tambm. Ela me convidou para ficar hospedada em sua casa no ms passado, quando tive de ir a Haslewich para me encontrai- com 
o corretor imobilirio.
       Tullah levantou-se, foi at a pequena cozinha e comeou a encher uma chaleira com gua.
       
       - U... Voc no parece ter gostado muito. Vocs duas sempre se deram bem, no ?
       - Ah, sim, ns nos damos bem.  s que Olivia tem um primo... um tipo de primo. Ela tem tantos primos que no sei bem que tipo de primo  Saul.
       A me foi at a cozinha.
       - Descafeinado para mim, querida, se for caf o que est fazendo - disse  filha. - Mas quem  Saul?
       - Saul ... Sau - respondeu de modo evasivo, enchendo as xcaras de caf de gua quente. Completou, enquanto entregava uma das xcaras  me. - Ele  outro 
Ralph... mas um pouco pior.
       Tullah parou e franziu a testa antes de tomar um gole de seu caf, e ento explicou a situao.
       - Ele tem filhos, trs filhos, duas garotas e um menino - Tullah acabou dizendo. - Ento seria de se esperar que, como pai, ele ao menos entendesse um pouquinho 
como Jenny e Jon devem estar se sentindo.
       - Como ele ? Bonito?
       Tullah olhou para a me cuidadosamente. As vezes, como agora, a astcia de Jean ainda tinha a capacidade de surpreend-la. Instinto maternal ou simplesmente 
uma caracterstica de sua personalidade? Tullah no sabia bem. S sabia que jamais ficara to feliz na vida do que quando a me foi conversar com ela, muito delicadamente, 
sobre o que achava que estava acontecendo em relao a Ralph e pediu a Tullah para que se abrisse com ela.
       A dor de descobrir que estava sendo trada, de no ser amada por Ralph, podia ter desaparecido h muito tempo, junto com seus sentimentos de adolescente por 
ele, mas a humilhao, a angstia e a culpa ainda estavam com ela, ainda que amainadas pelo tempo. A nica coisa boa em todo aquele episdio foi saber que a me 
a entendia, no a rejeitava e acreditava nela.
       - Hummm... Acho que sim - confirmou de maneira evasiva, sem encarar os olhos da me e olhando para outro lado, fingindo observar os azulejos da cozinha enquanto 
dizia - Se voc gosta do tipo, eu, pessoalmente, no posso dizer o mesmo. De qualquer forma - concluiu, defensiva - acho muito superficial se atrair por um homem 
s pela aparncia.
       - Ah, sim, realmente - a me concordou, muito sria, mas depois comeou a rir.
       - Me! - Tullah a reprovou, mas tambm no conseguiu deixar de sorrir.
       - Bem. voc est certa - Jean cedeu quando ambas pararam de rir. - Uma cara bonita e mesmo um corpo bom no valem muita coisa, a no ser que sejam acompanhados 
por...
       - Um bom crebro - Tullah contraps severamente.
       - Bem... que tenha bom corao, ao menos - a me acrescentou. - Mas ele ... sexy? - perguntou, maliciosa.
       - Sexy... - Tullah tentou olhar para a me com reprovao, mas no conseguiu. Seus olhos brilhavam da mesma maneira que os de Jean.
       Elas, e a irm de Tullah, tinham o mesmo senso de hu mor peculiar e jovialidade, o que as ligava de uma manei ra que exclua o pai, que no era dos mais 
bem-humorados.
       - Bem, ele tem trs filhos - ela disse  me, em toi de brincadeira.
       - No quer dizer nada. Qualquer um pode...
       - OK, tudo bem. Ele  sexy - Tullah afirmou e depois fez silncio, impressionada consigo mesma no s por admitir aquilo, mas ainda mais por ter tentando 
reprimir uma percepo feminina de algo que, para qualquer outra pessoa, ela juraria no ter lhe passado pela cabea.
       - Ento... ento ele  bonito, sexy... e tem trs filhos. Ento me diga o que h de errado com ele - disse a me, aps t-la desarmado.
       - Ele  divorciado... ele ... Ele  que nem o Ralph e eu simplesmente no gosto dele - Tullah explicou.
       - Hummm... Bem, Olivia tem algum outro primo?
       - Me! - Tullah reclamou.
       - Est certo - Jean aceitou placidamente. - Mas voc no pode me culpar por tentar. No estou ficando mais jovem. Quero aproveitar meus netos e... tudo bem, 
tudo bem... Agora me diga, quais destas caixas voc vai querer que guardemos para voc, e quais voc pretende levar?
       - Vou ter de deixar a maioria destas coisas com voc por enquanto - Tullah confessou. - At que minha casa nova esteja pronta para ser habitada, estarei morando 
praticamente em um quarto.
       Aps se recuperar do choque de terem aceito sua oferta pela casinha na fazenda, o que a deixou mais impressionada foi o entusiasmo e a ansiedade que sentiu 
ao saber que ela seria sua. At agora tinha sido uma mulher urbana que s ia para seu apartamento para comer e dormir. A ideia de querer um "lar" fora, at ento, 
totalmente extravagante, mas agora ela estava ciente, constrangida, das revistas de papel brilhante de decorao postas cuidadosamente fora do alcance dos olhos, 
cheias de imagens de fornos de fazendas tradicionais, que ela tinha comeado a comprar desde que ficara encantada com o forno verme-lho-vinho de Olivia.
       Ela tambm se apaixonara perdidamente pela filha de dois anos de Olivia, lembrou pungentemente, mas nem por isso tinha comeado a pesquisar vitrines de lojas 
infantis ou...
       A me de Tulah sorriu.
       - Lucinda est convencida de que Stafford est comeando a sorrir direito.
       Tullah ficou olhando para a me. Como ela conseguia? s vezes podia garantir que a me era quase uma bruxa do bem. Como ela conseguia pinar de maneira to 
precisa o que ela estava pensando? Observou cuidadosamente o rosto de Jean. No havia qualquer sinal de malcia, ento por que ela havia escolhido exatamente aquele 
momento para falar sobre o beb da irm?
       - Ele ainda no tem idade para sorrir direito - ela replicou prontamente e depois xingou a si mesma entre dentes ao ver que a me estava boquiaberta. - Livvy 
disse que os bebes no sorriem direito antes de seis meses de idade - ela explicou, na defensiva - e Stafford tem apenas dez dias.
       - Voc sorriu desde o dia em que nasceu - a me contou, com toda a calma.
       Tullah dirigiu-lhe um olhar contundente.
       - Saul... - a me ficou pensando. -  um nome de homem bastante forte, no  mesmo? Soa confvel... honesto...
       - Voc quer dizer, um bom pai em potencial, no? - Tullah respondeu com amabilidade cida. - Aposto que aquelas trs crianas pensam a mesma coisa toda vez 
que so enviadas de volta  casa da me to logo ele consegue se livrar delas. No d para entender por que homens como ele sempre fazem tanta questo de fazer valer 
seus direitos de custdia. Bem, na verdade,  claro que entendo. Na maior parte das vezes s querem perturbar as ex-esposas.
       - Tullah - a me objetou -, voc no sabe.
       - Eu sei que ele no conseguiu sequer renunciar a um jantar em famlia para ficar com os filhos - Tullah disse  me, de modo incisivo - e para mim j  o 
suficiente.
       - Que bom que voc resolveu trabalhar com empresas - a me opinou. - Se voc fosse trabalhar na vara de famlia seria com certeza considerada impiedosa.
       - Sim, e imagine s o que eu gostaria de fazer com homens do tipo Saul Crighton que existem neste mundo!
       
       
     Captulo Quatro
       
       - E agora vou subir com voc para lhe apresentar nosso novo chefe.
       - Novo chefe? - Tullah perguntou enquanto come* cava a seguir a colega que a estava mostrando seu novoj ambiente de trabalho.
       - Sim,  que houve alguns remanejamentos. Neill Radcliffe, o chefe deste departamento, foi transferido] para Nova York e seu lugar foi ocupado pelo ento 
sub-chefe da rea internacional, Saul Crighton. Voc vai gostar dele. No  exatamente uma promoo para Saul, mas :J ele  pai solteiro com trs crianas pequenas 
para tomar | conta. Nossas atividades europeias no so muito distantes, como seriam os Estados Unidos caso precissem dele em uma emergncia.
       - Saul Crighton... - Tullah no conseguiu deixar de repetir, ignorando todo o resto do que Barbara estava contando.
       - Sim - a colega respondeu, fazendo uma pausa ao apertar o boto do elevador. - Algo errado?
       - No - Tullah mentiu.
       Saul Crighton era seu novo chefe. Ser que eleja sabia quando Olivia a convidou para jantar e, se sabia, por que no dissera nada?
       Porque... Porque ele era aquele tipo de homem, por isso, Tullah espumou enquanto a porta do elevador se abria. Porque sendo aquele tipo de homem, ele gostaria 
de v-la cavar a prpria sepultura no trabalho.
       Bem, chefe de departamento ou no, quem estava lhe dando o emprego era a empresa e no ele. Mas Tullah reconheceu que sua tentativa de tranquilizar a si mesma 
no tinha base ao lembrar da maneira raivosa com que ele olhou para ela ao ouvi-la falar mal dele com Olivia.
       Bem, era tarde demais para fazer algo, mas a despeito de seu queixo empinado e seu ar altivo, sentia as pernas bambas ao seguir a nova colega pelo corredor 
at a porta no fim onde se lia " Saul Crighton, Diretor".
       Diretor. Tullah engoliu em seco. Olivia no tinha falado nada sobre Saul ter sido escolhido para fazer parte da diretoria.
       Barbara bateu de leve na porta e abriu. Conduziu Tullah para dentro do escritrio confortavelmente mobiliado, mas sem trao de ostentao, ocupado por uma 
sorridente mulher de meia-idade que saudou a ambas calorosamente e se apresentou como Marsha, secretria de Saul.
       - Ele no se encontra no momento - informou a Tullah. - Mas se desejarem esperar, logo deve estar de volta. No se encontrava no momento. Tullah mal tinha 
lido mais de dois pargrafos de um artigo na primeira pgina do Finnancial Times do dia quando a porta externa se abriu e Saul entrou, trajando jeans muito, muito 
justos e uma camisa branca de algodo com as mangas arregaadas e aberta no pescoo, no terno e gravata, como ela esperava. Seu cabelo estava ligeiramente desgrenhado, 
como se tivesse corrido at sua sala e no caminhado do tpico jeito folgado de um executivo snior.
       - Tullah - ele a saudou com um sorriso, estendendo-lhe a mo enquanto ela se levantava e o encarava com relutncia. - Lamento t-la feito esperar. Tive um 
pequeno problema em casa.
       - Algo com as crianas? - a secretria perguntou, solidarizando-se.
       Saul olhou para ela com tristeza.
       - De certa forma. O novo morador da casa deu um jeito de pegar um CD-Rom que esqueci de guardar.
       - Ah, meu Deus...
       - Ah, meu Deus, mesmo - Saul concordou com indiferena, e explicou para Tullah. - Tive a pssima ideia de prometer s crianas que lhes daria um cachorro. 
Esqueci como esses filhotes tm dentes afiados e como precisam de algum tomando conta deles. O filhote ainda est sentindo falta da me e faz questo de nos mostrar 
o tempo todo. Chora a noite inteira, toda noite.
       - Voc precisa colocar um relgio despertador embrulhado em um cobertor na cestinha onde ele dorme - Tullah disse, sem pensar.
       Saul olhou para ela, intrigado, e perguntou:
       - U, mas para qu? Do jeito que os bichos so inteligentes, tenho minhas dvidas que um tique-taque de relgio o v fazer dormir.
       - Talvez no - Tullah disse friamente. - Mas ir lembr-lo do conforto de sentir e ouvir a batida do corao da me.
       - Ah... sim... claro. - A boca de Saul se encurvou ligeiramente nas extremidades, denotando um riso contido.
       Ela estava errada ao dizer  me que ele era bonito. Aquele homem era mais que simplesmente bonito, ele era...
       Ele era outro Ralph, lembrou a si mesma severamente, um divorciado que parecia no se importar com nada a no ser ficar destruindo noivados ao tentar seduzir 
Olivia e, pior ainda, encorajando Louise em sua fixao juvenil.
       -  uma tima ideia. Vou tentar hoje  noite, do contrrio...
       - No deve ser fcil - Marsha o interrompeu com um sorriso. - Ele deve ficar acordando no s voc, mas as crianas tambm.
       - Bem, sim... ele teria feito isso... - Saul fez uma pausa e olhou para Marsha um pouco envergonhado. - Eu acabei cedendo na noite passada e o levei para 
dormir comigo. Acho que voc deve ter razo em relao ao despertador - ele disse a Tullah. - Acordei hoje de manh e vi que ele estava todo espalhado e confortvel 
no alto da cama, bem ao meu lado. Com certeza no pode continuar assim. Mal acabei de conseguir convencer Meg a dormir em seu prprio quarto.
       A simpatia que Tullah comeava a sentir por ele se evaporou quando ela concluiu, irritada, que a razo para ele no querer a filha em seu quarto s podia 
ser por ele preferir ter em sua cama algum de mais idade e com propsitos bem diversos.
       Qual o problema com ela, pensou consigo mesma. Estava se derretendo como uma pateta com as imagens sentimentais que havia formado na cabea; memrias de seu 
prprio cachorro em casa, e de como o levava escondido para o quarto, apesar de proibida de faz-lo.
       - S vou ter tempo de entrar no chuveiro e trocar de roupa antes de me encontrar com Paul, ento vou cuidar daqueles papis hoje  tarde antes de pegar o 
vo para Bruxelas.
       - Eu vou fazer um caf - disse a secretria, levantando-se apressadamente.
       - Por favor - Saul concordou, sorrindo para Marsha de uma maneira  qual Tullah reagiu com uma expresso de desprazer nos lbios, instintivamente retorcendo 
os dedos dos ps. Porque seu corpo se recusava, de maneira to ridcula e teimosa, a reconhecer aquilo que seu crebro "tentava transmitir, perguntou-se, irritada 
ao sentir sua reao  proximidade fsica de Saul.
       Ela podia at mesmo sentir seu cheiro, constatou contrariada, mas no foi por contrariedade que deu um passo para trs, e o aroma que sentia vindo de sua 
pele no era desagradvel, longe disso. Na verdade... Ela engoliu em seco, virando a cabea s para ter certeza de estar fora do alcance daquele cheiro que era uma 
mistura masculina irritante, sutil e devastadora, provocando um efeito indesejvel em seus sentidos.
       - Temos uma equipe tima aqui do lado europeu, Tullah - Saul disse - e realmente espero que voc goste de fazer parte da equipe.
       Boas-vindas ou aviso, Tullah se perguntou aps ele acenar com a cabea brevemente, liberando-a e entrando rapidamente para sua sala privativa. Mas ele deixou 
a porta aberta, e ela no pde resistir ao impulso de dar uma olhada no ambiente antes de sair da sala, do que logo veio a se arrepender.
       No caminho para o que era obviamente seu banheiro particular, ele havia tirado a camisa, parando apenas para abrir um armrio, escondido atrs de painis 
em seu escritrio, que revelava as camisas brancas e os ternos formais que Tullah esperava v-lo usar.
       Os msculos de suas costas se contraram ao estender o brao para pegar as roupas. Sua pele era toda bronzeada e ela se pegou imaginando at onde iria aquele 
bronzeado, mas parou, perplexa com o rumo que seus pensamentos estavam tomando e com o modo com que tinha ficado l, pasma. Mas no foi nada comparado ao que ela 
sentiu quando Saul inesperadamente virou e olhou para ela como se soubesse que ela estava l parada. Sua expresso era indecifrvel, ao passo que a expresso dela 
ficou cons-trangedoramente fcil de decifrar quando ela comeou a corar e teve de se voltar e caminhar rapidamente em dire-o  porta, esforando-se para escapar 
tanto do escrutnio dele quanto de sua prpria vergonha.
       - Ah, no!
       - Algo errado? - Tullah perguntou a Barbara de maneira solcita quando a jovem soltou um lamento de consternao.
       - Pode-se dizer que sim - confirmou com tristeza. - Tenho dentista marcado para daqui a meia hora e preciso ir embora agora mesmo, mas acabo de ver que o 
relatrio que Saul me pediu para as quatro da tarde ainda est na minha mesa. Achei que tivesse levado com o resto do material que ele queria. - Olhou para Tulah 
com um olhar pido. - Ser que voc poderia levar para mim?  porque se eu no for agora irei me atrasar e meu dentista  rigoroso em relao  pontualidade. J 
perdi minhas duas ltimas consultas. No posso perder outra.
       Como posso dizer no, pensou Tullah consigo mesma.
       - Voc  um anjo e prometo retornar o favor com juros - Barbara agradeceu fervorosamente enquanto vestia o casaco e procurava sua bolsa.
       Depois que ela foi embora, Tullah olhou com desaprovao para relatrio que ela havia deixado. At ento ela ainda no havia tido muito contato com Saul, 
e era assim que gostaria que as coisas continuassem.
       Pegou o relatrio e se dirigiu ao corredor. Com sorte ele no estaria mais em sua sala. E se estivesse... Se estivesse, tudo o que precisava fazer seria entregar 
o relatrio e ir embora.
       Ao caminhar para o escritrio de Saul, sentiu que o ar condicionado do corredor a fez tremer ligeiramente e lamentou no ter trazido seu tailleur.
       A porta da ante-sala onde ficava a secretria dele estava aberta, mas no havia sinal dela na mesa e Tullah percebeu ao dar uma olhada l dentro, que, felizmente, 
tampouco havia sinal de Saul em sua prpria sala.
       Rapidamente entrou e foi direto  mesa de Saul, com a inteno de deixar o relatrio sobre ela e sair logo, mas um recorte de jornal sobre um caso que se 
desenrolava nas cortes europeias e que era de seu interesse lhe chamou a ateno. Se vencessem, o caso abriria um importante precedente no campo da lei internacional 
e Tullah estava to entretida com a leitura que, mesmo vendo com o canto do olho a porta se abrir, no registrou de verdade o que estava acontecendo, at que viu 
Saul entrar e percebeu que ele estava pingando, quase completamente nu a no ser pela toalha enrolada na cintura. Tinha acabado de sair de seu banheiro privativo.
       - Tullah, o que voc est fazendo aqui? - O tom rspido de sua voz, alm da forma zangada com que olhava para ela, nada fez para ajud-la a dissipar o vermelho 
que tingira seu rosto.
       Tentou olhar para o outro lado, para qualquer outra di-reo que no para ele, para aquele corpo que agora ela sabia que era masculino demais para ficar desfilando 
abertamente na frente dela do modo que estava fazendo. Ele devia estar se preparando para sair  noite. Era terrvel que ela o tivesse flagrado descomposto mais 
uma vez. Mas o que mais a atormentava era perceber que foi ela quem ficou sem graa, ao passo que ele...
       - Eu... eu estava saindo - ela disse apressadamente, comeando a se afastar da mesa.
       - No, no estava no - Saul respondeu prontamente. Tullah ficou tensa quando ele caminhou em direo a ela, olhando para ela e para a mesa, evidentemente 
querendo ver o que havia chamado a ateno dela.
       - Ah, o caso Epsberg - ele disse. - Voc est acompanhando?
       - ... estou, sim - Tullah afirmou.
       Por que raios ele no vestia logo uma roupa? Ser que ele no sabia, no percebia...? Engoliu em seco, petrificada de ver o que ela mais tarde procurou se 
convencer de ter se tratado apenas de espanto e no de uma perigosa reao feminina  viso daquele brao forte e mido, com plos negros, se aproximando dela para 
pegar o papel que ela estava lendo.
       - Hummm... Na sua opinio, qual ser o veredicto final?
       No era de admirar que ele estivesse olhando para daquele jeito. Ela estava se comportando como uma completa idiota, reconheceu, furiosa. Ser que aquele 
homem no tinha o menor senso de... de...? Como ele fazia para manter o corpo to musculoso assim? Afinal de contas, ele no era nenhum atleta de vnte e poucos 
anos.
       Para sua consternao, ouviu de repente ele dizer suavemente, como se estivesse lendo seus pensamentos.
       - futebol, com as crianas.
       - Futebol?
       De um jeito ou de outro, a despeito de seu rosto inflamado, Tullah conseguiu olh-lo nos olhos.
       - E mesmo? - Ela comeou, com toda a inteno de lhe dar o tipo de passa-fora que sabia que ele precisava ouvir. Tinha de arrumar uma forma de se reafirmar 
e demov-lo de qualquer impresso que pudesse ter de que ela tivesse se excitado pelo seu... por ele... porque,  claro, no era o caso. No mesmo... de jeito nenhum.
       Mas antes que ela pudesse terminar o que estava para dizer, Saul prosseguiu, afvel, esticando o brao em dire-o a ela enquanto apontava para o machucado 
que ela sequer havia notado.
       - Acho que sim. Eu no estava prestando ateno e Meg chutou meu brao ao invs da bola.
       Tullah fechou os olhos.
       Ele achou que ela estava olhando para o seu machucado! Graas a Deus ele havia inadvertidamente informado isso a ela antes que ela comeasse a dizer o que 
lhe passava pela cabea. Tremeu ligeiramente, aliviada.
       - O ar condicionado est um pouco forte aqui, no est? - Saul comentou.
       - Talvez voc sinta a temperatura mais agradvel se vestir umas roupas - Tullah bateu de volta.
       - Talvez - Saul concordou seriamente. - Mas no estava me referindo a mim mesmo. Voc tremeu - ele acrescentou, enquanto Tullah ficou olhando para ele, sem 
entender muito bem.
       - Eu no estou com frio - Tullah negou sumariamente.
       - No?
       O modo demorado e carregado de intenes com que Saul fitou seu corpo inteiro f-a enrijecer-se, e ela se viu automaticamente seguindo o olhar de Saul de 
cima a baixo, at que parou, furiosa, ao entender a razo de seu comentrio.
       Era possvel ver claramente a protuberncia enrijecida de seus mamilos sob a fina blusa de seda, apesar de ela estar usando um suti.
       Conseguiu resistir  tentao de cruzar os braos para cobrir os seios. Deixar que ele tivesse a ltima palavra e admitir uma derrota era algo que a tirava 
do srio, mas o que mais poderia fazer?
       Dizer a ele de novo que no estava com frio, que a verdade era... a verdade era o qu?
       Que por alguma razo inimaginvel seu corpo, o corpo dela, havia tomado a deciso de reagir sexualmente a ele sem conceder a ela a oportunidade de objetar 
cerebral ou | emocionalmente a isto?
       E por qu? Ela nem mesmo gostava dele como homem, | que diria... Tullah logo fixou seu olhar para longe de SauL na direo da porta da sala da secretria, 
e comeou a caminhar para fora. Estava com a boca seca e seu corao ,| palpitava como o de uma romntica tola e ridcula.
       Qual era a droga do problema com ela, se perguntou | com desprezo por si mesma ao alcanar a segurana da sala da secretria, fechando a porta atrs de si 
com firmeza to logo saiu da sala de Saul. Hoje em dia as mulheres no ficam mais com os joelhos tremendo s de ver um homem seminu que acabou de sair do banho.
       Ou ficam?
       
       
     Captulo Cinco
       
       - Pode esquecer a academia. Aumenta demais os impostos - Tullah bufou ao lanar a ltima demo de tinta no teto de seu recm-decorado quarto de dormir. Olhou 
para baixo para localizar Olivia, que a observava, e perguntou. - O que voc acha? J dei duas demos, voc acha que ser preciso uma terceira?
       - No, parece timo. Muito bom - Olivia afirmou, inclinando a cabea para o lado enquanto observava o quarto recm-pintado. - Gosto muito deste tom de areia 
- disse a Tullah. -  suave e caloroso, sem ser intrusivo.
       - Esta cor faz parte da lista de cores tradicionais do National Trust - Tullah disse  amiga. - No comeo eu estava um pouco preocupada que fosse ficar meio 
plido demais, mas devo admitir que gostei muito.
       Tullah desceu da escada e ficou ao lado de Olivia para avaliar seu trabalho.
       - Ento como vo as coisas,  parte os msculos doloridos das suas costas? - Olivia brincou enquanto desciam as escadas em direo  cozinha, onde ainda estavam 
sendo instaladas as fiaes.
       - Bem, como voc pode notar, a coisa promete - Tullah disse a ela fazendo graa, arruinando a cena sria ao no conseguir conter o riso.
       Olivia comeou a rir quando ambas olharam ao redor da cozinha, de onde foram retiradas as instalaes originais da dcada de sessenta, e observando o emaranhado 
de fios e canos que pendiam de buracos no gesso.
       Dez minutos depois, quando j tinham parado de rir e estavam tomando xcaras de caf fresco, o eletricista e seu companheiro estavam voltando do almoo e 
foram recebidos com o comentrio que eles podiam no dar muito pela cozinha, mas que ela definitivamente tinha potencial, e depois ambas caram na gargalhada, sem 
que os trabalhadores compreendessem.
       - Vamos - Tullah chamou Olivia. - Vamos voltar ao meu quarto l em cima.  o nico local habitvel no momento. - Quando estavam lado a lado, admirando a vista 
da janela do quarto de Tullah, ela brincou. - Toda vez que questiono se rainha deciso de comprar este lugar foi boa, venho para c e contemplo a vista.
       - Hummm... Fico realmente com inveja desta vista. Como est se dando com suas vizinhas de porta, a propsito?
       - Muito bem. Elas so maravilhosamente gentis e solcitas, ficam de olho nos operrios enquanto estou no trabalho e sempre insistem para que eu v jantar 
com elas. Elas viajam para fora do pas de novo no fim do ms, e vou sentir sua falta.
       - Ento a vida est lhe sendo boa e voc est bastante contente com sua deciso de se mudar para c, no ?
       - Noventa por cento - Tullah concordou, e acrescentou suavemente. - Voc deveria ter me avisado que Saul iria ser meu novo chefe.
       - Eu no sabia, no naquela noite - Olivia se defendeu. - Ele s nos contou depois, quando voc j tinha ido embora. No foi exatamente uma promoo para 
ele, mas posso entender por que aceitou. Agora que ele est com a guarda das crianas,  natural que queira ficar perto delas.
       - Ele est com a guarda das crianas? - Tullah franziu a testa. Quando mencionaram os filhos de Saul pela manh, ela pensou que eles estavam com ele para 
uma visita prolongada ou algo assim. - Isso no  muito comum, no ? - ela perguntou, incisiva. - A mulher dele deve...
       - Hillary, a ex-mulher, foi quem quis que ele ficasse com a guarda dos filhos - Olivia interveio. - Parece que seu novo marido no estava preparado para viver 
com trs filhos que no eram dele, e disse a Hillary para escolher entre eles ou ele.
       - E ela escolheu ele? Olivia deu de ombros.
       - Ela nunca foi do tipo maternal e no escondia que lamentava ter de cuidar de trs crianas pequenas.
       - Pobrezinhos. Que horrvel para eles, saber que nem a me nem o pai os queriam de verdade.
       - Saul quer os filhos sim - Olivia a corrigiu com firmeza. - Mas tampouco quer que haja qualquer animosidade entre ele e Hillary por causa dos filhos. Ele 
sempre achou que a felicidade e o bem-estar emocional deles eram importantes demais para que ele e Hillary ficassem brigando na justia pelas crianas s para perturbar 
um ao outro. Mas nunca vi ningum agir to rpido quanto ele agiu quando Hillary ligou para pedir que ele fosse buscar os filhos que estavam com ela nos Estados 
Unidos. Olivia fez uma breve pausa.
       - Devo admitir, contudo, que fiquei um pouco surpresa quando ele insistiu que Hillary mantivesse plenos direitos de visita, mas acredito que faa sentido 
se pensarmos a longo prazo e geralmente Saul pensa assim. Ele acha que vai chegar uma poca em que os filhos vo querer conhecer a me melhor, e que a me tambm 
vai querer mais proximidade com os filhos. Ele diz tambm que se eles a visitarem com frequncia, o mito da me distante vai se dissipar. De toda forma, no momento 
os trs preferem ficar com ele. Claro que vo se sentir inseguros e, apesar de ele no fazer alarde sobre isso, no  fcil para ele. A pequena Meg sofre com os 
piores pesadelos, Robbie tem problemas de estmago e Jemima, bem, sempre foi uma menina meio distante e observadora, mas eu sei que Saul est preocupado na maneira 
como ela est se fechando em si mesma. Esta foi uma das principais razes que o levaram a se mudar para c. Ele  um pai maravilhoso - finalizou.
       Tullah sorriu por educao. Por mais que Olivia proclamasse as virtudes de Saul, no conseguiria faz-la mudar de ideia. Afinal de contas, como poderia ele 
ser um bom pai de verdade se tentara abertamente ter um caso, com Olivia enquanto ainda estava casado?
       - Olha, a verdadeira razo pela qual eu vim v-la foi para convid-la a jantar conosco no sbado - Olivia disse.
       Tullah olhou para ela com desconfiana.
       - O bom samaritano Saul no vai estar l, vai? - perguntou, incisiva.
       - No, ele vai estar em Bruxelas, a negcios - Olivia afirmou, ignorando o sarcasmo da outra. - Mas os filhos dele estaro. Esto passando o fim de semana 
conosco enquanto Saul est fora.
       - Eles esto ficando com vocs? Por que ele no contrata uma empregada que more com eles? Com certeza ele pode bancar.
       - Sim, ele pode bancar, mas quer que os filhos cresam em um ambiente de famlia grande. Foi por isso que ele mudou para c, em primeiro lugar. Ele conversou 
sobre isso com todos ns antes de mudar para c e todos concordamos com sua deciso. Somos uma famlia, Tullah - disse com firmeza -, e como tal, acreditamos em 
nos ajudar uns aos outros. Isso  que  ser uma famlia. Ah, a gente discute e briga, mas no fim do dia... - Balanou a cabea levemente. - Claro que Saul poderia 
pagar uma empregada para morar com eles e, mesmo se no pudesse, mas achasse que fosse o melhor para os filhos, daria um jeito de trabalhar e se virar em dois para 
poder pagar. Acontece que ele no quer que eles cresam se sentindo isolados, se agarrando a ele como se ele fosse a nica pessoal Ele quer que eles saibam o que 
 a convivncia entre adultos de sexos opostos, que participem da troca inerente ao dia-a-dia da vida em famlia, que vejam que os adultos podem brigar e discutir 
e mesmo assim continuar juntos, e quer tambm, claro, que os filhos cresam junto dos primos.
       Olivia fez uma pausa e continuou.
       - Obviamente ele tenta fazer o possvel para que suas viagens a trabalho sejam breves e, quando est fora, as crianas costumam ficar conosco ou com Jon e 
Jenny. Quando Maddy est por aqui, ela gosta de ficar com eles, pois acha que eles fazem companhia ao seu filho Leo, ela no quer que ele cresa mimado e sozinho...
       - Maddy...? - Tullah perguntou.
       - Sim, a mulher do meu primo Max. Eles moram em Londres. Max  advogado de tribunal, trabalha para um dos escritrios mais respeitados de Londres, se no 
o mais respeitado. - Fez uma cara feia. - No posso dizer que ele seja uma das pessoas que mais gosto no mundo, apesar de que no deveria dizer isso, j que todos 
dizem que ele  to parecido com meu pai. Talvez seja at por isso mesmo que eu no goste muito dele... Bem - ela continuou, rapidamente se recompondo -, Max  com 
toda certeza a menina dos olhos de vov, seu favorito, e quando ele e a famlia vm para c, sempre ficam na casa de vov.
       - Gaspar no se importa de vocs ficarem com os filhos de Saul, Livvy? - Tulah perguntou, curiosa.
       - Gaspar? No. Por que diabos se importaria? Tullah no conseguiu manter seus olhos nos de Olivia.
       - Bem... Afinal de contas, voc e Saul...
       - Eu e Saul nada - Olivia explodiu, balanando a cabea. -  a segunda vez que voc toca neste assunto. Escute, eu posso admitir que quando Gaspar e eu reatamos, 
ele de fato mantinha uma certa distncia de Saul e o encarava meio como se fosse um rival. Mas ele logo entendeu qual era a real situao entre mim e Saul... Bem, 
ele entendeu que ns reagimos de maneira exagerada aos problemas que estvamos tendo de encarar, somado ao fato de que muitos anos atrs, quando eu era adolescente, 
tinha uma grande queda por Saul, a qual na poca ele ignorou sbia e completamente. Hoje Gaspar sabe que a relao entre mim e Saul jamais representou uma ameaa 
ao meu amor por ele. Ns somos primos, Tullah, s isso - enfatizou -, e meus sentimentos por ele, meu amor por Saul, so de prima. Na verdade, ele e Caspar se tornaram 
amigos bem prximos - acrescentou com um sorriso, e mudou de assunto. - Bem, e quanto ao jantar no sbado?
       - Adoraria ir - Tullah aceitou.
       No havia sentido em ficar batendo na mesma tecla quanto ao que tinha escutado no casamento sobre o suposto adultrio de Saul com Olivia. Era evidente que 
Olivia o encarava apenas como um primo, sem conotao sexual. Mas e Saul? Ser que ele encarava Olivia da mesma forma? E o que dizer da filha adolescente de Jon 
e Jenny,  qual ele seduzia?
       - Vi uma casa maravilhosa outro dia - Tullah disse  amiga, dez minutos depois, enquanto caminhava com ela at o carro. - No que eu pudesse bancar, a no 
ser que ganhe na loteria - disse, rindo. - Fica no fim desta viela - apontou com a cabea na direo do caminho depois de sua prpria casa. -  linda, uma casa antiga 
de fazenda, toda de tijolinho e com janelas rsticas de pedra. Tem at um laguinho. Voc j viu?
       - ... sim.  linda - Olivia concordou. - Na verdade, Tullah...
       - Eu sei. - Tullah riu outra vez. - Com certeza tem potencial. E se o dono fosse solteiro e razoavelmente apresentvel, eu ficaria tentada a fazer dele um 
homem honesto. Eu e metade da populao feminina de Cheshire ainda por cima, sem dvida - acrescentou com um sorriso tristonho, mas para sua surpresa Olivia no 
parecia compartilhar de seu divertimento.
       Tullah fechou a cara enquanto observava a amiga partir. Esperava no ter ofendido ou magoado Olivia com seus comentrios sobre seu relacionamento com Saul. 
Com certeza no queria aborrec-la, no tinha a menor inteno de se meter em algo que no era de sua conta.
       Ento Saul tinha a guarda dos trs filhos. Caminhou de volta para casa, ainda intrigada com a nova perspectiva em sua opinio sobre a personalidade de Saul.
       - Ol. Sou a Meg. Quem  voc?
       Tullah, que havia subido ao segundo andar da casa de Olivia e Caspar para deixar seu casaco no quarto deles, parou, um pouco surpresa, para olhar para a pequena 
figura de pijamas que aparecera subitamente na porta aberta do quarto do casal.
       - Ol, Meg. Eu sou a Tullah - respondeu. Sempre gostara de crianas, sempre se dera muito bem com elas e tinha de admitir que algo naquela pequena teria tocado 
o mais duro dos coraes.
       Tinha herdado do pai a pele atraente, de tonalidade levemente azeitonada, mas tambm tinha cachos marrons-dourados e olhos amendoados, com os clios mais 
grossos que j vira e as covinhas mais lindas de ambos os lados da boca.
       Mas, alm da curiosidade em seus olhos, Tullah podia ver uma remota sombra de apreenso e, lembrando do que Olivia havia dito sobre a garotinha sofrer de 
pesadelos, agachou-se ao lado dela e perguntou, puxando assunto.
       - Voc no deveria estar na cama?
       - Bem, sim, devia mesmo - Meg admitiu, sorrindo de maneira irresistvel -, mas tia Livvy disse que uma amiga muito especial dela vinha jantar e eu queria 
ver voc.
       - Ah, bem, agora que voc j me viu, talvez deva voltar para a cama, no acha? - Tullah sugeriu. - Em que quarto est dormindo?
       - Neste aqui - Meg disse a ela, dando a mo a Tullah e apontando para um dos quartos. - Voc pode me botar para dormir? - ela pediu. - Meu papai sempre me 
pe para dormir, mas ele no est aqui. Ele teve de viajar por causa do trabalho. Minha me mora nos Estados Unidos - acrescentou, incoerentemente. - Ns pegamos 
um avio para v-ta, mas eu no gostei. Jem e Robbie tambm no gostaram. Ns no gostamos do Palmer... ele  o novo papai da mame - explicou, desorientada. Mas 
Tullah, a quem Olivia j tinha falado sobre o casamento de Saul, sabia exatamente o que ela queria dizer. Palmer era, sem dvida, o parceiro que no queria que os 
filhos do primeiro casamento de Hillary morassem com eles.
       Tullah achou extremamente difcil entender o porqu. Era fcil demais se apaixonar por aquela boneca olhando para ela com tanta confiana enquanto caminhavam 
at o quarto para dormir.
       Ao abrir a porta indicada por Meg, Tullah percebeu que ela no era a nica ocupante do amplo quarto com quatro camas de solteiro. Os traos dos rostos das 
crianas que a observavam deitadas nas camas lembravam muito Saul, principalmente a menina mais velha, Tullah pensou.
       Enquanto Tullah levava Meg para a cama com os lenis bagunados, que era obviamente a dela, a menina informou, sussurrando alto:
       - Aquela cama  para quando Amlia for grande o bastante e ns quatro estivermos juntos, mas ela ainda precisa dormir no bero.
       - Ela poderia dormir, quer dizer, se voc no a acordasse o tempo todo - resmungou a mais velha do trio para Meg enquanto sentava-se na cama e observava Tullah,
       - Eu no fico acordando - Meg se defendeu, indignada. - S fui dar uma olhadinha...
       - No foi no! Voc estava mexendo nela, eu vi!
       - S estava fazendo ccegas. Ela queria que eu fizesse.
       - Quem  voc? - perguntou uma voz desconfiada de garoto a Tullah, enquanto ela arrumava a cama de Meg.
       - Ela  uma amiga especial da tia Livvy - Meg informou ao irmo antes que Tullah pudesse dizer algo. - Meu papai sempre l uma histria para ns quando vamos 
para a cama. Voc pode ler para ns? - pediu a Tullah, com os olhos transbordando inocncia.
       Tullah parou. Os outros dois ainda a estavam observando em silncio e ela podia ver que havia uma pequena estante com livros infantis ao lado da cabeceira. 
Olivia j tinha lhe dito que os outros convidados ainda no haviam chegado e que no havia nada que ela pudesse fazer para ajudar na cozinha.
       - Bem, uma curtinha, ento - ela concordou. - Qual voc gostaria que eu lesse?
       - Esta aqui - Meg disse, se enfiando debaixo da cama para apanhar um livro que Tullah no havia visto.
       - Os Ventos nos Salgueiros?
       - Papai l um captulo toda noite quando ele est em casa.
       Tullah ps Meg na cama e virou-se para olhar para a menina mais velha.
       - Bem, no posso prometer ler o captulo inteiro. Voc lembra onde foi que ele parou?
       - Lembro sim, foi aqui - Jemima informou a Tullah, saindo da cama para virar as pginas para ela.
       Jemima ficou perto de Tullah e ela sentiu seu corpo em desenvolvimento. Ao contrrio de Meg, tinha olhos atentos e desconfiados, alm de uma leve tenso no 
corpo, como estivesse sempre pronta a rebater algo.
       - Voc tem que ler devagar - aconselhou. - Meg ainda  muito pequena para entender as palavras.
       - No sou, no - Meg reclamou.
       -  sim - Jemima a contradisse tranquilamente. - O pai s vezes tem que explicar as palavras mais complicadas at para mim - disse a Tullah.
       - Bem, se eu ler uma que voc no entenda, pode me interromper que eu explico, est bem? - Tullah prometeu. - Bem, esto prontos?
       Dez minutos depois, para seu prprio espanto, ela estava to entretida com a histria quanto as trs crianas. Meg estava sentada na cama, os olhos abertos 
e abraando as cobertas e, em dado momento, Robert e Jemima tambm se amontoaram na cama de Meg. Tullah cumpriu o papel de adulta responsvel ao pedir para que se 
cobrissem para no se resfriarem, apesar de a noite no estar especialmente fria...
       Quando chegou ao fim do captulo, Tullah fechou o livro, relutante.
       - Ah, voc no pode ler mais? - Meg pediu. Tullah fez que no com a cabea.
       - Lamento, mas no posso. Se no descer logo, Livvy vai subir para ver onde estou.
       - Tio James vem jantar tambm - Meg informou. - Ele  legal, eu gosto dele. Voc tem um papai? - perguntou a Tullah.
       - ...bem...
       - No foi isso que ela quis dizer - Jemima disse a Tullah. - O que ela est perguntando  se voc  casada. Meg acha que maridos e papais so a mesma coisa.
       - Ah... sim, entendi - Tullah agradeceu, sria. - Bem, no, no sou casada, Meg.
       - Nossa mame e nosso papai no so mais casados, so? - A menina surpreendeu Tullah ao dizer isso, olhando para os irmos como que pedindo confirmao ao 
que dissera.
       - A me e o pai so divorciados - Robert concordou, impassvel. - Nossa me mora nos Estados Unidos.
       - , mas ns moramos aqui com papai, no ? - Meg insistiu, e Tullah pde ver que a ansiedade turvou momentaneamente seus olhos enquanto perguntava.
       - Meus pais so divorciados tambm - ela disse gentilmente, como que os tranquilizando.
       - E voc morava com seu papai? - Meg perguntou, curiosa.
       - No, eu morava com a minha mame, minha me - Tullah explicou.
       Vrios minutos depois ela ouviu um carro parando em frente  casa de Olivia. A qualquer momento Olivia subiria para ver o que estava acontecendo. Estava na 
hora de terminar a conversa e lembrar s crianas que realmente j estava na hora de elas estarem dormindo.
       - Nossa mame no nos quis.
       A fala desolada e quase fria de Jemima deixou Tullah arrepiada. Ela podia quase que sentir a tenso que emanava do corpinho de ossos demarcados da menina, 
mas por mais que desejasse tom-la nos braos e confort-la, Tullah lembrou a si mesma que era, afinal de contas, uma completa estranha para os filhos de Saul.
       - s vezes os adultos tm de fazer escolhas que podem... podem parecer dolorosas - ela comeou a dizer, escolhendo cuidadosamente as palavras, apesar de saber 
que se fosse ela no lugar da ex-esposa de Saul, de jeito nenhum... de maneira nenhuma priorizaria suas necessidades sexuais em detrimento das necessidades emocionais 
dos prprios filhos.
       A porta do quarto se abriu, fazendo entrar uma luz forte do corredor, e tambm uma imponente figura masculina.
       - Papai! - Meg gritou, pulando da cama e correndo para os braos dele, cheia de excitao.
       - O que est havendo aqui? - Tullah ouviu Saul perguntar em um tom jocoso enquanto pegava a menina no colo e, com a destreza de um mgico, a passava para 
o outro brao para poder abraar tambm os outros dois filhos.
       - Tullah estava lendo uma histria para ns - Meg disse a ele.
       - Hummm... Estou vendo, e foi ideia dela, no foi? - Saul perguntou, com indiferena. - Vocs trs deveriam estar dormindo, no cansando Tullah fazendo-a 
ler para vocs. Desculpe - ele dirigiu-se agora a Tullah.
       - No tem problema - Tullah respondeu, sinceramente. - Eu estava gostando.
       Estava gostando, mas agora se sentia bastante desconfortvel e deslocada e algo mais, tambm. Algo que ela no estava preparada para reconhecer ou explorar. 
Tudo o que ela sabia era que, por alguma razo, estar naquele quarto mal-luminado com Saul enquanto ele se empoleirava naquela pequena cama, cercado por seus filhos, 
a fez sentir-se to estranhamente sem flego, to tocada por dentro, vulnervel e emotiva, de uma maneira to esquisita que era como se... como se...
       - Ah. ento vocs esto aqui - a voz queixosa de Olivia quebrou o silncio. - O jantar est quase pronto.
       - Eu vou livr-la destes trs - Saul se ofereceu, mas Olivia fez que no com a cabea.
       - Agora eles vo ficar aqui mesmo, e voc tambm pode jantar conosco. O que houve que voc voltou to cedo? - ela perguntou enquanto Saul colocou cada um 
dos filhos em sua respectiva cama e falou com um tom paternal severo para que dormissem.
       - Ah, a reunio foi cancelada. Foi transferida para outra data, ento resolvi pegar logo um avio de volta ao invs de esperar at amanh.
       - Desa quando estiver pronto - Olivia lhe disse. - Tenho de cuidar de algo na cozinha - explicou, e se retirou apressadamente, deixando Tullah sozinha com 
as crianas e Saul.
       - Boa noite, papai - Meg murmurou, sonolenta, levantando a cabea do travesseiro para beijar Saul, que se inclinou para beij-la, e ento, para a consternao 
de Tullah, acrescentou: - Quero que Tullah me d um beijo, tambm.
       Tullah avanou lenta e desconfortavelmente, com cuidado, dando a volta por Saul enquanto ele se dirigia  cama de Robert.
       - Boa noite, Tullah. Obrigada por ler para ns - Meg disse a ela, amavelmente, enquanto Tullah a beijava delicadamente.
       Podia sentir Saul de p atrs dela, senti-lo quase como se seus corpos e suas peles estivessem se tocando. Seu rosto se inflamou devido ao rumo traioeiro 
que seus pensamentos estavam tomando. No que tivessem qualquer razo para tal, concluiu, mal-humorada, cinco minutos depois, ao comear a descer as escadas.
       E no podia nem comear a pensar em por que seu corao de repente parecia querer tomar parte em um nmero de circo, dando cambalhotas e piruetas estonteantes 
e de perder o flego. No era possvel que tal reao tivesse sido causada pela proximidade de Saul. Impossvel, desagradvel e indefensvel, concluiu, e era seguida 
arfou rui-!; dosamente ao pisar em falso em um dos degraus irregulares de Olivia, sendo projetada para frente. Gritou por instinto, mas Saul j estava pronto para 
segur-la, atendendo ao seu grito de socorro, e agarrou-a rapidamente, quase levantando Tullah do cho, impedindo que ela casse.
       Abalada e ofegante, tudo o que Tullah pde fazer foi se agarrar debilmente a ele, mas depois pensou consigo mesma, indignada, que devia estar parecendo uma 
atriz de segunda categoria tentando conseguir um papel em " ...E o vento levou". S que ela no era uma coisinha frgil e leve, e sim uma mulher moderna e saudvel, 
que tinha orgulho de sua rebeldia de manter suas curvas rebeldemente femininas, .controladas em trs sesses semanais na academia de ginstica e em muitos passeios 
ao ar livre, quando encontrava uma brecha em sua agenda cheia de compromissos.
       Mas se o efeito de ajud-la, de segur-la, envolta em f seus braos contra seu peito, estivesse impondo nele qualquer tipo de tenso, Saul com certeza no 
estava dando nenhuma demonstrao disso, Tulah reconheceu.
       Sim, o corao dele comeou a bater mais acelerada- $ mente. Seus msculos se enrijeceram quando ele juntou | seu corpo ao dela, mas da posio aconchegante 
e segura de um corpo contra o outro, com a cabea dela enfiada de maneira to protetora no espao confortvel entre seu ombro e seu maxilar, que pareciam feitos 
para ela, ela no pde ver ou sentir qualquer evidncia de tenso.
       - Eu... voc pode me soltar agora - Tullah disse a Saul naquilo que pretendia que fosse uma cortada com um tom de voz gentil e educado. Mas acabou soando 
revoltada, recatada e terrivelmente ofegante.
       - Est muito bem, at por que temo que rainha resistncia e meu vigor estejam no fim. No sou mais o mesmo - Saul disse, com indiferena.
       Sentindo-se mortificada, Tulah imediatamente comeou a se afastar  medida que ele cuidadosamente a colocava no cho. Talvez tivesse sido injusto da parte 
dela sentir que ele no estava sendo nada galante ao dizer que ela era pesada demais, mas ela era, afinal de contas, uma mulher, e como tal, podia se permitir abdicar 
um pouco da lgica quando queria.
       - Desculpe se sou pesada demais - ela disse, sem sinceridade alguma, uma vez no cho, a uma distncia cautelosa dele. Desceu mais um degrau da escada, agora 
prestando ateno em onde pisava e segurando o corrimo.
       - Nunca disse que voc  pesada demais - Saul murmurou antes de se inclinar para frente e, quase sem pensar, ajeitar a gola da blusa dela.
       Tullah ficou boquiaberta, pega de surpresa pela intimidade inconsciente daquele toque cuidadoso, quase paternal. Podia facilmente imagin-lo tocando os filhos 
daquele jeito e mal conseguiu pensar muito profundamente em suas palavras. Se ele queria dar para trs e fingir que no tinha dado a entender que ela era pesada 
demais... : A mo dele ainda estava em seu ombro e seus dedos tocavam a carne exposta na altura da clavcula. L era cima, as crianas estavam em silncio. Estavam 
competamente a ss naquela escada estreita.
       Se Saul no quis dizer que ela era pesada demais, ento o que ele quis dizer exatamente?
       Tullah virou a cabea em direo a ele, com a inteno de perguntar, mas no o fez; no poderia, pois a pequena ao de virar a cabea desacomodou a mo dele 
de seu ombro, fazendo-a escorregar para o colo.
       Tullah congelou ao sentir o toque clido e forte da palma e dos dedos da mo de Saul contra seu peito e tentou freneticamente afast-lo de si.
       Para seu estupor, podia sentir o tecido de sua roupa comear a ceder, puxado pela combinao do peso da mo de Saul e seu prprio movimento, expondo a curva 
superior de seus seios. Podia ouvir claramente o som da respirao de Saul enquanto ele olhava para seu corpo todo, e sabia que seu " me solta" raivoso foi dito 
segundos depois do necessrio. Passou alguns segundos sem dizer nada, sem fazer nada, sem rejeitar a presena da mo de Saul contra seu seio, e pior ainda, sem fazer 
nada para deter sua prpria reao aguda.
       Ao tirar a mo do corpo de Tullah, Saul pensou consigo mesmo que diabos ele pensava estar fazendo. Era um homem adulto, droga, com certeza tinha suficiente 
controle sobre si mesmo para no permitir que aquelas vises atormentadoras que tinha do corpo nu de Tullah passassem de imagens de sua mente, vises que faziam 
seu corpo doer e seus dentes ranger: aquele corpo pronto a receber seu toque, a ser lenta e sensualmente explorado por suas mos e por sua boca.
       Ele tinha visto o olhar de raiva e choque que ela lanara ao se afastar dee e sabia perfeitamente bem que as fanta-
       sias que o atormentavam no eram algo que ela gostaria de compartilhar.
       - Ah, a esto vocs. Eu estava voltando  sua procura - Olivia disse, surgindo no corredor logo abaixo deles.
       Tullah se apressou em descer os degraus que faltavam, desconfortavelmente ciente de como seus seios comearam a doer, como se... como se o qu? No como se 
ela tivesse realmente desejado que Saui a tocasse e acariciasse.
       Claro que no. Que pensamento ridculo. Aquilo a irritou e fez aumentar a antipatia que j tinha por ele e que, seja l por qual razo, se refletia em seu 
corpo de uma maneira to bsica e sexual. A dor em seus seios era um lembrete desconfortvel de que deveria simplesmente deixar para l, esquecer.
       - Ah, no acredito em voc. Voc no podia ter feito isso - Tullah protestou entre gargalhadas aps James ter relatado algumas das exploraes s quais ele, 
o irmo e os primos de Chester se dedicavam na juventude.
       - Ah, mas isso no foi nada - James disse, sorrindo para ele - e se voc no acredita em mim, pergunte a Saul. Era ele quem tomava conta de ns nas frias 
de vero.
       - Pobre Saul, deixvamos voc maluco, no  mesmo? - Olivia interrompeu. - Ainda me lembro de quando seus pais vinham para ficar em Queensmead com vov, os 
outros vinham de Chester e voc tinha de tomar conta de ns.
       - Tambm me lembro bem - Saul concordou comovido, acrescentando -, fico surpreso de no ter ficado de cabelos brancos j aos dezoito anos.
       Enquanto os ouvia brincando um com o outro de maneira amigvel, Tullah se pegou sentindo uma certa inveja. Apesar de ela e sua irm terem sempre sido razoavelmente 
prximas e de sua me ter feito de tudo para garantir que o divrcio no as afetasse demais, Tullah foi muito afetada pela separao. A irm estava na faculdade, 
longe de casa, quando eles se separaram e Tullah se sentiu muito s, extremamente isolada, portanto era difcil para ela deixar de sentir um pouco de inveja de Olivia 
e seus primos, de seu companheirismo, de seu senso de unio, da histria da famlia  qual pertenciam, do fato de saberem nitida-; mente que, a despeito do quanto 
pudessem brigar e de| suas diferenas, nada jamais quebraria os laos de famliaj que os uniam uns aos outros.
       ,-Ainda me lembro de quando voc nos ensinou a pescar - Tullah ouviu James dizer a Saul.
       - Eu tambm - Saul concordou, fazendo uma careta - Especialmente de quando voc me ignorou quando eu disse para me deixar pegar a linha e acabou caindo na 
gua.
       - Voc nos fez voltar todos a Queensmead e estava tentando sec-lo em frente ao fogo quando a tia Ruth chegou. Ns achamos que ela ia ficar fula da vida, 
mas ela s olhou para ns e disse a James que subisse, tomasse um banho quente e vestisse roupas secas - Olivia disse. - E no dia seguinte ela nos levou para nadar 
e providenciou que tivssemos aulas de primeiros socorros em caso de afogamento.
       - Quando penso nisso fico imaginando como ns no o deixamos de cabelo branco, Saul, ou como voc no tenha no mnimo tentado nos afogar de desespero - disse 
James.
       - No pensem que no fiquei tentado a faz-lo - Saul respondeu com um tom de indiferena.
       Tullah no se lembrava de ter passado uma noite to agradvel, e contou isso a Olivia depois, quando ambas estavam relaxadas, tomando uma xcara de caf enquanto 
os homens lavavam a loua.
       - James  muito divertido - ela acrescentou calorosamente.
       -  mesmo, no? - Olivia concordou com um sorriso de satisfao. - Achei que voc gostaria dele. Voc devia aceitar o convite que ele fez de mostrar o castelo 
de Chester. No faz muito tempo que prisioneiros eram mantidos l, a histria  fascinante.
       - Ele estava me dizendo que  especialista em casos de indenizao mdica.
       - Sim, isso mesmo. Apesar de que ningum diria ao escut-lo falar aqui hoje. Ele realmente  um promotor de primeira linha. Luke, o irmo dele,  que parece 
ser bom promotor, mas Luke na verdade prefere defender, o que me lembra que preciso dar uma ligada para Bobbie. Ela est louca para conhec-la.
       Tullah pareceu surpresa.
       - Ela tambm vem de uma famlia de advogados - Olivia explicou. - Do lado do pai, apesar de ele ser na verdade poltico. Bobbie diz que sente falta do ritmo 
agitado de sua vida profissional, por mais que queira passar estes primeiros anos em casa com sua filhinha, Francesca. Jon e eu esperamos conseguir persuadi-la ajuntar-se 
a ns em meio expediente no escritrio em Haslewich.
       Quando os homens voltaram da cozinha, Tullah deu uma olhada no relgio e levou um susto ao ver como j era tarde.
       - Nossa, preciso ir embora - anunciou, terminando seu caf e se levantando. - No havia percebido que horas eram.
       - Escute, por que voc no deixa seu carro aqui e pega uma carona com James? - Olivia sugeriu ao ver Tullah bocejar. - Voc pode voltar e peg-lo de manh.
       A sugesto era tentadora, no s por ela ter apreciado a companhia de James durante o jantar, mas porque enquanto pensava se aceitava ou no viu Saul de rabo 
de olho. Pela expresso fechada em seu rosto, parecia que ele no tinha gostado muito da ideia de Olivia.
       Sofia por que iria passar a noite l e isso significaria que, quando ela voltasse para pegar seu carro, teria de encontr-lo outra vez?
       Que tipo de mulher ele achava que ela era? Do tipo que achava, da maneira mais automtica e estpida, que s porque um homem a havia salvado instintivamente 
de cair da escada teria interesse pessoal e sexual por ela? Que ridculo; como era tpico do homem que ela sabia que ele era. Vaidade e prepotncia andavam lado 
a lado com homens assim. Ela j deveria saber.
       Claro que ela no estava deliberadamente dando corda para uma antipatia gratuita por Saul. Por que precisaria? Ela j tinha antipatia por ele, no havia necessidade 
de achar que estava criando algo em sua mente.
       - No, no precisa mesmo - ela afirmou a James, que comeou a reiterar a oferta de Olivia.
       -Que pena - ele meio que brincou, meio que falou srio enquanto agarrava a mo dela, ao invs de simplesmente apert-la em despedida.
       Para Saul ela fez pouco mais que oferecer a ponta dos dedos com uma expresso de desdm, mantendo o mximo de distncia fsica possvel, o que a deixou ainda 
mais irritada e sentindo-se ridcula quando, ao se acomodar no carro, cinco minutos depois, percebeu que ainda sentia na pele o calor do corpo de Saul contra o seu 
quando ele a segurou na escada, mesclado a um senso de segurana e prazer.
       
       
     Captulo Seis
      
       Eca... Quando chegasse o outono ela precisaria se lembrar de chamar algum para aparar aquela linda rvore, um pltano bem crescido que ficava ao lado da 
casa e que havia entupido as calhas com folhas mortas por anos a fio. Por isso estava se empoleirando no alto da escada que comprara naquela manh com o propsito 
especfico de remover as folhas das calhas, de modo a manter a.gua da chuva longe das paredes externas.
       Subiu a escada. Usava um jeans e uma camiseta, alm de grossas luvas de borracha. No comeo balanou um pouco, mas logo descobriu que, para conseguir concentrar 
a ateno em sua auto-imposta tarefa e no pensar na altura, era preciso evitar movimentos rpidos demais e olhar para baixo.
       - Ah! Peguei voc! - exclamou com prazer ao descobrir um bolo grosso de folhas e restos entupindo a calha totalmente. No era de admirar que houvesse traos 
de infiltrao na parede de um dos quartos.
       Alegremente concentrada em sua tarefa, Tullah percebeu muito vagamente o carro que se aproximava pela pista, e mesmo ao ouvi-lo parando, sups que fosse simplesmente 
algum  procura de suas vizinhas.
       S quando ouviu a voz familiar de Meg foi que percebeu estar enganada.
       Pensou que Olivia tivesse resolvido dar um pulo em sua casa e trazer as crianas com ela e gritou:
       - Espere a, estou descendo.
       - Papai, papai, olha s,  a Tullah! Papai!
       Saul estava com as crianas.
       Imediatamente Tullah se voltou para olhar, e logo se arrependeu. Para ser honesta, jamais se sentira particularmente confortvel com alturas ou escadas e 
fora apenas por causa de sua enorme determinao em ser independente que se disps a subir. Mas o choque de ver Saul olhando para ela com o cenho franzido, combinado 
com a concluso constrangedora, desagradvel e vertiginosa de que se encontrava ainda na metade da escada, a fez de repente perder o sangue-frio. Seus olhos se arregalaram 
de aflio  medida em que ela se agarrava com fora.
       - No olhe para baixo - ela ouviu Saul alert-la, irritada por ele interpretar acertadamente o que ela estava sentindo. - No! No olhe para baixo - ele repetiu 
de maneira ainda mais enftica, mas ela ignorou a instruo e levou a mo trmula  testa, tentando lutar contra a vertigem.
       No estava fazendo a coisa certa. Tullah ouviu Jemima e Meg ofegarem de susto, seus rostinhos empalidecendo ao olhar para ela.
       - Tullah, ponha as duas mos na escada. Desa devagar! - ela ouviu Saul a orientando.
       Tullah engoliu em seco. Podia ouvir o que ele estava dizendo: sabia o que devia ser feito. Pelo amor de Deus, ela podia ver por si mesma o que deveria fazer, 
mas por alguma razo totalmente incompreensvel simplesmente no conseguia faz-lo. No conseguiria descer as escadas, de jeito nenhum... no mesmo. Portanto, ao 
invs disso, ela tentou se virar, mas parou quando Saul soltou o que pareceu um grito enlouquecido de raiva.
       - No! No! No! Fique onde est!
       Fique onde est. Ser que aquele homem estpido no estava vendo que era exatarnente o que ela estava tentando fazer...? Que a ltima coisa que pretendia 
ou queria fazer seria ir aonde quer que fosse? Se pudesse, apenas fecharia os olhos e voltaria para o cho firme, pois no haveria como descer de volta o resto daquela 
escada horrenda, vacilante e insegura, que balanava perigosamente a cada respirao sua. E se ela conseguisse voltar s e salva para o cho, a primeira coisa... 
bem, a primeira coisa que pretendia fazer seria voltar e loja e dizer a eles o que ela achava daquela escada supostamente infalvel e comple-tamente segura. Se havia 
algo que ela no estava sentindo naquele momento era segurana...
       - Corra, papai, ela vai cair - ouviu Meg exclamar ansiosa.
       Ao lado dela, Robert disse, enfadado:
       - Garotas...
       Tullah fechou os olhos debilmente. Sentia-se mais segura assim. Ao menos no via o cho que ondulava abaixo de si, nem a escada que balanava para l e para 
c" apesar de sentir a oscilao mesmo assim. Mas o melhor de tudo era que, com os olhos fechados, no via a cara indignada de Saul!
       - Largue a escada, Tullah. Largue a escada!
       Por mais que tentasse, Tullah no conseguia responder ao comando conciso de Saul, nem mesmo ele estando parado bem junto  escada, logo abaixo dela, olhando 
na di-reo correia.
       - Escute, tudo o que voc precisa fazer  descer da escada e se virar que eu a ajudo a descer. No poderia ser mais simples.
       - Eu,., eu no consigo - Tullah admitiu com a voz vacilante. - Eu no consigo soltar. - E quanto a se virar... Sentiu um leve calafrio, enrijecendo-se quando 
Saul subiu mais um degrau em direo a ela, certa de que a escada no aguentaria o peso de ambos, apavorada com a possibilidade de escorregar e jogar ambos no cho, 
expondo-os a sabe-se l quais ferimentos.
       Saul praguejou entre dentes e, antes que Tullah pudesse entender o que ele estava fazendo, ele a alcanou, dando um jeito de se equilibrar na escada enquanto 
tirava as mos dela do apoio. Quando ela comeou a entrar em pnico ele ordenou:
       - Fique quieta, sua criatura estpida, do contrrio ns dois vamos cair! - Ento a jogou por sobre o ombro muito habilmente,  moda tpica dos bombeiros, 
e comeou a descer a escada, enquanto ela arfava de olhos fechados.
       - Tullah, voc estava to engraada - Meg disse rindo quando Saul finalmente pisou no cho com sua carga e a ps de p, e acrescentou para o pai. - Voc foi 
muito esperto, papai, de salvar Tullah assim.
       Salv-la? Os olhos de Tullah brilharam de indignao, soltando fascas enquanto ela levantava a cabea e jogava os cabelos para trs dos ombros. Em algum 
ponto da descida seus cabelos haviam se soltado da presilha e seus cachos pendiam em total desalinho.
       - Eu no precisaria ser salva se voc no me tivesse deixado apavorada com aqueles gritos ensandecidos - Tulah acusou Saul, na defensiva. - Estava indo muito 
bem at voc chegar.
       - Estava mesmo? - Saul perguntou com um tom cido na voz. - Diga para mim, Tullah, quantas vezes voc j subiu em uma escada de verdade antes,?
       - Bem, eu j havia conseguido subir nesta antes sem problema algum - informou-lhe com arrogncia.
       - Subir a escada  a parte mais fcil - Robert informou-a desnecessariamente. - Descer  que  o problema.
       - Obrigado, Robert, mas creio que Tullah j demonstrou tal fato - Saul interveio calmamente. Ento, voltando-se para Tullah de modo que as crianas no conseguissem 
ouvir o que ele estava dizendo, acrescentou suavemente. - Se eu fosse outro tipo de homem, acharia muito lisonjeiro que voc esteja pronta a subir to alto s para 
cair em meus braos, Tullah, mas se voc quiser mesmo ficaria...
       - No quero! - Tullah respondeu com veemente animosidade, mas ao mesmo tempo preocupando-se em no deixar que as crianas ouvissem suas paavras. Ela ignorou 
tanto a expresso de divertimento em sua boca quanto o convite ao bom humor da piada com a qual ele tentava quebrar o gelo. - O ltimo lugar do mundo em que eu gostaria 
de estar seria em seus braos - ela respondeu, cida - e voc  o ltimo homem que eu...
       - Cuidado, Tullah - Saul a interrompeu sumariamente. - Do contrrio...
       - Do contrrio o qu? - ela murmurou, furiosa. - Do contrrio voc vai pensar que eu estou lhe lanando algum tipo de desafio sexual, por que voc  esse 
tipo de homem, no ? Do tipo que tem um certo prazer pervertido de conseguir capturar outra mulher para sua lista, do tipo que...
       - Meu Deus - Saul suspirou, com todo o bom humor desaparecendo de seu rosto, substitudo por raiva. - O homem que ficar com voc vai realmente arrumar um 
problema. Mas vou lhe dizer uma coisa, s por dizer, Tullah. De modo algum tal homem seria eu. Para comeo de conversa...
       - Para comeo de conversa, no sou seu tipo - Tullah disparou de modo virulento, os lbios retorcidos. - No, voc prefere garotas ingnuas e vulnerveis, 
no  mesmo? Garotas jovens demais para saber quem voc ...
       Tullah estava literalmente tremendo de emoo ao jogar as palavras nele como se fossem bofetadas, por demais tomada pela intensidade de seus sentimentos para 
perceber que as crianas podiam perceber, ou mesmo ouvir, o tom amargo do dilogo  meia-voz, at escutar Meg chamar pelo pai, com uma voz ligeiramente trmula.
       Saul reagiu imediatamente, forando um sorriso na boca ao voltar-se para a filha mais nova, suavizando a voz ao se ajoelhar e peg-la no colo.
       Para sua prpria confuso e horror, Tulah sentiu um grande n na garganta e seus olhos comearam a se encher de lgrimas ao reconhecer a urgncia e a intensidade 
com que ele respondeu ao chamado de Meg.
       Ela no teria como negar que, ali pelo menos, ele estava se mostrando diferente de seu prprio pai e do homem que havia trado o amor imaturo e infantil que 
um dia sentira por ele; a prova de seu carinho e preocupao com os filhos estava bem ali, na frente de seus olhos.
       Os olhos de Saul encontraram os de Tullah por sobre a cabea de Meg, que agora repousava no ombro do pai. Tullah no conseguiu encarar o desprezo frio que 
vinha dos olhos dele.
       Jemima e Robert chegaram mais para perto do pai, ladeando-o de um modo quase protetor. Tullah engoliu as lgrimas, contendo-se.
       - Foi muito legal da parte de seu pai trazer vocs para me ver - ela comeou.
       - Papai no nos trouxe para ver voc - Jemima a interrompeu. - Estvamos indo para casa quando a vimos na escada. Papai achou que voc no parecia estar em 
segurana.
       Indo para casa. Tullah franziu a testa ao olhar para o fim da pista logo aps sua prpria casa. S havia uma nica casa l, a casa que ela havia descrito 
a Olivia, no fazia muito tempo, como a casa de seus sonhos.
       Saul morava l!
       - Desculpe se atrasei vocs - ela finalmente conseguiu dizer, com a voz rgida, cuidadosamente evitando encarar o rosto de Saul.
       - Voc vai nos visitar qualquer hora dessas, no vai? - Meg tentou persuadi-la, saindo dos braos do pai para se aproximar de Tullah, pousando a mozinha 
de modo convidativo em seu brao. - Gostaria que voc lesse mais histrias para mim, e voc pode brincar com a minha nova Barbie se quiser... ela tem muitas roupas 
e seu prprio carro e...
       Atrs de Meg, Jemima soltou um som de enfado de irm mais velha.
       Tullah observou cautelosamente enquanto Saul instrua os filhos a se despedir e entrar no carro.
       A escada ainda estava encostada na casa. Tullah olhou-a com desaprovao.
       - E tudo culpa sua - ralhou. - Se no fosse por voc...
       Cair nos braos dele. At parece que ela queria isso. Nossa, ela preferia... preferia... preferia se jogar em um ninho de cobras, concluiu incisiva e desonestamente.
       - Ah, est faltando uma coisa.
       - E mesmo? O qu? Achei que j tinha armazenado tudo aqui - Oiivia comentou festivamente enquanto observava Tullah, que franziu o cenho ao olhar para os ossos 
e restos de galinha que estava cozinhando em fogo alto. - Alis, para que voc vai usar isto? - perguntou, curiosa. Mas se ela estava achando que ia mudar o rumo 
da conversa, estava enganada.
       - Sopa de galinha cora alho-por - Tullah informou sucintamente antes de continuar. - Voc devia ter me dito antes que a casa depois da minha pertencia a 
Saul.
       - Ah, bem... Galinha com alho-por.  uma das minhas sopas favoritas.
       - No est pronta ainda, e no vai ficar nunca se voc no parar de me distrair - Tullah avisou Olivia.
       - Hummm... Sabendo de sua opinio sobre Saul eu achei que voc ficaria sem jeito se eu lhe dissesse que a casa pela qual se atraiu tanto pertencia a ele.
       - Isso no  nada perto de como eu fiquei ao descobrir que ele no estava trazendo as crianas para me visitar, como pensei; estava apenas indo para casa 
- Tullah disse, demonstrando estar sentida.
       - Esquea o Saul - Olivia pediu - e me diga o que achou de James.
       Esquec-lo! Ah, se pudesse... Olivia mal sabia como Tullah desejava de fato obedecer ao seu pedido.
       - James? Gostei dele - disse a Olivia, corn sinceridade. - Ele  divertido.
       - Voc gostou dele? Sabia que iria gostar. Voc deveria convid-lo para jantar. Os homens gostam de comida caseira.   ,
       Tullah olhou para a outra, desconfiada.
       - Eu gosto de comida caseira - informou com toda a clareza -, razo pela qual estou preparando sopa para mim mesma.
       - Bem, voc ter bastante sopa para voc e mais um. Comer sozinha  deprimente. Comer acompanhada  muito mais divertido - Olivia disse, propositalmente persuasiva.
       - Mas no vou comer sozinha - Tullah disse, escondendo um sorriso.
       - Voc j convidou James para jantar...? Por que no disse logo? - Olivia perguntou, excitadssima.
       - James, no. Mary e Ivy, minhas vizinhas - Tullah corrigiu.
       Olivia olhou para ela com ironia.
       - Mas voc e James tm se falado, no ?
       - Temos, sim - Tullah reconheceu, meio reprimida, mas finalmente cedeu e admitiu: - Vamos nos encontrar para tomar uns drinques na quarta-feira.
       - Eu tinha certeza que vocs dois se dariam bem - Olivia disse, sorrindo.
       - Ele  bem legal. Eu gosto dele. - Tuliah disse, mas acrescentou de maneira bem clara: - Mas s como amigo.
       -  claro - Olivia concordou, com um tom obediente na voz.
       - Mary e Ivy tambm so tima companhia.  muito interessante escutar o que elas tm para contar. Elas conhecem bem a histria do local. Eu no sabia, por 
exemplo, que o local onde a Aarlston acaba de se instalar j foi um campo de batalha.
       - Foi mesmo, durante a Guerra Civil - Oiivia confirmou. - Na poca, Haslewch era um ponto estratgico, no cruzamento entre os acessos principais para sul, 
norte, leste e oeste. Na poca dos romanos todo o sal extrado daqui era transportado por mulas de Haslewich a Chester e de l iam para o exterior. O " wich" de 
Haslewich vem de uma palavra que queria dizer salinas, e foi atravs do sal que a regio prosperou tanto no comeo.
       - Obrigada pela lio de histria - Tullah brincou.
       - Bem, a cidade  de fato muito interessante - Olivia defendeu sua cidade natal - e ainda est fazendo histria atualmente, se tornando um moderno centro 
de negcios e de tecnologia. Alis, que tal seu novo emprego? - ela perguntou, mudando de assunto.
       - Eu estou adorando - Tullah disse, com sinceridade. - No sei se  a companhia em si, ou por ela ter se estabelecido no interior e no na cidade, sei l. 
Mas com certeza eles tm uma atmosfera de trabalho muito boa no departamento, h uma noo genuna de trabalho de equipe, um senso de cooperao e verdadeira boa-vontade 
para com os colegas.
       - Hummm... Bem, dizem que em qualquer negcio a atmosfera do local e as atitudes dos trabalhadores com frequncia refletem o homem ou a mulher que se encontra 
no topo e Saul tem mesmo fama de extrair o melhor daqueles sob sua superviso. Dizem que ele consegue motivar as pessoas, injetando-lhes auto-estima.
       - Bem... pouco vi Saul e, pelo que ouvi, ele no passa muito tempo no escritrio - Tullah disse a ela, fazendo pouco dos elogios a Saul.
       - Talvez no, mas posso apostar que ele mantm tudo sob suas rdeas e sabe exatamente o que est se passando e, quanto a passar muito tempo fora... - Ela 
franziu a testa. - Talvez esteja acontecendo no momento, mas s pode ser temporrio. Afinal de contas, a maior razo pela qual ele se transferiu para o departamento 
europeu da companhia foi exatamente paia poder passar mais tempo em casa com as crianas.
       Tullah digeriu os comentrios da amiga em silncio. Por mais que quisesse manter-se fiel  sua concepo de Saul como um pai ausente.e negligente, estava 
sendo forada a reconhecer que simplesmente no era verdade.
       Podia tambm ser teimosa e cabea-dura a ponto de querer se agarrar  convico de que Saul teria usado, de uma maneira ou de outra, seus conhecimentos de 
Direito para ganhar injustamente a guarda dos filhos, mas tinha de ser honesta e reconhecer que no era o caso.
       As crianas estavam com Saul no porque ele se determinou a conseguir sua guarda por qualquer razo egosta, mas pura e simplesmente porque a lei reconheceu 
que era o desejo dos filhos, da ex-esposa de Saul, e que estaria indo ao encontro dos melhores interesses das crianas.
       E da? Saul podia ser o melhor pai do mundo, mas isso no alterava o fato de ele ter tentando seduzir Olivia e estar jogando com uma prima que ainda no tinha 
nem vinte anos. Uma moa com idade para ser sua filha e, alm de tudo, parenta prxima.
       E Saui era um homem suficientemente carismtico, sensual, msculo, alis, msculo at demais, para fazer at mesmo uma mulher como ela, Tullah, sentir o corao 
bater cada vez mais forte e seu corpo reagir  sua presena, que diria uma garota ingnua e sem experincia.
       - Devo dizer que estou ansiosa pelo baile de mscaras da Aarlston - Olivia comentou. - Parece que vai ser o grande evento de vero. Pelo que estou sabendo, 
vai sei-no Fitzburg Place.
       - , eu sei - Tullah afirmou. - Parece que eles vo recriar o tipo de evento que eles costumavam fazer em Londres no sculo dezoito, com direito a um quarteto 
tocando Haendel e gndolas no canal artificial e no lago. Todos tero de usar roupas  moda do sculo dezoito e mscaras. O bufe ser reproduzido a partir de um 
menu de festa de casamento oitocentista e o final ser uma espeta-cular queima de fogos.
       - Hummm... Promete ser uma coisa. Todos os funcionrios da Aarlston sero convidados, alm de metade da cidade, pelo que ouvi dizer, e toda a aristocracia 
local, inclusive o conde. Na verdade, Bobbie comentou outro dia, e sugeriu que fizssemos uma viagem, s as garotas, at Londres, para escolher nossas roupas. Podamos 
passar a noite l e assistir a um show - Olivia se entusiasmou. - Mal posso esperar para me ver trajando, ou melhor, toda ataviada no estilo Ligaes Perigosas. 
No que nenhuma de ns v ofuscar voc - acrescentou enquanto Tullah ainda ria. - Voc tem o corpo perfeito para este tipo de vestido, cheio de curvas sedutoras 
e cinturinha fina.
       - Que pena, ento, que eu esteja vivendo no sculo vinte e no no sculo dezoito - Tullah respondeu, com indiferena.
       - Seu tipo de corpo nunca sai de moda - Olivia garantiu.
       - Seria legal passar uns dois dias em Londres - Tullah disse. - Quando voc pensa em viajar?
       - Depende. No estou certa ainda, mas avisarei.
       - Tem certeza de que no tenho como persuadi-la a tomar outro drinque? - James perguntou a Tulah.
       Tullah fez que no com a cabea, de modo decidido.
       - Eu realmente preciso ir embora, tenho trabalho para terminar ainda esta noite.
       -  uma pena - James suspirou. - Pensei que fosse conseguir persuadi-la a jantar comigo. Quem sabe uma prxima vez...
       Tullah sorriu.
       Ela ficara contente de James ter ligado e sugerido se encontrarem depois do trabalho para tomar um drinque e gostou de v-lo de novo, mas o bar que ele escolheu 
para o encontro estava comeando a ficar cheio e ela falou a verdade ao dizer que tinha trabalho  sua espera em casa.
       - Bem, ao menos permita que a acompanhe at o carro - James ofereceu enquanto Tullah levantava de seu
       lugar e comeava a caminhar entre o agora lotado bar, em direo  sada. - Nossa, veja s,  o Saul -James disse a ela, chamando o outro homem antes que 
Tuilah pudesse impedir.
       Saul parecia estar sozinho e, pela cara que ele fez, no ficara mais contente que ela, Tullah reconheceu ao v-lo caminhar em direo a eles. Sua irritao 
s aumentou ao perceber que as mesmas pessoas que bloqueavam seu caminho se afastavam prontamente para dar passagem a Saul, dentre elas uma mulher espaosa e ruidosa 
que sorriu para ele de modo oferecido quando ele passou.
       - J estamos indo embora - ele ouviu James dizer calorosamente a Saul. - Tentei persuadir Tulah a ficar para mais um drinque, mas parece que ela tem outros 
planos para esta noite.
       - Entendo - Saul disse educadamente, mas Tullah percebeu o olhar frio que ele lhe dirigiu. - Bem, espero que tenham uma boa noite - acrescentou, formalmente.
       - Bem, a minha parece que no ser das melhores - James anunciou de born-humor. - Pelo menos no depois de Tullah declinar de meu convite para jantar por 
causa do trabalho que a aguarda em casa.
       - Voc vai para casa para trabalhai? - Sau perguntou de modo incisivo.
       Por que ele estava olhando para ela daquele jeito, Tullah se perguntou, desconfiada. O que ele estava pensando? Que ela no era boa o bastante para seu cargo 
se precisava levar trabalho para casa?
       - H aspectos de certas coisas com as quais estamos lidando nos quais quero me concentrar melhor - Tullah respondeu, na defensiva.
       -  bvio que se trata de uma funcionria muito dedicada, Saul - James comentou com um sorriso irnico -, infelizmente para mim. Mas voc no vai escapar 
to fcil da prxima vez - ele avisou, de brincadeira. - Da prxima vez. ser servio completo. Um jantar longo e rela-xante, e depois...
       - Se voc estiver tendo problemas com o trabalho...
       - Saul interrompeu James para questionar Tullah com severidade.
       - No h problema algum - Tullah negou, incisiva.
       - Eu simplesmente acho que  mais fcil absorver assuntos complicados ficando sossegada, longe de coisas que me distraiam.
       Atrs dela, o ruidoso grupo que ajudava a lotar o bar aumentou ainda mais ao receber mais conhecidos, um dos quais deu um passo para trs, empurrando Tullah 
de modo que ela teve de se esforar muito para no balanar. S que ela no contava que Saul se mexesse ao mesmo tempo, ento ao invs de preservar a distncia entre 
eles, o que Tullah conseguiu foi acabar com a mo espalmada no corpo de Saul, seu corpo to perto do dele que ela chegou a sentir seus seios contra o peito dele, 
que respirou fundo.
       Com as bochechas vermelhas, Tullah deu um passo para trs, se afastando dele e dizendo apressadamente a James:
       - Eu realmente preciso ir embora. No, no precisa me levar at o carro. Ainda est claro e provavelmente voc e Saul querem conversar. - Ela tocou seu brao 
rapidamente, e antes que James pudesse dizer qualquer coisa, aproveitou o vo que abriu no grupo e pegou seu rumo em dreo  sada com determinao, sem ousar 
olhar para trs.
       - O quanto exatamente voc e Tullah se conhecem? - Saul perguntou a James, articuladamente, logo que ela virou as costas.
       - No to bem quanto eu gostaria - James admitiu, com tristeza, e acrescentou. - Posso lhe pagar uma bebida?
       - No, obrigado - Saul respondeu, olhando para o relgio enquanto falava. - Tenho um encontro no Gros-venor em cinco minutos.
       - No Grosvenor? ~~ James fez uma careta. - Ento o que est fazendo aqui?
       - Achei ter visto algum conhecido - Saul respondeu de modo vago. No final das contas, era mesmo verdade. Ele tinha visto James e Tullah e, ao v-los juntos, 
reagiu instintivamente e de uma maneira que no tinha inteno de discutir com seu parente.
       De certa forma, aquilo na verdade o fez sentr-se descon-fortavelrnente ciente de no ser to maduro quanto julgava.
       
       
     Captulo Sete
      
       Oivia podia achar que mulheres curvilneas nunca saem de moda, mas os costureiros no pareciam concordar, Tullah bufou, indignada, enquanto apertava o cinto 
das calas.
       Ao comprido e nas coxas, as suaves calas de l na cor creme serviam perfeitamente, mas na cintura... Gemeu ao perceber que, mesmo fechando o cinto no ltimo 
furo, as calas ainda escorregavam da cintura. O problema era que, mesmo tendo mandado apertar as calas ao compr-las, tinha perdido peso, principalmente devido 
 tenso e ao estresse naturais da mudana de emprego e de casa. O problema era que sempre perdia peso na regio do meio do corpo, o que a fazia pensar, com tristeza, 
que parecia mais com Dolly Parton do que uma elegante modelo de passarela.
       Mas no havia tempo para trocar de roupa agora; se no sasse logo para o trabalho, acabaria se atrasando. Pelo menos o blazer disfararia as calas frouxas 
na cintura.
       O que dissera a Olivia quanto a estar adorando o novo emprego era totalmente verdadeiro. Chegou at a se pegar cantarolando de manh ao ir para o trabalho; 
uma diferena enorme da maneira com que costumava se sentir nos meses anteriores, quando ainda estava no seu antigo trabalho.
       - ... Entrou meio que em pnico hoje de manh - Barbara comeou a lhe informar, meia hora depois, quando j estava sentada  escrivaninha. - Derek caiu doente 
com um problema de estmago quando estava para viajar para Haia hoje de manh com o chefe.
       Tullah franziu a testa ao ouvi-la. Derek era seu superior imediato e na noite passada mesmo ela tinha trabalhado em casa at tarde para ajud-lo com os toques 
finais nos documentos que ele queria para a viagem a Haia.
       - Algum ter de viajar no lugar dele - Tullah comentou, desnecessariamente. -  tarde demais para cancelar a viagem.
       - , eu sei - Barbara concordou, revirando os olhos e sorrindo de modo zombeteiro enquanto acrescentava - Que pena que no serei eu. No me importaria de 
passar umas duas noites em viagem com nosso chefe sexy.
       Tullah levantou as sobrancelhas, mas no disse nada, concentrando sua ateno na tela do computador que havia acabado de ligar.
       O interfone ao lado do computador tocou. Ela atendeu, sem tirar os olhos da tela, e disse, automaticamente:
       - Tullah Richards...
       - Ah, Tullah... timo... Pode vir  minha sala, por favor?
       - Claro.
       Tullah ainda estava olhando para a tela quando ps o fone de volta no gancho, mas no estava mais prestando ateno nela. O que Saul queria com ela?
       Ao se levantar e pegar o elevador para ir at sua sala, repassou na mente todo o trabalho que esteve em suas mos desde que comeara a trabalhar na empresa. 
At ento, sabia que no havia nada de que Saul pudesse reclamar. Na verdade, na noite passada mesmo, ao trabalhar com Derek, ouviu dele que estava muito satisfeito, 
no s com seu trabalho, mas tambm como a maneira dinmica com que ela assimilava e lidava com as coisas.
       No era s o elevador que estava fazendo os msculos de seu estmago se manifestarem um tanto nervosamente ao caminhar pelo corredor que levava  sala de 
Saul.
       Ao abrir a porta da ante-sala, Marsha saudou-a com um breve sorriso e lhe disse que podia entrar, pois Saul a estava aguardando.
       Saul estava no telefone quando ela abriu a porta. Ele franziu a testa ao v-la e fez um gesto indicando-lhe que se sentasse. Estava usando um traje formal, 
de negcios, apesar de ter tirado o terno e desafrouxado a gravata.
       - Bem,  muito lisonjeiro de sua parte, Travis, mas posso lhe garantir que ele pode me substituir. Na verdade, ele fez um curso de ps-graduao na faculdade 
de direito de Harvard, especializando-se em direito internacional, e tenho de admitir que neste particular  mais qualificado que eu.
       Houve uma breve pausa enquanto o homem do outro lado da linha comeou a faiar novamente e, mesmo sem querer, Tullah pde ouvi-lo alegar do outro lado do Atlntico 
que a quantidade de graduaes e ttulos no importava tanto quanto a experincia prtica.
       - Fico contente com o que diz, Travis - Saul o interrompeu. - Mas reitero que Thierry  mais do que qualificado para a tarefa. Apenas d tempo a ele...
       - Desculpe - Saul disse brevemente a Tullah quando finalmente encerrou o telefonema.
       Tullah aguardou em silncio, na expectativa de que ele, considerando-se o ego e a vaidade que ela sabia que ele tinha, fizesse algum comentrio sobre o fato 
de o americano do outro lado da linha no estar contente com o colega francs que fora promovido para o cargo de chefe da rea jurdica internacional da empresa, 
que era de Saul.
       Um pouco para surpresa dela, no houve qualquer referncia ao assunto. Ao invs disto, ele perguntou a elaf formando um pequeno vinco na testa.
       - Sabe que Derek ficou doente antes de viajar?
       - Sim - Tullah respondeu.
       - Sei que voc tem trabalhado muito com ele neste caso pendente dos direitos de patente. Ele ser levado ao juiz logo pela manh em Haia.
       - Sim, estive trabalhado mesmo com ele nisso. Derek me pediu para pesquisar o histrico da empresa e sob quais termos a patente foi comprada da primeira esposa 
dos detentores dos direitos, que os obteve como resultado do acordo de partilha aps o divrcio. Foi uma das primeiras patentes obtidas pela empresa, h mais ou 
menos uns vrtte anos.
       - E tem certeza de que se trata de uma patente de vinte e cinco anos?
       - Sim, no tenho a menor dvida, apesar de ter tido muita dificuldade para encontrar os documentos originais da patente - Tullah informou a ele. - O que esto 
usan-
       do contra ns  que a famlia da segunda esposa alega que a validade da patente original era de apenas dez anos e no vinte e cinco e que todos os royalties 
e lucros obtidos depois desses dez anos devem ser revertidos a eles.
       - Eles dizem que esto de posse do documento que prova que a patente era de apenas dez anos - Saul avisou Tullah, franzindo mais ainda a testa.
       - Eu sei. Avaliei esse ponto. O caso  muito complexo e intrincado, bem fascinante do ponto de vista puramente legal, mas suspeito que a patente tenha sido 
originalmente registrada para dez anos, mas depois Gerard Lebruck, o dono original dela, mudou de ideia e alterou para vinte e cinco sem destruir o documento anterior. 
 claro que naquela poca as leis de patente no eram to complicadas e monitoradas de perto quanto hoje em dia, e apesar de ter certeza que a famlia Lebruck acredita 
que a patente que tm seja genuna, na verdade no .
       - Hummm... Bem, parece que voc viu mesmo todos os detalhes dos fatos, o que  muito bom. - Saul deu uma olhada no relgio. - No vai haver tempo para arrumar 
outra pessoa para o lugar de Derek, portanto lamento dizer que voc ter que viajar no lugar dele.
       - Eu? Mas...
       - Nosso vo sai em trs horas, o que lhe d tempo de ir at sua casa e fazer uma mala para o pernoite - Saul continuou. - Marsha esta arrumando um carro e 
um motorista para lev-la em casa para pegar o que for necessrio e depois lev-la direto ao aeroporto. Eu a encontro l. Ah, e seria bom se voc levasse roupas 
bem formais.  claro que Claus van der Laurens, fundador da empresa, est aposentado agora, mas ele ainda mora em Haia e mantm grande interesse na companhia. A 
maioria das aes ainda  da famlia, como voc sabe, e eu imagino que ele v nos convidar para jantar.
       Seus pensamentos se encontravam em pleno caos enquanto Tullah olhava para ele. Uma coisa era soar positiva e assertiva ao confirmar para Saul a alegao da 
empresa de que a patente tinha validade de vinte e cinco anos, mas fazer o mesmo em um tribunal era outra coisa...
       Seu corao comeou a bater rpida e nervosamente. E se ela cometesse algum erro? E se ela levasse a empresa a perder o caso e a patente, logo uma das primeiras, 
sobre a qual fora construdo todo o sucesso da empresa.
       - Eu no acho... - ela comeou, vacilante, mas Saul a interrompeu novamente.
       - Sem discusso, Tullah - ele reiterou incisivamente. - Quero voc no aeroporto daqui a trs horas para pegar o prximo vo.
       Seu blazer preto neutro, mais a camisa de seda creme deveriam ser formais 0 suficiente para a audincia na corte, Tullah concluiu ardorosamente enquanto comeava 
a fazer a mala, na verdade uma bagagem de mo. Teria de viajar com a roupa que estava usando; simplesmente no havia tempo para se trocar e dar uma passada de olhos 
no relatrio antes de sair.
       Resolveu incluir outra camisa, s para o caso de acontecer algo com a primeira ou de a audincia se estender alm do previsto. Um par de calas de cetim bronze 
e uma blusa enganosamente recatada de gola fechada abotoada at a garganta na frente, mas que deixava as costas  mostra at quase a cintura infelizmente, o blazer 
cobriria as costas foram as nicas roupas que lhe vieram  mente que poderia considerar adequadas para um jantar com o fundador da empresa. J havia comparecido 
a vrios almoos de negcios em seu emprego anterior, mas seu guarda-roupa realmente no estava muito bem equipado de trajes eegantes para jantares formais.
       Roupas de baixo, maquiagem, um par de jeans e uma blusa informal caso tivesse a oportunidade de visitar algum dos museus e pronto, era tudo o que caberia 
na bagagem de mo, que fora o que Saul lhe aconselhara levar.
       - Assim no teremos de ficar esperando peias malas quando chegarmos - ele disse. - Derek no teve tempo de me deixar suficientemente a par da situao antes 
de caif doente, no tanto quanto eu gostaria, e h umas coisi-nhas que eu gostaria de abordar com voc.
        claro que a sua primeira prova de fogo no novo emprego, a primeira chance que teria de mostrar seu trabalho, teria de ser conduzida debaixo dos olhos hostis 
de Saul. E no havia qualquer dvida: ele a hostilizava. No a ponto de ela poder fazer qualquer reclamao concreta; ele com certeza sempre se portava de maneira 
meticulosamente educada nas raras ocasies em que se deparavam no trabalho.
       Sem dvida haveria quem dissesse que era tudo culpa dela; que uma certa ponderao e quem sabe um pouco de bajulao deliberada pudessem mudar o quadro, mas 
Tul~ lah simplesmente no fazia as coisas assim. Nunca fizera e nunca faria, muito menos no que dizia respeito a Saul Crighton.
       Mas isso seria esquecer o fato de que ele era seu chefe e, como tal, fazia parte de seu trabalho prestar ateno a ele e s suas ordens, ao menos que dizia 
respeito a trabalho.
       Sentiu um pequeno arrepio ao terminar de arrumar a maleta. A casa ainda estava ligeiramente fria e mida, apesar do novo sistema de aquecimento central que 
havia instalado. A empresa de calefao havia dito que era por causa da espessura das paredes. Ao descer rapidamente as escadas em direo ao carro que a aguardava, 
desejou que o clima mido e sombrio esquentasse um pouco antes do baile de mscaras.
       As notcias de que todos os funcionrios locais da empresa seriam convidados ao baile de mscaras havia gerado enorme expectativa e o evento prometia mesmo 
ser tremendamente espetacular. Lord Astlegh, dono do Fitzburg Place com seus jardins projetados  moda da Renascena italiana, estava recebendo uma soma considervel 
pelo uso de seus incomparveis e lendrios jardins.
       - Eles escolheram Fitzburg Place por causa dos canais artificiais que levam ao lago, tambm artificial - Olivia explicou a Tullah. - Saul estava nos dizendo 
que o diretor regional da empresa achou que os canais seriam uma forma de homenagear os primeiros diretores da empresa, que so holandeses.
       - Amsterdam encontra Veneza, que encontra o carnaval -- Tulah murmurou com um sorriso enquanto Olivia ria.
       Mas naquele momento ela no se sentia muito inclinada a sorrisos, Tullah admitiu para si mesma, sentindo um vazio quando o motorista lhe disse que estavam 
chegando ao aeroporto.
       - Providenciei bilhetes em seu nome - Marsha avisou a Tullah antes de sua partida, - Mas voc vai ter que peg-los no balco da companhia area.
       Como estavam viajando na primeira classe, Marsha tambm avisou a Tullah que ela no precisava chegar duas horas antes do vo, como de costume, mas sim quarenta 
e cinco minutos. Contudo, enquanto aguardava o funcionrio que estava procurando sua passagem pela segunda vez entre vrios papis, sem dar sinais de encontrar, 
Tullah sentiu o estmago se revirar de ansiedade.
       - Eu a quero naquele vo - Saul havia lhe dito e com certeza no havia nenhum elogio naquilo.
       Ele ficaria furioso com ela se, por alguma razo, ela no estivesse l... independente do porqu.
       - Desculpe - o funcionrio disse, relutante. - Mas parece no haver nenhuma passagem em seu nome.
       - No... no h passagem em meu nome? - Que diabos ela deveria fazer? Tullah olhou em volta, desesperada,  procura de um telefone quando, para seu grande 
alvio, viu que Saul caminhava resolutamente em sua direo.
       Para seu alvio! No teve tempo de analisar a forma com que sua ansiedade se dissipou, ou mesmo a maneira profunda com que sentiu que, de alguma maneira, 
Saul daria um jeito em tudo e que, para ele, o funcionrio da companhia area apareceria com uma passagem em dois tempos, se preciso fosse.
       - Ah, Tullah, que bom que j chegou.
       - Eles no esto encontrando a minha passagem - Tullah meio que balbuciou. - Marsha me disse que deveria retir-la no balco, mas eles dizem que no h nada 
em meu nome.
       - No, est certo. Eu a retirei antes, logo que cheguei
       - Saul disse, tranquilamente.
       - Voc a pegou? - Pausando cuidadosamente entre uma palavra e outra, Tullah lutou para controlar sua ira.
       - Voc pegou a minha passagem? - ela reiterou, mordendo as slabas, enfatizando as palavras ao tentar engolir sua raiva ao massacrar as palavras to rudemente 
quanto gostaria de fazer com ele.
       Ser que ele no percebia o que a fizera passar?
       - Algo errado? - ela ouviu Saul perguntar-lhe, franzindo levemente o cenho enquanto se aproximava e punha a mo em seu ombro.
       Tullah se afastou dele raivosamente de modo que o atendente no balco, que estava olhando para eles, no conseguisse ouvir suas palavras nem observ-los.
       - Sim. Tem algo errado, sim - ela sibilou. - No lhe ocorreu, tudo leva a crer, que retirar minha passagem podia ter feito eu perder o vo, o qual voc, alis, 
j havia avisado que eu deveria pegar quase como uma situao de vida ou morte! O atendente me disse que no havia passagem para mim - informou-lhe, a voz comeando 
a tremer de maneira reveladora.
       - Claro que havia passagem para voc - Saul afirmou. - Eu...
       - Voc a retirou. Sim, sei disso, agora... mas eu no sabia dez minutos atrs, quando estava me perguntando que diabo estava acontecendo e como eu faria para 
embarcar sem a passagem!
       Saul olhou para ela pensativo e circunspecto.
       - Entendo o que diz, mas creio que est exagerando. Eu tinha a inteno de estar aqui para encontr-a quando voc chegasse, mas recebi uma chamada e tive 
de atender.
       - De Louise, sem dvida - Tullah disse de modo docilmente virulento, por demais tomada pela raiva e pelo nervosismo do medo de perder o vo para sequer pensar 
em monitorar as palavras ou parar e avaliar a situao antes de perder a linha.
       - Louise? - Saul disse rispidamente, seus olhos se apertando ao observar o rosto corado e a boca tensa de Tullah. - No, no era Louise - ele disse com uma 
voz to gelada que quase lhe queimou a pele. - Para falar a verdade, era Jemima. Ela estava meio atormentada por no conseguir encontrar o urso.
       - Urso? - Tullah repetiu. Agora que o choque havia comeado a se dissipar, bem como sua exploso movida a raiva, Tullah comeou a se sentir um pouco enjoada 
e trmula.
       O que havia dado nela? Era, por natureza, uma mulher de temperamento intenso, talvez demais s vezes, mas jamais havia perdido o controle de maneira to aguda 
e exaltada no ambiente de trabalho.
       - Sim, o urso - Saul afirmou, explicando sucintamente. - Ns... Eu dei o ursinho a Jemima quando ela era pequena e ela... - fez uma pausa. - Ela est chegando 
a uma idade na qual se envergonha de precisar de um brinquedo favorito na hora de dormir. Mas quando acordou hoje de manh e no achou o urso e ficou um pouco nervosa, 
por saber que eu no estaria em casa esta noite.
       Tullah mordeu o lbio, visualizando o sentimento de Jemima com muita facilidade, jamais admitiria a ningum, sob nenhuma hiptese: mas aps o divrcio de 
seus pais era se sentia muito mais reconfortada se tivesse seu ursinho consigo na nora de dormir. Ele virou um misto de mascote e amuleto para ela, razo pela qual 
o havia trazido consigo na bagagem de mof em vez de deix-lo em casa.
       A audincia no tribunal da manh seguinte no seria de modo algum a primeira vez que ela poria os ps em um tribunal, mas seria a primeira em que o faria 
por seu novo emprego, e a primeira em que estaria sob o olhar afiado e, sabia bem que bastante crtico, de Saul Crighton.
       De forma alguma ela teria sido sua escolha para a tarefa; ele  que no tinha alternativa. Ea era apenas algum que tinha as informaes necessrias para 
o caso.
       S que ela sabia que boa parte de sua ansiedade sobre a aparente falta da passagem havia sido gerada por sua apreenso com o que a aguardava. Mas  claro 
que jamais admitira a Saul.
       - Escute, j estamos na hora do check-in. Voc j est pronta?
       - Estarei to logo me d minha passagem - Tullah disse, bem objeti vmente.
       O vo foi breve e tranquilo e havia um carro com motorista os aguardando no aeroporto para lev-los ao hotel. No era um dos hotis internacionais modernos 
pelos quais passaram no caminho, mas sim um bem menor e muito mais luxuoso o qual, de acordo com o que Saul explicou, havia sido a manso de um comerciante muito 
rico.
       Dava para notar que os atuais donos procuraram manter o estilo original da construo, com sua entrada e escadarias grandiosas ornamentadas com enormes e 
sombrias pinturas a leo, em sua maioria retratos de homens de expresso sria e crianas e mulheres de ar respeitoso.
       A entrada era iluminada por um candelabro enorme, enquanto os uniformes discretos dos funcionrios do hotel re-fletiam as cores sombrias, porm vistosas, 
das pinturas.
       Tullah no saberia dizer se era por acaso ou de propsito, mas a recepo cheirava a especiarias como canela e noz moscada, dentre outras que no saberia 
dizer o nome.
       Ao respirar prazerosamente aquele aroma, no se conteve e perguntou avidamente a Saul:
       - O homem que construiu isto comerciava com as ndias Orientais Holandesas?
       Sua perguntou provocou um inesperado sorriso de aprovao em Saul.
       - Sim, para falar a verdade era mesmo. Poucas pessoas so to rpidas em fazer a ligao entre as especiarias usadas para aromatizar o ambiente e o comrcio 
que possibilitou a construo da manso.
       - Devia ser incrivelmente excitante esperar peia chegada de uma carga vinda de to longe.
       - Hummm... caso ela de fato chegasse e o barco no tivesse sido abordado por piratas, ou se a carga no tivesse sido arruinada pela gua salgada, ou os lucros 
devorados pelos subornos que os comerciantes tinham de pagar - ao ver a expresso murcha de Tulah, o sorriso de Saul se alargou um pouco enquanto ele concordava. 
- Bem, devia ser muito excitante, sim, excitante e romntico e est quase alm de nossa compreenso moderna avaliar como seria terminar uma viagem destas, de um 
lado a outro do mundo, apoiando-se to somente no talento, na esperana, no vento e nas mars.
       - O carregador vai lev-los a seus quartos - a recepcionista anunciou com um sorriso quando terminou de conferir suas reservas. Ao se voltarem para seguir, 
ela acrescentou para Saul. - Lamento que as acomodaes que providenciamos no sejam to boas quanto a sute para dois que havia sido originalmente solicitada, mas 
esperamos que tenham uma boa estadia conosco.
       Ao se voltar para acompanh-la, Saul disse calmamente a Tullah:
       - Marsha havia originalmente reservado uma sute com dois quartos separados ligados por uma sala comum, de modo que Derek e eu pudssemos passar algum tempo 
discutindo sobre o caso com mais facilidade. De toda forma, pedi a Marsha que mudasse as reservas hoje pela manh, de modo que nenhum de ns dois se sinta desconfortvel 
ou interprete algo da maneira errada.
       Tullah olhou para ele. Tamanha considerao e preocupao iam totalmente de encontro a tudo que ela acreditava sobre ele. Ela foi pega to desprevenida que 
simplesmente no foi capaz de dizer nada.
       Saul puxou a manga do palet para dar uma olhada no relgio e disse:
       - Sugiro que tiremos meia hora para nos instalarmos e ento a levarei para o tribunal onde o caso est sendo julgado, para que possa se familiarizar com tudo. 
Tenho um encontro de negcios esta noite, mas no terminar tarde, por isso no hesite em bater na porta de meu quarto se, durante a noite, se deparar com qualquer 
problema relativo ao processo. A coisa comea cedo amanh de manh. Espera-se, se sua informao estiver correta, que as coisas se resolvam favoravelmente, e depois 
teremos o jantar com Claus van der Laurens. Os elevadores ficam nesta dire-o...
       Tullah seguiu-o em silncio. No fazia ideia tie por que se sentiu de repente to... to sozinha, s porque ele lhe disse que ia sair para jantar... sem ela. 
       
       
       
             Capitulo Oito
      
      
      
       -T ullah respirou fundo.
       - Mostramos ento, como prova, uma cpia da patente, assinada e datada conforme nossas alegaes, alm de uma cpia da carta original, confirmando a venda 
e a transferncia da patente do detentor original dos direitos para a empresa, junto com uma cpia do acordo de transferncia.
       Tullah sentiu, do outro lado da sala de audincia, que Saul a observava e automaticamente se pegou virando a cabea para encarar seu oihar fixo, imvel. Ela 
no queria olhar para ele, no transmitir a ele a mnima impresso de que sentia necessidade de seu apoio ou aprovao, mas sentia intensamente tal necessidade, 
enquanto esperava que avaliassem a prova que havia acabado de apresentar. Parecia que havia um elo magntico entre ele e ela, uma sensao de proximidade... de camaradagem, 
de estarem unidos, algo que no poderia ser analisado ou discutido em termos lgicos.
       Vinte e quatro horas atrs ela poderia ter declarado, de maneira bastante veemente, que no precisaria de SauS para compartilhar uma vitria, e certamente 
no tinha nenhum desejo de que ele testemunhasse um possvel fracasso, mas  medida que a tenso crescia na sala de audincias, Tullah foi percebendo cada vez mais 
o senso de fora e calma da presena silenciosa de Saul.
       No havia nada como a atmosfera de uma sala de audincias para fazer uma pessoa sentir-se vulnervel e isolada, TuJlah lembrou a si mesma, e a proximidade 
que ela poderia criar entre membros de uma mesma equipe ou empresa poderia resultar em companheiros improvveis no mundo real alm de suas portas.
       Companheiros?
       Seu corao acelerou um pouco e, do outro lado da sala, ela viu Saul levantar as sobrancelhas, criando um vinco pronunciado na testa.
       A prova que apresentara ainda estava sendo avaliada. Ela tentou no demonstrar nenhum nervosismo e permanecer completamente impassvel. No tinha a menor 
dvida da validade da alegao da empresa, ou de que a patente de vinte e cinco anos tinha precedncia sobre a de menor validade da outra parte, mas como Saul a 
avisara pela manh, no era bom ser confiante demais, e sabiam que a outra parte poderia trazer na ltima hora provas das quais no tivessem conhecimento.
       E se houvesse alguma prova que ela tivesse deixado de apurar em sua pesquisa, que lhe tivesse escapado? J podia sentir um princpio de pnico. Seria suficientemente 
ruim perder o processo e, com ele, uma das patentes mais valiosas da empresa, mas fracassar na frente de Saul... A despeito da ligao visual silenciosa que sentia 
entre eles, uma vez que o caso fosse dado por encerrado as coisas voltariam ao normal, eles se tornariam antagonistas de novo e ela no deveria ligar muito para 
o apoio mental dele.
       A outra parte foi agressiva, mas para alvio de Tullah, ningum apresentou qualquer prova inesperada. Ela sentiu a tenso lhe revirando os msculos do estmago, 
sendo o nico som a quebrar o silncio o constante rudo das folhas de papel que estavam sendo estudadas.
       O que Saul estaria pensando: Ser que ele achava que venceriam? Haveria algo que ela deveria ter feito para garantir o veredicto e no fez?
       Aps o que pareceu uma eternidade, foi anunciado que o jri havia chegado a um veredicto.
       Tullah prendeu a respirao ao se levantar, mantendo seu rosto profissionalmente impassvel, mas mesmo assim sem resistir a dar uma olhada rpida para Saul. 
Buscando o qu? Confirmao? Certeza de que ele estava feliz com a forma com que ela conduzira o caso? Tambm no conseguiu resistir  tentao extremamente rio-pro-fissional 
de cruzar os dedos e fazer uma pequena prece em silncio, pedindo pela vitria.
       O veredicto foi lido lenta e cuidadosamente. Tullah respirou fundo de alvio ao ouvir a confirmao da validade e autenticidade da patente da corporao.
       De repente ela tomou conscincia de coisas que no havia percebido antes, como o sol penetrando a sala de audincias atravs da janela e que l fora, alheia 
 atmosfera temerosa e abafada do recinto, a vida seguia seu curso normal. Ouviu o som dos carros e das pessoas passando, algumas assoviando.
       Respirou fundo mais uma vez e sentiu uma onda de alvio, como bolhas efervescentes e vertiginosas de felicidade.
       - Muito bem!
       Ela no se afastou ao sentir Saul tocar seu brao. Ao invs disso, ficou simplesmente onde estava, aliviada demais para tentar esconder suas emoes, segurando 
o pescoo com a mo e dizendo com a voz rouca:
       - Tive medo que eles dessem ganho de causa  outra parte, mesmo sabendo da validade de nossa patente. Bobagem, eu sei.
       - No  bobagem.  uma reao bastante razovel, devo dizer - Saul a contradisse e explicou quando ela olhou para ele como quem no entendeu. - Segurana 
em excesso pode ser to ruim quanto ignorncia. Saber da possibilidade de haver perigos e ciladas  estar pronto para lidar com elas.
       - Passei mesmo por momentos difceis quando tentaram alegar que o detentor original da patente havia mudado de ideia e escrito  empresa informando que s 
estava disposto a vender a patente por um perodo de dez anos. - Tullah fez uma pausa, hesitante. - Voc acha...
       -No - Saul negou vividamente, balanando a cabea. - No meu ponto de vista, aquilo foi simplesmente uma ttica para ganhar tempo durante a audincia... uma 
tentativa de fazer com que o jri decidisse que seria preciso adiar a sesso para certificar-se da existncia de ta documento. Eles no ganhariam nada, mas enquanto 
estivesse sendo feita a pesquisa, todo o dinheiro relacionado  patente teria de ficar retido em juzo, o que teria um pssimo efeito nos lucros da empresa. Nem 
mesmo uma companhia do tamanho da Aarston est livre de ser leiloada, e se voc quer saber o que eu penso, estou meio inclinado a achar que havia algo mais por 
trs desta alegao de que a patente original no seria vlida.
       - Voc quer dizer que algum pode estar por trs de uma tentativa de desestabilizar a companhia?
       - Bem, j aconteceu antes - Saul disse, com indiferena. - Seja como for, ao menos nesta ocasio, se houve algo escuso por baixo dos panos... - Deu de ombros. 
- Voc se saiu muito bem, principalmente se considerarmos que voc foi jogada de repente no meio do furaco.
       - Eu estava muito nervosa - Tullah reconheceu. De repente parecia ser a coisa mais normal do mundo admitir a ele como estivera apreensiva. O alvio e a euforia 
que estava sentindo por vencer produziu um senso de proximidade e de camaradagem com Saul que, por ora, ps de lado quaisquer consideraes outras e diferenas. 
Estava feliz at mesmo com o brao protetor que ele estendeu para proteg-la das pessoas que saam todas ao mesmo tempo da sala de audincias e recebeu bem o gesto 
de cavalheirismo  moda antiga. Admitiu, com tristeza, que seus instintos femininos estavam sobrepujando sua conscincia mais moderna de igualdade e do politicamente 
correto.
       - Eu sugeriria um almoo para comemorar - Saul disse. - Mas est tarde agora para almoar, e...
       Tullah balanou a cabea.
       - No estou com muita vontade de comer - ela disse, desanimada. - O que realmente preciso  subir para o rneu quarto e escrever meu relatrio enquanto ainda 
est fresco na minha mente.
       - Hummm... Bem, se voc tem certeza de que no se importa, tem algo que eu gostaria que fizesse - Saul a informou sem especificar o que era. - A propsito, 
Claus providenciou um carro para nos pegar s sete e meia.
       - Estarei pronta - Tullah assegurou.
       Uma vez que o ordlio da audincia havia sido vencido, ela estava j se preparando para encontrar o fundador da empresa, apesar de que Saul tambm estaria 
l.
       Apesar de que...
       Ela fez uma pausa, incapaz de resistir a dar uma olha-dinha rpida nele. Algo estranho estava ocorrendo com ela, algum extraordinrio e inesperado coquetel 
de emoes e reaes que se combinavam para lhe dar uma sensao de leveza e excitao... um senso de expectativa, uma verdadeira falta de ar.
       Algum a empurrou por trs, forando-a a chegar mais perto de Saul. Ele imediatamente a segurou mais forte e abaixou a cabea para olh-la. E manteve o olhar.
       Ele de fato tinha os olhos mais excepcionalmente belos, de cor to profunda e to clida que... E aqueles clios... Ela levantou a mo, sentindo um desejo 
de toc-los para ver se eles eram to suaves e sedosos quanto pareciam ser, mas parou, sentindo uma vertigem e engolindo em seco. Que diabos estava pensando? Fazendo...?
       - Tullah.
       Saul estava se inclinando e aproximando ainda mais dela, com os olhos momentaneamente turvos de preocupao, como uma sombra passando pelo sol.
       Uma sensao elevada, como um pressgio, como se estivesse prestes a passar por uma mudana vital, essencial, a fez estremecer: uma sensao assustadora e 
cristalina de que subitamente, ali e naquele exato instante, em meio a todo aquele cenrio mundano de pessoas se empurrando para frente e para trs ao redor dela, 
ela estava se deparando com algo de imensa importncia.
       Saul levantou a mo em direo.-ao rosto dela, fazendo-a j visualiz-lo segurando o pescoo dela com as mos, que sentia seu calor... sua fora... sua paixo... 
sua... a capacidade que ele tinha de mudar a vida dela como um todo, fazendo-a sentir que nada jamais seria como antes.
       Ela estremeceu como uma sonmbula e arrastou seu olhar para longe dele, dando um passo para trs, permitindo que a multido agitada se interpusesse entre 
eles.
       - Eu... eu tenho que ir - ela disse a ele de modo nitidamente artificial. Ento, sem lhe dar qualquer chance de responder, comeou a se dirigir  sada, primeiro 
caminhando e depois correndo, tomada por uma sensao de pnico que sobrepujava a apreenso que havia sentido antes do julgamento. O que sentia ali era diferente; 
era pessoal... era...
       Ela lembrou, cheia de ansiedade, de ter lido em algum lugar sobre uma experincia conduzida nos Estados Unidos segundo a qual era mais provvel que os homens 
se atrassem e se apaixonassem por mulheres que vissem imediatamente depois de um algum tipo de experincia que estimulasse sua adrenalina ou aps um incidente que 
os desafiasse ou alarmasse. Mas com certeza o mesmo no se aplicava s mulheres; certamente elas eram imunes a este tipo de vulnerabilidade.
       No era possvel que ela estivesse se sentindo atrada por Saul, simplesmente no era possvel. Aprofundou-se cuidadosamente em todas as razes pelas quais 
no seria possvel que isso estivesse acontecendo, soltando um suspiro de alvio ao enumer-los.
       Frente a esses motivos todos, to slidos e enraizados, o que se opunha? Apenas uma breve e fugaz sensao, que durara um mero instante, mal dando tempo a 
ela para definir o que era.
       Ainda assim, aquelas sensaes continuavam l, atormentando-a, to efmeras que poderiam voar para longe ao mnimo sopro de realidade e lgica. Mas, para 
sua irritao, elas se recusavam a abandon-la, voltando toda vez que tentava bani-las.
       Um olhar; uma batida de corao a menos; uma breve sensao de falta de ar e vertigem; uma percepo peculiar de que um evento primoroso se aproximava... 
Mas o que, afinal, significava aquilo? O que seriam aqueles sentimentos a no ser o mero produto de uma imaginao sobrecarregada de trabalho? No significavam nada, 
nern mesmo... coisa alguma,., nada... nada mesmo, e com certeza no era nada com que valesse a pena continuar se preocupando.
       Ela tinha mais o que fazer. Tinha outros planos para o resto da tarde, como Saul. Saul. Ali estava ela, novamente comeando a pensar nele mais uma vez,
       O Mauritshuis estava praticamente vazio, permitindo que Tullah passeasse lentamente, pintura por pintura;  vontade, absorvendo a completa opulncia do uso 
de cores e formas, luz e sombra, apreciando os pequenos detalhes de cada grande trabalho da coleo do mestre Ver-meer que tinha ido ver.
       Um suspiro voluptuoso de prazer lhe veio aos lbios quando parou em frente a um de seus favoritos, a "Vista de Delft". Perdida em sua observao, no percebeu 
que algum se aproximava da pintura, at que um breve movimento lhe chamou a ateno. Virando a cabea, congelou ao ver Saul.
       - O que est fazendo aqui? - ela perguntou.
       - O mesmo que voc - ele respondeu, com indiferena. - Gosta de Vermeer? - ele perguntou, apontando com a cabea a pintura que ela estava apreciando.
       - Se gosto? - A boca de Tullah curvou-se para baixo em sinal de profundo desprezo. - No se pode simplesmente gostar de um trabalho desta categoria - ela 
respondeu, de modo sucinto.
       Ela parou abruptamente ao perceber que ele zombava dela; rugas de expresso se formavam no canto dos olhos dele, denunciando o riso que ele tentava conter.
       - Voc parece com a Meg quando alguma coisa a deixa fula - ele observou, com bom humor. - Tomara que voc no saia batendo os pezinhos.
       Tullah olhou para ele, furiosa. Como poderia ela jamais consider-lo atraente, ou se preocupar que corresse o perigo de querer...?
       - Se eu sair batendo meus pezinhos, ser por que voc estar debaixo deles - ela respondeu.
       Saul levantou as sobrancelhas.
       - Sou totalmente a favor de mulheres fortes e capazes de se afirmar, mas h um ponto no qual a auto-afirmao se torna agresso, e voc...
       - Eu o qu? - Tullah continuou, desafiando-o. Saul balanou a cabea.
       - Esquea - ele disse, sardonicamente. -  impossvel quando se trata de voc, no  mesmo, Tullah? Tome cuidado, contudo, para no julgar mal o inimigo que 
est to determinada a destruir. Voc pode acabar descobrindo que acabou por atacar a si mesma com os espinhos agudos de suas palavras.
       Aps dizer isso, ele deu-lhe as costas e se afastou dela.
       - Vamos l, voc no pode me deixar terminar esta garrafa de vinho sozinho e j sei que no adianta insistir com Saul, pois ele  abstmio e jamais poder 
ser persuadido a agir contra sua vontade.
       Bem que Tullah tentou, sem muita convico, objetar quando Claus van der Laurens insistiu em encher sua taa com o vinho extremamente encorpado e saboroso 
que havia pedido para acompanhar a refeio na qual comemoraram o igualmente excelente triunfo de Tullah na sala de audincias, mas foi forada a reconhecer que 
o fundador da empresa tinha Saul em alta conta. E no apenas isso, ele gostava mesmo de Saul e o tratava quase como se fosse da famlia.
       E se um homem perspicaz e astuto como Claus van der Laurens nutria tamanha estima por Saul, como ficaria ela e seus sentimentos negativos e hostis para com 
ele?
       A partir da conversa naquela noite, ficou evidente que o holands era um homem muito dedicado  famlia. Ele explicou a Tullah que a nica razo pela qual 
sua esposa, no estava presente era porque sua neta mais velha havia acabado de dar  luz e ela fora ficar com ela, para ajud-la.
       - Saui estava me dizendo que vocs dois so grandes fs de um de nossos maiores pintores - Claus comentou enquanto Tullah bebia seu vinho.
       - Sim. Sim, realmente aprecio muito seu trabalho - ela concordou, franzindo ligeiramente o cenho. O que mais Saul teria dito a Claus van de Laurens sobre 
ela? Nada, ela esperava, que prejudicasse sua carreira.
       - Tenho um pequeno ambiente decorado em seu estilo por um de seus alunos - ele disse a ela, balanando a cabea enquanto admitia. -  muito bom  sua maneira, 
mas para quem j viu o trabalho do mestre...
       - Ele tem um olho para os detalhes... - Tullah respondeu, mas sua mente j no estava mais voltada para seu pintor favorito.
       Claro que era impossvel que ela estivesse errada quanto a Saul, mas... Mas sem dvida alguma, seu ponto de vista sobre ele parecia ir de encontro  opinio 
extremamente favorvel que a maioria das pessoas tinha sobre ele, a qual declaravam abertamente. O que aquilo queria dizer exatamente? Que eles estavam errados e 
ela estava certa ou que...
       No havia dvida de que ele era um homem extremamente carismtico e sexy. Bastava que ela observasse a reao das outras mulheres no restaurante  sua presena 
para saber disso... ou reconhecer as reaes fsicas de seu prprio corpo, lembrou a si mesma com tristeza.
       Seu anfitrio estava agora falando sobre o baile de mscaras no qual ele e sua famlia seriam os convidados de honra da empresa.
       J passava da meia-noite quando eles finalmente deixaram o restaurante e Saul chamou um txi para lev-los de volta ao hotel. Havia algo de positivamente 
desconcer-tante em dividir o interior sombrio de um txi de madrugada com um homem extremamente sexy e atraente, Tullah pensou com seus botes, ou ao menos era uma 
desculpa que ela arrumou o perigoso crescimento que sentia da percepo de Saul como homem.
       Determinada a ignorar tais sentimentos ridculos e indefensveis, virou a cabea deliberadamente para a dre-o oposta  dele e ficou observando a escurido 
das ruas, mas quando foram brevemente detidos por um sinal de trnsito, ela sentiu-se compelida a olhar para ele.
       Para sua surpresa, Saul estava encarando-a, com os olhos levemente apertados enquanto olhavam um para o outro em silncio. Tullah foi a primeira a desviar 
o olhar, mas antes disso seu olhar parou, denuncadoramente, sobre a boca de Saul.
       O vinho devia estar causando aquele efeito, concluiu enquanto o txi estacionava em frente ao hotel. Era um vinho bastante encorpado e vigoroso e suspeitava 
que bem mais forte do que pensava. Ela no se sentia bbada, sentia-se apenas... apenas... Sentia-se intrigada por querer saber como seria ser beijada por Saul, 
se era verdade o que se dizia de homens com aquele tipo especfico de lbio inferior, sensualmente encurvado para baixo. Seria ele do tipo que se apressava e estragava 
as coisas, cobiosamente vido por prazeres mais ntimos, ou daria tempo ao tempo, explorando de maneira sensual e aproveitando ao mximo a deliciosa intimidade 
de um beijo longo, demorado e extremamente apaixonado?
       Ser que ele...?
       - Eu acho que seria bom se voc solicitasse que telefonassem pela manh, j que nosso vo sai s dez - Saul a avisou com indiferena, cortando a natureza 
altamente voltil de seus estranhos pensamentos erticos.
       - O que est tentando dizer? - Tullah perguntou, retomando a carga toda e respirando fundo, o que causou tanto efeito nas curvas de seu corpo que fez um homem 
a vrios metros dela ficar boquiaberto, desejando, cheio de inveja, estar no lugar de Saul. Numa poca de mulheres ossudas e magrelas, era raro ver uma com formas 
de verdade, cheia de curvas femininas deleitveis e deliciosas.
       Tullah, que viu o olhar duro que Saul dirigiu a ele sem fazer ideia do porqu, pensou no que diabos ele teria feito para Saul encar-lo com tanta hostilidade 
antes de completar, de modo imperioso:
       - Na verdade, j pedi que ligassem, mas se voc pretende insinuar que eu... que eu...
       Ela comeou a soobrar levemente frente  reprovao de Saul e ao modo com que ele a olhava, arqueando as sobrancelhas.
       - Eu no estou bbada - ela falou, chamando para a briga, mas depois soltou um pequeno soluo que a entregou. - S tomei quatro taas - ela comeou a protestar 
enquanto Saul tomou a frente rumo aos elevadores.
       - Quatro taas, mas praticamente uma garrafa inteira - Sau murmurou com indiferena.
       Tuilah arfou e tentou negar, dizendo em tom de queixume:
       - Claus ficava enchendo minha taa...
       - Exatamente - Saul concordou sardonicamente e avisou. - S espero que voc tenha algum remdio para dor de cabea, pois acho que vai precisar amanh de manh.
       - Saul, voc  mesmo um estraga-prazeres - Tullah disparou.
       - No  questo de ser estraga-prazeres - Saul retornou calmamente. -  mais uma questo de conhecer Claus. Ele  um anfitrio generoso, mas tem uma cabea 
de ferro fundido. J o vi beber sozinho duas garrafas de vinho fino sem demonstrar o mnimo efeito, mas o resultado pode ser letal quando no se est acostumado 
a beber.
       Tullah abriu a boca para alegar que era uma mulher de quase trinta anos e que era perfeitamente capaz de saber quando parar de beber, mas o elevador chegou 
e os passageiros que estavam dentro comearam a sair, fazendo-a perder a chance.
       De certo modo, ela no tinha iluses sobre a razo pela qual Saul insistiu tanto em lev-la at a porta de seu quarto, o que nada tinha a ver com qualquer 
desejo de tentar entrar ou ir para sua cama.
       - Estou perfeitamente sbria - ela disse a ele com irritao enquanto ele tirava a chave de sua mo para introduzir na fechadura.
       - O que foi agora? - ela perguntou quando ele abriu a porta para ela e seguiu-a para dentro do quarto. - No sou uma de suas filhas, sabia? Voc no tem que 
ficar me supervisionando enquanto me dispo e nem fiscalizar se escovei os dentes direito antes de ir para a cama...
       Ela fez uma cara de contrariada ao ver que ele a ignorou e desapareceu em direo ao banheiro, logo retornando com um copo, para ento abrir o pequeno refrigerador, 
tirar uma garrafa de gua, abrindo-a e enchendo o copo.
       - Beba isto - disse a ela sucintamente. - Provavelmente no vai impedir a ressaca pela manh, mas pelo menos vai evitar que fique totalmente desidratada.
       - Est certo, papai - Tullah zombou, fingindo-se de mansa, e pegou o copo de suas mos. Mas de algum jeito ela deixou o copo escorregar e o susto da gua 
gelada molhando sua blusa e pele a fez arfar de indignao. - Veja s o que voc fez agora - ela acusou Saul enquanto comeava a afastar o tecido molhado de seu 
corpo.
       Ela pensou ter ouvido Saul resmungar consigo mesmo ao desaparecer para dentro do banheiro pela segunda vez, mas estava envolvida demais na tentativa de tirar 
as roupas encharcadas, removendo primeiro a blusa e depois o suti, jogando-os no cho com averso.
       - Aqui, pegue esta... - ela ouviu Saul instru-la, irritado, mas ao se virar e olhar para ele de maneira vacilante, surpresa de v-lo ainda em seu quarto, 
pde ver o choque nos olhos dele e seu maxilar enrijecendo enquanto ele perguntou, ainda mais irritado. - Mas que diabos voc pensa que est fazendo?
       O que ela estava fazendo?
       Tullah olhou para ele intrigada. O que ele queria dizer? Ela no estava fazendo nada. Ela estava apenas... Ao desviar o olhar do rosto furioso e incrdulo 
de Saul para as roupas que havia tirado, subitamente tudo se iluminou em sua mente. Ela soltou uma risadinha sem graa, e depois outra, e zombou dele de maneira 
coquete.
       - Qual o problema, Saul? Nunca viu uma mulher nua antes?
       Ela zombou dele, fazendo um biquinho de falsa raiva, e pensou ouvi-lo dizer fervorosamente.
       - Ah, meu Deus, no posso acreditar no que est acontecendo! Claus, voc  o culpado. - Apesar de seus risinhos ainda borbulharem como champanhe fresco, Saul 
jogou a toalha que estava em suas mos para ela e disse enfaticamente: - Tome, cubra-se.
       - No quero me cobrir - Tullah respondeu, fazendo cara de menina levada. - Qual o problema, Saul - ela arrulhou. - Voc no gosta do meu corpo? A maioria 
dos homens...
       - Bom Deus, acho que j  o bastante. Fique quieta - Saul ordenou raivosamente enquanto tentava envolver o corpo de Tullah com a toalha.
       Tullah riu.
       - Assim no vai adiantar nada - ela avisou. - Voc precisa enrolar com fora e prender as pontas aqui. - Ela ento tocou, maliciosamente, o vo de pele entre 
seus seios e ento provocou, cheia de atrevimento - O que foi, Saul? No quer me tocar?                                             
       - O que eu quero no momento - Saul disparou, com \ a pacincia desgastada alm do seu limite -  ir para a ; cama.
       - E o que mais? - Tullah sussurrou, dando um passo  frente para se aproximar mais dele. Por alguma razo ela no conseguia tirar os olhos da boca de Saul, 
olhando fixo com curiosidade e fascnio.
       - Tullah - Saul disse, como que avisando.
       Ele sabia que eia no tinha ideia do que estava fazendo; ; que aquele vinho caro e amadurecido que ela havia bebido j era a causa de sua repentina perda de 
inibio e no seus ' sentimentos reais por ele. Mas, meu Deus, ser que ela no fazia a menor ideia do que estava fazendo com ele, do que a viso daqueles seios 
magnficos desnudos estava fazendo com ele e o que ele queria fazer com eles e com ela? Ele teria de ser de pedra para resistir  mensagem tantalizante de inocncia 
e seduo que ela estava transmitindo, a despeito de sentir o que sentia por ela...
       - Tullah - ele gemeu, e houve uma leve cintilao de nervosismo no olhar dela, mas era leve demais, tarde demais, e ele tirou a toalha que ela estava segurando 
e a tomou em seus braos.
       - Saul... - Tullah arfou com entusiasmo, seus olhos se abrindo de prazer e surpresa. - Beije-me - ela pediu impetuosamente. - Eu quero que voc me beije agora! 
- E, para enfatizar o que dizia, ela se inclinou ainda mais, deixando-se tomar em seus braos, abraando-o enquanto pressionava sua boca contra a dele.
       Saul considerava homens que tiravam proveito de mulheres embriagadas algo mais que abominvel, simplesmente inaceitvel; um tipo de homem que ele no era, 
jamais quis ser e no seria ali que passaria a fazer parte da categoria.
       O homem tinha a responsabilidade de proteger a mulher, de salvaguard-la mesmo quando ela mesma... Ele, afinal de contas, tinha suas prprias filhas, meninas 
que um dia poderiam estar na mesma situao vulnervel em que Tullah se encontrava. O que ele acharia de um homem, qualquer que fosse, que ousasse tirar proveito 
de sua inocncia... de sua...
       - Saul - Tullah murmurou provocativamente em sua boca.
       No adiantava, era tarde demais, era impossvel resistir ao convite que ela lhe fazia to naturalmente,  maneira irresistvel que se oferecia a ele. Ser 
que ela no sabia o quanto ele... mas como seria possvel, se...
       Saul fechou os olhos e resistiu  tentao de aproveitar o movimento suave e delicado de sua boca contra a dele enquanto ela tentava seduzi-lo e conseguir 
extrair uma reao dele.                                                                :
       Tullah soltou um pequeno suspiro de decepo. Saul no iria lhe corresponder, no iria beij-la e ela jamais saberia. Ela estava para afastar seus lbios 
dos dele quando Saul inesperadamente pressionou sua boca contra a dela, tomando o controle do beijo, tomando controle dela enquanto virava a mesa com maestria e 
comeava a beij-la carinhosamente. Um leve tremor de sensao percorreu o corpo de Tullah e ento ela tentou se afastar, mas logo viu que no conseguiria faz-lo. 
E, o que era pior, ela nem ao menos queria.
       Por um momento ela tentou resistir, mas ento cedeu vertiginosamente  .perigosa excitao que a fazia tremer da cabea aos ps e correspondeu avidamente 
ao beijo de Saul.
       No se lembrava de jamais ter sido beijada por ningum daquela maneira... ou de beijar algum daquele jeito. Na verdade, mal podia reconhecer-se naquela mulher 
sensual e desinibida que no apenas correspondia, mas incitava e prolongava ativamente as deliciosas sensaes dos beijos lentos e demorados mais e mais ntimos 
e apaixonados.
       Seria mesmo ela quem soltava aqueles gemidinhos erticos de prazer e aprovao que faziam Saul apert-la ainda mais forte e explorar os suaves segredos de 
sua boca ainda mais demoradamente?
       Seu corao batia to forte que parecia a ponto de ser arremessado de seu peito contra a parede. Ela tinha certeza que Saul tambm podia sentir. Como no 
sentir, se a estava abraando to forte, se estava...
       Ele a estava beijando mais e mais lentamente agora, mais profundamente. Hummm... Tullah soltou um suspiro suave e demorado de prazer, abrindo os olhos para 
olhar dentro dos olhos de Saul e ficando sem flego e tonta ao ver a maneira com que ele retribua seu olhar, percebendo a intensidade de sua excitao pela maneira 
como suas pupilas se dilatavam. Sentindo-se confusa, ela estendeu a mo para tocar o rosto dele, aterrorizada tanto pelo modo com que ele estava reagindo a ela quanto 
pela forma com que ela correspondia. 
       Saber que ele estava excitado e vulnervel criou um lao entre eles, uma conscincia compartilhada, ainda que no expressa por palavras, mas do modo inexplicvel 
e irracional com que se correspondiam, com seus desejos e necessidades recprocas. Em seu estado emocional fortemente alterado e com as inibies normais to relaxadas, 
ela no podia deixar de corresponder  atrao.
       Havia um senso revigorante e maravilhoso de libertao e liberdade em expressar suas necessidades fsicas e emocionais de maneira to aberta e fcil, em ser 
capaz de baixar a guarda e reconhecer que o desejo por ele, o qual finalmente se permitia demonstrar, sempre existira, desde que se conheceram. Sempre existiu, apesar 
de ela ter tentado sufoc-lo com todas as suas foras, ter tentado man-t-io subterrneo, escondido, apesar de ter tentado negar sua existncia devido ao medo de 
repetir sua infncia e sua adolescncia, quando amou homens que no s no eram merecedores, como incapazes de corresponder.
       Mas Saul no era assim. Daquela vez seria diferente, daquela vez...
       Ela suspirou de felicidade e se aninhou ainda mais em seus braos, pressionando seu corpo amorosamente contra o dele.
       - Saul - ela sussurrou, sua imaginao inundando seus sentidos com vvidas promessas de sensualidade. - Vamos para a cama... quero que voc me leve para a 
cama...
       O gemido que Saul soltou no foi totalmente causado por saber que ela se encontrava claramente longe de estar sbria. A sensao do corpo dela contra o dele 
e o modo inocentemente sensual com que se mexia em seus braos estavam afastando qualquer sombra de autocontrole e ultrapassando setis limites, ele admitiu melancolicamente 
enquanto lutava para se controlar, mas por fim perdeu o embate e no teve como evitar corresponder a ela.
       E  claro que ela sabia o que estava acontecendo com ele. Ele pde perceber na maneira velada e femininamente triunfante com que ela o fitou, deixando os 
olhos percorrer seu corpo, muito lenta e deliberadamente, at voltar a seu rosto.
       - Saul - ela sussurrou.
       Talvez, se ela j no estivesse seminua, se ele no tivesse cedido  tentao de abra-la e beij-la, talvez ento tudo tivesse sido diferente, mas ele j 
tinha cedido e fez uma ltima e desesperada tentativa de evitar o inevitvel dizendo, rispidamente:
       - Tullah, no posso...
       O olhar zangado, mas muito objetivo, que ela lanou para a parte de baixo do corpo de Saul, mais a acusao "mentiroso", deixou claro que ela no havia compreendido.
       Abraando-a gentilmente, ele tentou explicar.
       - No. Quero dizer que no podemos... no tenho... no posso...
       Os olhos de Tullah se iluminaram.
       - Ah, tudo bem - ela disse a ele, alegremente. - Eu tenho. Esto no banheiro. - Ela fez uma pausa ao ver que ele no podia conter a surpresa em seu olhar.
       Talvez ele estivesse sendo antiquado, mas Tullah nunca lhe dera a impresso de ser uma mulher que costumava praticar sexo casual, muito pelo contrrio. A 
despeito de suas qualificaes e habilidades profissionais, havia nela uma gentileza e uma hesitao que o faziam crer que sua experincia sexual era bastante limitada, 
que tinha tido poucos homens, mas eis que...
       - No havia nenhum no seu banheiro? - ela perguntou, franzindo ligeiramente a testa. - Achei que fosse algo que o hotel providenciasse automaticamente, em 
se tratando da Holanda, e...
       Saul comeou a sorrir.
       - Eu no sei - respondeu. - Talvez tenha. No reparei.
       - Est vendo, ento na verdade podemos sim - ela murmurou enquanto se aproximava para toc-lo. - Hummm... que coisa boa - ela disse a ele com a voz ras-cante, 
e ele cedeu  tentao de acariciar as curvas de um de seus seios.
       - Nem metade do quanto ainda vai ficar - Saul assegurou, com a lngua pesada enquanto a tomava nos braos para gentilmente p-la na cama, enquanto ela se 
segurava passando as mos pela parte de trs de sua cabea e levantava seu rosto em direo ao dele para beij-lo.
       Hummm... Beijar era uma atividade altamente subestimada, um territrio pouqussimo explorado em seu currculo, Tullah concluiu, perplexa, enquanto o envolvia 
ainda mais firmemente com os braos, abraando-o ainda mais forte.
       Ela podia sentir suas mos acariciando seu corpo, tocando sua pele gentilmente, e a sensao era maravilhosa. Ela respirou fundo em um xtase de prazer feminino, 
arqueando as costas voluptuosamente enquanto arrancava, impacientemente, a camisa dele, protestando sob seus beijos.
       - No  justo. Voc pode me tocar, mas eu no posso toc-lo...
       - Voc quer me tocar? - Saul perguntou.
       Tullah olhou sonhadoramente em seus olhos e ento deixou que seu olhar percorresse todo seu corpo, avaliando-o, sentindo a sbita acelerao de excitao 
de mulher que se dava sob a potncia de seus desejos e pensamentos at ento secretos.
       - Sim - ela disse, ousadamente. - Quero sim.
       Por um momento, o sbito e agudo prazer de paixo masculina nos olhos dele a fizeram vacilar e sentir-se um pouco tensa e nervosa. Ento Saul a soltou e se 
afastou um pouquinho. Ele rapidamente abriu e tirou a camisa e a largou antes de convid-la, enrolando as palavras.
       - Vamos l ento, toque-me.
       Ela hesitou. Por alguma razo a proximidade fsica de um homem, um homem de verdade cujo torso era tornado ligeiramente rude pelos plos grossos, sedosos 
e escuros e cuja pele irradiava um leve lustro que nada tinha a ver com nenhum produto de beleza caro, mas sim com a forma com que ele correspondia a ela como homem, 
tudo estava lhe causando tamanho efeito afrodisaco que ela chegou a sentir uma vertigem pela intensidade de seu desejo. Ela se viu incapaz de saber o que queria 
mais. Talvez simplesmente olhar para ele, toc-lo, explorar seu corpo com os dedos ou, sentiu seu corao pular dentro do peito, ceder a uma necessidade pouco familiar 
para ela, o desejo de mulher adulta que sentia avanar, de pr seus lbios contra os dele para respirar seu cheiro, toc-lo, beij-lo, sentir seu gosto, cada respirao, 
e assim sentir tambm sua rea-o masculina ao contato com ela.
       - Se continuar me olhando desse jeito ns vamos praticar o sexo mais seguro que duas pessoas poderiam praticar - Saul a avisou, e acrescentou de maneira bem 
crua. - Ao menos pela primeira vez. Faz muito tempo que no fao isso, Tullah, e meu corpo est reagindo ao seu como se eu fosse um adolescente, e no um homem adulto. 
Eu no posso...
       - Quanto tempo? - ela perguntou, curiosa.
       Ele fez uma pausa antes de respond-la, contraindo os lbios antes de contar, sumariamente,
       - Hillary e eu estamos separados h mais de dois anos e antes... Se voc quer uma resposta sincera, deve fazer uns dois ou trs...
       - Meses - Tullah completou. Saul franziu o cenho.
       - Dois ou trs meses? Tente outra vez. Dois ou trs anos era o que eu ia dizer - completou, categoricamente.
       - E se voc quer a verdade mesmo, a ltima vez foi antes do nascimento de Meg, e mesmo antes...
       Tullah ficou olhando para ele.
       No podia ser verdade, mas Saul no parecia estar mentindo. Talvez a bebedeira do vinho ainda estivesse lhe obscurecendo o pensamento. Ela olhou bem dentro 
de seus olhos e perguntou a ele, zombando.
       - Se eu ajudar com o resto de suas roupas, voc me ajuda com as minhas?
       Era mais do que Saul poderia aguentar. Ela era mais capaz de aguentar do que ele. Uma abordagem direta, mesmo de uma mulher que ele queria tanto quanto Tuliah, 
era algo a que ele poderia resistir, mas se vinha junto com seu senso de humor, seu calor, sua seduo, sem contar o que ele prprio sentia por ela, era mais do 
que ele poderia suportar. Ela o tirava do srio.
       Ele segurou sua mo e comeou a beijar a ponta de cada um dos dedos e depois os chupou lenta e demoradamente, enfiando-os na boca at que Tullah sentisse 
que ia desmaiar ou explodir com o prazer que ele proporcionava.
       Tullah no conseguiria lembrar depois como ou quando eles finalmente se despiram, se foi antes de ele comear passar a ponta da lngua na palma de sua mo 
e depois na parte de dentro do pulso, ou se teria sido depois de ele comear a traar em seus seios perfeitos os mesmos crculos tantalizantes de um prazer ertico 
quase insuportvel, finalmente abocanhando cada mamilo, manipulando-os carinhosamente at que ela gemesse alto de prazer e desejo.
       Tudo o que ela sabia era que, em um determinado ponto, ela estava deliciosamente, maravilhosamente solta para toc-lo e acarici-lo, ele todo, em toda e qualquer 
parte que lhe agradasse, para dar prazer a ele e a si mesma com a explorao atenta da pele de Saul, com sua apreciao desinibida de sua masculinidade e da reao 
de seu corpo ao dela. E quando ela fez biquinho, no querendo deixar que ele a largasse para ir ao banheiro pegar as camisinhas, ele disse a ela, suavemente, que 
havia outros meios pelos quais ele poderia dar prazer a ela, dar prazer a eles dois, mas ela estava envolvida demais com a intensidade emocional e sexual do momento 
para recusar ou alegar que aquela era uma intimidade  qual ela no estava acostumada, que jamais tinha chegado a ser to ntima assim de ningum.
       Certamente era essa a razo por que, quando ele a deitou gentilmente na cama e lentamente abriu suas pernas, ela no fez objeo, observando-o de maneira 
sonhadora enquanto ele a acariciava ternamente com os dedos antes da paixo que sentia finalmente lhe tomar por inteiro e ele abaixar a cabea e pr sua boca nela, 
possuindo-a com uma fome quente e vida que fez seu corao disparar e seu corpo queimar. Foi dominada por uma violenta enxurrada de desejo que a pegou to desprevenida 
que ela chegou a gritar, atordoada pelo que sentia e tentando evitar o clmax to imediato. Mas era tarde demais. A forte espiral que levava ao cume j havia dado 
a partida e agora no tinha mais volta, no havia como parar o que os carinhos ntimos e apaixonados que Saul estava fazendo haviam desencadeado.
       E tambm no tinha como evitar ser varrida por uma inevitvel e lnguida mar de exausto. Ao deitar, em paz, nos braos de Saul, ele sorriu ironicamente 
ao observai' seus olhos fechados e sentir o sono afrouxar seu corpo.
       Seria maldade acord-la, apesar de seu corpo doer de desejo por ela, tanto que... que ficar na cama no seria uma boa ideia, ele disse a si mesmo convictamente. 
A ltima coisa que ele queria era estragar sua recm-comeada relao ao se portar como se fosse o tipo de homem egosta a ponto de exigir a satisfao de seu prprio 
desejo.
       Afastou seu corpo do dela, relutantemente, parando apenas para beij-la rapidamente na ponta do nariz, pegou suas roupas e saiu quietinho.
       
       
       
     Captulo Nove
       
       Tullah acordou de um pulo s com o barulho estridente do despertador. Respirou fundo de dor quando abriu os olhos e percebeu que estava sofrendo de uma de 
suas felizmente raras enxaquecas. Lembrou que a causa era no s o estresse de sua atuao na sala de audincias, mas tambm o excesso de vinho.
        claro que ela no havia trazido nenhum analgsico... lgico, e duvidava que fosse ter tempo de arrumar algum a caminho do aeroporto. Ainda tinha de tomar 
banho e se vestir, mas graas aos cus ningum esperava que ela estivesse toda produzida logo no caf da manh. A ltima pessoa que ela queria ver no momento era 
Saul Crighton, no s por se sentir to indisposta, mas tambm por lembrar to bem que ele se recusou com firmeza a beber mais de uma taa de vinho na noite anterior.
       Ela talvez lembrasse muito vagamente do que aconteceu desde que Saul a colocou no txi, mas ela tinha as memrias mais extraordinrias e embaraosas de vvidos 
sonhos erticos que tivera na noite anterior, e do homem que estava com ela no sonho... com ela! De acordo com o que sonhara, foi ela quem tomou a iniciativa. Mas, 
graas a Deus, ningum, a no ser ela mesma, jamais tomaria conhecimento daquele sonho nem do que ele proporcionou... a intensa sensualidade do desejo que ela havia 
sentido... compartilhado... mostrado... ningum jamais saberia, muito menos Saul.
       Havia uma explicao perfeitamente racional por que ela teve de sonhar com Saul Crighton um sonho to sexualmente explcito, concluiu de maneira afobada e 
talvez, quando sua enxaqueca passasse, ela conseguisse encontrar uma explicao.
       Mas era humilhante ser forada a confrontar o fato de que o segredo que ela acreditou ter escondido to bem, at de si mesma, no final das contas no estava 
to bem escondido quanto ela pensava.
       E claro que era inadequado e ilgico que ela tivesse tamanha conscincia de Saul como homem, mas tudo o que tinha que fazer para reprimir aqueles sentimentos... 
aquelas emoes, era lembrar a si constantemente quem ele realmente era, que ele com certeza no era o amante terno, apaixonado e sensual de seu sonho, mas sim uma 
pardia fraca de tudo o que ela acreditava que um homem deveria ser. Sim, ele tinha a aparncia, o jeito, a figura externa da real masculinidade, mas era apenas 
uma mscara que no queria dizer nada... assim como o sonho da noite anterior tambm no significava nada.
       Ai... Ela recuou ao sair da cama. Sua cabea comeou a doer como se tivesse levado uma pancada. Ela realmente no devia ter bebido tanto vinho.
       - Voc tem certeza que est bem?
       No,  claro que ela no estava bem, longe disso, mas Saul era a ltima pessoa no universo para quem admitiria, Tullah reconheceu ao se virar em direo a 
ele.
       - Sim. Estou tima...  s uma dor de cabea, s isso.
       Eles entraram no avio uns dez minutos mais cedo. O momento da decolagem fez Tullah trincar os dentes de dor, sua cabea parecendo prestes a explodir.
       Se Saul dissesse uma s palavra ou uma s frase com as palavras "ressaca" ou "vinho" ela iria pular sobre ele, Tullah pensou consigo mesma amargamente enquanto 
fechava os olhos e torcia para que a dor pulsante diminusse.
       Saul, como era de se esperar, no estava passando pelo mesmo problema. Sua cabea estava inclinada para ler o jornal que tinha em mos.
       Tullah ouviu os comissrios de bordo se aproximarem com bandejas de comida, mas a mera ideia de comer lhe dava nuseas. Sabia que se sua enxaqueca tomasse 
seu rumo tpico, levaria no mnimo um dia, talvez dois, para que ela voltasse ao seu estado normal.
       Seus ataques de enxaqueca haviam comeado quando seus pais se divorciaram e cresceram durante sua adolescncia, a ponto de acontecerem pelo menos uma vez 
a cada duas ou trs semanas. Quando entrou nos vinte anos, contudo, ficaram menos e menos frequentes e agora j fazia mais de um ano desde a ltima.
       Apesar daquela estar prometendo ser das piores, o que fazia Tullah estremecer no momento no era tanto os fulgurantes raios de luz que queimavam atravs de 
seus olhos fechados, mas sm as vvidas lembranas do sonho da noite passada que lhe queimavam na memria.
       Ela no tinha como evitar. Soltou um pequeno e audvel gemido quando uma determinada sequncia lhe veio  mente. Como poderia sonhar que dizia aquelas coisas... 
fazia aquilo? Soltou outro gemido, refletindo de maneira sentida que era timo que a raa humana no tivesse, em sua maioria, a capacidade de ler a mente dos outros. 
Ela morreria, simplesmente morreria se Saul Crighton jamais chegasse perto de supor o que ela tinha sonhado com ele, sussurrado para ele que queria que ele tirasse 
a roupa, que queria que ele... E o pior de tudo era que seu corpo, por baixo do nvel da enxaqueca, ignorava completamente a rejeio indignada e afetada de sua 
mente ao sonho e insistia em mostrar reaes constrangedoras s cenas im-plausveis que ela parecia ter criado durante o sono, o que queria dizer que... queria dizer 
que uma parte dela realmente deve ter desejado... deve ter gostado...
       - Tente beber um pouco de gua.
       Tullah abriu os olhos e fez uma cara feia, fechando-os rapidamente mais uma vez para bloquear a viso da mo magra e bronzeada de Saul que lhe oferecia um 
copo de gua.
       - Beba - Saul insistiu com a mesma voz firme e autoritria que ela o via usar com os filhos. Por alguns segundos ela se divertiu com a ideia de ter o prazer 
de recusar, mas quando estava quase cedendo, Saul disse incisivamente.
       - Eu avisei ontem  noite que voc ficaria desidratada aps beber aquela quantidade de lcool.
       - Bebi trs ou quatro taas de vinho... quatro no mximo - Tullah alegou. - Sei muito bem o que est pensando e est errado. No estou de ressaca.  uma enxaqueca.
       - J conversamos sobre isso - Saul a relembrou. J? Tullah no lembrava de ter tido tal conversa. Na verdade, sentia-se culpada por no lembrar de muita coisa 
depois de entrar no txi com Saul, o que era extremamente irritante, considerando-se a indesejvel clareza com que continuava se lembrando do sonho. Talvez tivesse 
escolhido a carreira errada, pensou. Aps a noite anterior ela com certeza poderia se candidatar a um emprego como roteirista dos filmes mais picantes de Hollywood.
       - Em breve estaremos aterrissando - Saul avisou.
       Quando Tullah chegou na recepo do hotel pela manh, plida como um fantasma e claramente sem disposio alguma para conversar, ele primeiro achou que fosse 
por ela ter se arrependido da noite anterior. Ele havia passado metade da noite se preparando para ouvir algo do tipo, e a outra metade tentando arrumar um jeito 
de lidar com sua esperada rejeio a ele e ao que ambos compartilharam na noite anterior. O que ele no estava preparado para lidar, pois sequer considerou a possibilidade 
de algo assim ocorrer, era que ela agisse como se simplesmente nada tivesse acontecido. Ele levou um certo tempo para comear a entender o porqu.
       Ela no estava deliberadamente ignorando a intimidade que houve entre eles por se arrepender; ela simplesmente no lembrava, o que no era nada lisonjeiro, 
especialmente levando-se em conta que ele...
       Mas, no momento, o que mais o preocupava, mais que seu ego ferido, era que ela no estava bem mesmo.
       -  uma enxaqueca - ela disse, na defensiva, e ele no tinha qualquer razo para duvidar. At porque, por mais forte que o vinho estivesse, no poderia fazer 
com que ela ficasse doente do jeito que estava agora.
       Quando o avio comeou a descer, Saul deu uma olhada rpida nela. Sua tez estava branca como cera, seu lbio superior sinistramente adornado por gotinhas 
de suor, e tambm havia reparado na maneira como ela reagiu quando acenderam as luzes no avio, quase recuando ao fechar os olhos. Quando o avio estava taxiando 
na pista ela j estava tremendo e transpirando.
       -  uma enxaqueca - ela alegou com um murmrio. - Uma enxaqueca. Eu no estou...
       - Sim. Tudo bem, eu sei - Saul lhe garantiu enquanto discretamente chamava a comissria de bordo para perguntar se eles poderiam descer antes dos demais passageiros.
       Tullah no sabia se tinha alguma relao com o pouso ou no, mas por alguma razo a dor pulsante dentro de sua cabea e os dardos de luz brilhante que vinham 
junto se tornaram ainda mais intensos, a ponto de ela mal conseguir respirar, quanto mais se mexer. Um lado de seu corpo parecia estranhamente pesado e inerte, e 
ficou aterrorizada ao tentar mexer o brao e perceber que por algum motivo ele simplesmente no respondia aos comandos de seu crebro.
       - Sintomas tpicos de enxaqueca - ela pensou ter escutado a comissria dizer a Saul com uma voz compreensiva enquanto era gentilmente ajudada por ambos a 
ficar de p. - Eu sei, eu mesmo sofro de enxaquecas, de vez em quando...
       Tullah tentou dizer que estava bem, que podia administrar a situao, que no havia necessidade de Saul peg-la no colo, carregando-a como se ela fosse um 
beb, mas as palavras simplesmente lhe faltaram.
       Teve uma impresso desconexade movimento e de dor, de calor e de frio, do cheiro reconfortante e familiar de Saul e do odor bem menos agradvel da gasolina 
e da sujeira do avio, ento de alguma maneira eles foram parar dentro de um carro e Saul estava dizendo algo ao motorista.
       Depois foi a corrida, o carro sacolejando, quase insuportavelmente desconfortvel; sua alegria quando o carro parou e a alegria ainda maior ao sentir-se aquecida 
e confortvel, ao ouvir aquelas vozes ansiosas de criana. No final veio a maravilhosa paz e a magnfica escurido de um quarto acolhedor.
       Ela acordou rapidamente por uma vez, sentindo-se grogue e vagamente consciente de algum a ajudando a se despir, dando-lhe algo para beber e um remdio e 
depois acomodando-a de novo na cama, dizendo que voltasse a dormir.
       Podia sentir a medicao comeando a fazer efeito lentamente, to lentamente... os tentculos de dor estavam comeando enfim a soltar sua cabea.
       - O que h de errado com Tullah, papai? - Meg perguntou ao pai, ansiosamente parada na porta aberta do quarto, equilibrando-se em uma s perna.
       Todos receberam severas instrues, pelas ltimas quatro horas, para no fazer qualquer barulho nem ir ao quarto onde Tullah estava. Meg ficou um tanto assustada 
ao ver seu pai carregando Tullah nos braos, mas ele disse aos filhos que ela ficaria bem, que s estava com uma dor de cabea muito forte.
       Meg viu que a doutora Julie foi chamada e ela e o papai tiveram uma longa conversa, at que ela escreveu algo em um papel e entregou a ele, ento papai ps 
ela e os irmos no carro e foram todos  farmcia para comprar alguns remdios para Tullah. Tia Jenny tambm estava na farmcia. Ela disse a papai que Louise estava 
em casa.
       Tinha ficado literalmente apavorado quando Tullah praticamente desmaiou sobre ele quando estavam para sair do avio. S conseguiu pensar quando estavam a 
caminho de casa nas histrias de horror que j tinha lido em revistas e jornais sobre pessoas que vieram a falecer aps contrair formas mais agressivas de meningite, 
por isso a primeira coisa que fez aps chegar em casa com Tullah foi conferir se havia algum tipo de brotoeja em seu corpo. Sua primeira preocupao foi com ela, 
e no com seus filhos, o que reconheceu um tanto envergonhado.
       No. Seu medo essencial era mesmo por ela, por Tullah, pela mulher que tinha conseguido ultrapassar as barreiras de autoproteo que ele havia erguido contra 
seu sexo. A mulher que...
       - Quando ela vai acordar? - Meg perguntou ao pai.
       - No to cedo - respondeu com segurana. Pensou consigo mesmo o que mais poderia acontecer e levantou da cama onde estava sentado, simplesmente observando 
Tullah enquanto ela dormia.
       Como seria possvel para ele se apaixonar to profundamente de maneira to rpida e arrebatadora? Havia jurado a si mesmo que jamais se permitiria se apaixonar 
novamente. Afinal de contas, sua vida j era complicada o suficiente e ele j havia cometido o pecado de casar com a me de seus filhos principalmente por luxria 
e pela crena equivocada de que seu desejo mtuo seria uma base firme o bastante para estruturar seu casamento. Tinha o compromisso de pr os filhos em primeiro 
lugar e de manter suas vidas livres de qualquer trauma alm daqueles pelos quais j haviam passado. Ele no queria amar Tullah... no queria amar ningum.  claro 
que houve uma poca em que ele achou que... teve esperanas... se fosse honesto, teria de admitir que esperou que ele e Olivia... mas aquilo tinha sido to somente 
uma recada sem sentido por paixonite juvenil e ele no tardou a reconhecer que Olivia estava certa em no permitir que ele ressuscitasse o passado.
       Mas o que ele sentia por Tullah era diferente... diferente de qualquer coisa que j havia sentido at ento: na verdade estava pasmo de ver que no considerava 
a possibilidade de dividir sua vida com ningum mais que no fosse Tullah, que viesse a sentir por outra algo semelhante ao que sentia por Tullah.
       Mas o que ela sentia por ele, se  que sentia alguma coisa? Ela o quis na noite anterior... no quis? Ele sabia um pouco da histria de sua vida, Olivia havia 
comentado. Um homem que a magoou muito, um homem que certamente no a merecia, um homem que, felizmente, a deixou escorrer pelos dedos.
       J passava de quatro da tarde e ele precisava ir para o escritrio. Inclinou-se e beijou Tullah gentilmente, sorrindo silenciosamente enquanto ela continuava 
a dormir.
       - No, voc no vai acord-la! - Saul disse mais uma vez para Meg, severamente, enquanto caminhava em sua direo.
       - Onde voc est indo? - Louise perguntou  me. Tinha chegado no dia anterior, e ficou irritada ao descobrir que Saul tinha viajado a negcios e que teria 
de esperar o dia inteiro para v-lo.
       Sabia muito bem que seus pais no aprovavam seu amor por Saul, mas era problema deles. Ela o amava e estava determinada a t-lo.
       - Eu vou dar um pulo at a casa de Saul enquanto ela est no trabalho - Jenny avisou  filha. - Ele quer que eu d uma olhada em Tullah e nas crianas.
       - Tullah. - Louise se enrijeceu toda. Tinha ouvido Olivia falar sobre Tullah, uma velha amiga dela que havia mudado para a regio para trabalhar na Aarlstons 
e que, Louise ficou desconcertada ao saber, tinha viajado com Saul para Haia.
       Folgava em saber que era muito pouco provvel que Saul se interessasse por ela. Seu nico interesse no mo- . mento era pelas crianas, mas Louise estava determinada 
a mudar aquilo.
       - O que ela est fazendo na casa de Saul? - ela perguntou, suspeitando.
       - Parece que ela se sentiu mal na viagem de volta... uma enxaqueca. Saul a levou para casa com ele. - Jenny fez uma pausa quando o telefone comeou a tocar. 
Ela tirou o fone do gancho e imediatamente reconheceu a voz da mulher que era responsvel pela creche particular que Ruth e ela tinham feito para as jovens mes 
solteiras locais e soltou um suspiro, j prevendo que aquele seria um longo telefonema.
       - No diga - Louise sibilou. - Pois pode deixar, no se preocupe com Saul. Eu vou at l ficar com as crianas.
       - Louise - Jenny objetou, mas j era tarde demais. Louise j havia pego as chaves do carro de Jenny e estava abrindo a porta da cozinha.
       Jenny suspirou de exasperao, dividida entre responder  urgncia que podia sentir na voz da mulher que lhe ligara e correr atrs de Louise para impedi-la 
de ir at a casa de Saul, mas acabou dando preferncia ao senso de responsabilidade e compromisso que mantinha com a creche e ficou com o fone colado ao ouvido, 
observando Louise partir com o carro.
       A ideia da creche para mes solteiras tinha sido originalmente de Ruth, devido  sua prpria gravidez secreta quando jovem, quando fora forada a dar sua 
filha para adoo.
       A fortuna que veio a acumular anos mais tarde atravs de sua perspicaz atuao especulativa no mercado de aes tornou possvel a Ruth comprar uma casa que 
viria a transformar em uma hospedaria para perodos curtos, na qual jovens mes solteiras sem ter onde ficar pudessem encontrar abrigo.
       Agora j eram uma instituio de caridade registrada com no s uma, mas quase doze casas, alm, de uma manso enorme que havia sido abandonada, a qual conseguiram 
convencer o conselho local a vender a preos bem reduzidos. A instituio era apadrinhada por um membro da casa real e era sustentada no s por doaes de pessoas 
da cidade e pelos lucros do baile de inverno que promoviam todo ano em Queensmead, alm de outros eventos sociais de menor porte, mas tambm por doaes arrecadadas 
nas ruas e pela generosa ajuda da prpria Ruth.
       Jenny envolveu-se de bom grado, trabalhando junto a Ruth na empreitada, e agora era co-administradora da instituio. Ainda bem que Guy Cooke, seu scio no 
antiqurio, estava disposto a dedicar mais tempo aos negcios, j que ela estava se envolvendo cada vez mais com a administrao da instituio, e ela at j podia 
ver que logo Guy iria querer comprar sua parte na loja.
       De toda forma, enquanto ouvia o que a mulher tinha a dizer ao telefone, caiu-lhe na conscincia a culpa de no ter sua mente totalmente concentrada no problema 
que lhe estava sendo relatado. A ltima coisa que Saul precisava ou queria no momento era Louise batendo  sua porta. Jenny estava cada vez mais preocupada com o 
comportamento da filha.
       Que ela tivesse uma queda por Saul no era exatamente surpreendente, considerando-se que se tratava de um homem extraordinariamente belo e com um leve toque 
de tragdia nas circunstncias de sua vida, alm de maduro na medida certa: a combinao de fatores tinha realmente um apelo muito forte para uma moa jovem e j 
bastante passional, prestes a se tornar mulher, o caso de Louise. O que Jenny de fato no gostava era da obstinada determinao da qual Louise estava sendo capaz. 
Aquilo lhe parecia to distante de suas prprias experincias. Jenny tinha sido uma adolescente tmida e desajeitada que nem em sonhos seria capaz de perseguir um 
homem da maneira que Louise estava perseguindo Saul. Havia momentos em que ficava incomodada de ver como a filha lembrava seu filho mais velho, Max, quando se tratava 
de no medir esforos para conseguir o que queria.
       Parecia que ambos tinham herdado o gene do egosmo que era to marcadamente perceptvel no tio David, irmo gmeo do marido de Jenny, gene este que, graas 
a Deus, parecia no fazer parte de Jon.
       Tullah acordou com a agitao. Ouviu o som de uma criana gritando e o rudo mais abrasivo e exasperado de uma voz feminina mais velha mandando-a parar.
       - Mas voc no pode ir l! Papai disse que ningum pode entrar l!
       Tullah pestanejou quando algum abriu a porta do quarto em que estava e a luz entrou. Felizmente, sua enxaqueca j havia passado, apesar de que ela ainda 
no se sentia completamente normal. Os remdios no tinham ajudado muito, pelo jeito. Aquelas crises sempre a deixavam se sentindo enervada, enfraquecida e com o 
crebro pesado.
       Esforou-se para sentar e reconheceu vagamente a jovem alta e de olhar raivoso que estava parada na porta olhando para ela. Agarrou-se ao edredom ao perceber 
que estava nua; algum havia tirado suas roupas.
       - Papai tirou sua roupa - Meg a informou, j disposta a bater papo. - Ele teve de fazer isso, porque voc ficava dizendo que estava com muito calor.
       Tullah deu um sorriso debilitado para a garotinha.
       - Meg - ela exclamou, virando-se para olhar para a outra pessoa no quarto.
       - Esta  Louise - Meg disse.
       Louise... sim, claro. Bem, dava para Tullah entender bem por que Saul estaria interessado nela. Ela era uma jovem incrivelmente bonita, apesar de no ter 
nada da menina tmida, introvertida e ingnua que Tullah imaginava que fosse.
       - Oi.Eu...
       Mas antes que Tullah pudesse se apresentar direito,  Louise a interrompeu de maneira incisiva.
       - Eu sei exatamente quem voc  e sei o que voc pretende;, mas vou lhe dizer que est perdendo seu tempo. Saul  meu... e vai continuar sendo meu - disse 
a Tullah, em tom de desafio.
       Saul viu o carro de Jenny e ouviu a confuso ao sair de seu escritrio, onde havia ido deixar uns papis junto a outros documentos e coisas do trabalho. Ele 
viu Louise parada ao p da cama, olhando para Tullah com ferocidade, enquanto Tullah se mantinha agarrada ao edredom com Meg aninhada na cama ao seu lado.
       Avaliando rapidamente a situao, Saul reagiu com presteza e ignorou Louise, por quem passou direto, foi para perto de Tullah e ps a sua mo entre as dele. 
Sentou-se ao seu lado, inclinou-se para beij-la na boca, encobrindo a exclamao de pasmo que se formava em seus lbios.
       - Que bom que voc est acordada. Como voc est se sentindo agora, minha querida?
       Sua querida...
       Trs olhares femininos se concentraram em Saul.
       Dava para ver que os olhos de Louise transmitiam irado estupor, enquanto nos de Tullah ele viu apenas estupor, mas nos de Meg... parecia que Tullah havia 
roubado mais de um corao deste lado especfico da famlia Crighton, pelo que percebia.
       - Louise, voc chegou bem na hora de saber das boas novas - ele prosseguiu, inclinando o corpo de maneira estratgica para que Louise no visse a expresso 
de Tullah.
       - Que boas novas? - ela perguntou com um tom nefasto na voz.
       - Tullah e eu... Tullah e eu estamos apaixonados - ele disse a ela, com toda calma.
       Ouviu Tullah ofegar de susto atrs de si. Ha sua frente, o rosto de Louise passava de branco a vermelho e branco de novo.
       - Voc no pode am-la... no  possvel - ela disse a Saul, com raiva. - Eu amo voc! Eu quero voc, e no  ela quem vai me deter! - E ento deu meia-volta, 
desceu as escadas correndo e saiu da casa.
       Tullah se encolheu ao ouvir o som de Louise batendo a porta da frente.
       - Por que Louise est com tanta raiva? - Meg perguntou com uma vozinha trmula.
       Saul levantou para ir atrs dela, mas antes de descer disse a Tullah:
       - Ela no est em condies de dirigir. Tenho de lev-la em casa. No pense em ir ao trabalho to cedo. - Ele sorriu para Meg, que o observava com um pouco 
de ansiedade. - Voc toma conta de Tullah para mim at eu voltar, no  Maggie? E no deixe que ela se levante.
       No deixar que ela se levantasse. Mas como ela poderia se levantar, Tullah espumou aps ele sair, como, se no fazia ideia de onde estavam suas roupas... 
e o que ele quis dizer ao falar para Louise que eles estavam apaixonados?
       Como ele podia ser to cruel com ela se estava to claro o que ela sentia por ele?
       Ela ainda estava espumando quando ele voltou meia hora depois, dizendo delicadamente a Meg que descesse, pois ele queria conversar com Tullah a ss.
       Ele queria falar com ela!
       - Voc se importa de me dizer o que tudo isto significa ou vou ter de adivinhar?
       - Sim. Eu sei que lhe devo uma explicao. O que acontece  que... bem, a coisa toda  um tanto constrangedora, na verdade. Veja voc, a Louise acredita que... 
ela pensa que...
       - Ela est apaixonada por voc - Tullah completou incisivamente.
       - Ela est apaixonada pela ideia de estar apaixonada por mim - Saul a corrigiu suavemente. -  apenas uma fase que ela est vivendo e eu...
       - E voc o qu? Voc est cansado de se regozijar com a admirao inocente da menina, de brincar com suas emoes, e ento decidiu usar a mim para se livrar 
dela? Bem, para o seu governo...
       Ela parou para respirar e depois franziu a testa ao ver a expresso de Saul. Ele a interrompeu sumariamente.
        Voc realmente acha que... que eu encorajaria deli-beradamente uma garota da idade dela a pensar... acha que meu ego seria do tipo que... que eu sou to 
vaidoso e fraco que preciso desse tipo de coisa vindo de uma adolescente...? - Saul parou de falar e balanou a cabea. - Mas  isso que voc realmente acha?
       - Voc poderia me dar uma boa razo para eu pensar diferente? - Tullah perguntou, mas por alguma razo sua voz soou antes fraca e defensiva que acusadora.
       - Pode perguntar a quem quiser - Saul a informou tranquilamente. - Sem contar que ela  uma parenta minha, jovem, vulnervel e... Meu Deus, ela tem idade 
para ser minha filha! - ele respondeu de maneira enftica enquanto caminhava de l para c. - Voc acredita mesmo que...
       - No importa o que eu acredito - Tullah o interrompeu.
       A reao dele a havia chocado. Ela no esperava que ele negasse de maneira to veemente ou intensa. Sua revolta e suas negativas pareciam to genunas, mas 
 claro que no poderiam ser... poderiam?
       - Sua relao com Louise no  da minha conta - ela acrescentou enfaticamente, tentando se agarrar  segurana de saber que no importava o quanto Saul pudesse 
parecer atraente, era s aparncia mesmo.
       Mas ela deveria ter tentado conter a si mesma e no pde deixar de reconhecer que cair das alturas por acidente era uma coisa, mas se jogar do alto de uma 
montanha era outra completamente diferente.
       - Eu no tenho relao alguma com Louise. Ao menos no do tipo que voc est tentando sugerir - Saul respondeu severamente.
       - Bem, voc com certeza me enganou direitinho - Tullah devolveu. - Assim como tentou enganar Louise sobre voc e mim... Voc tem de dizer a verdade a ela. 
Eu no quero...
       - Eu vou dizer a verdade a ela - Saul interrompeu - mas...
       - Mas o qu? - Tullah perguntou, desconfiada.
       - Mas no agora. - Tullah ficou olhando para ele boquiaberta, e ele acrescentou. - Voc viu por si mesma, voc prpria reconheceu que ela realmente est com 
uma paixonite das grandes por mim. E est em uma idade vulnervel. Quanto mais tento falar com ela, ter tato com a situao, mais ela se convence de que no final... 
- Ele fez uma paifsa e balanou a cabea. - A melhor maneira, a mais delicada, de convenc-la que est errada, de que agora  hora de ela seguir com sua vida, se 
concentrar em seus estudos e desenvolver uma relao real com algum que corresponda a seus sentimentos, seria convenc-la de que existe outra pessoa em minha vida. 
Voc no concorda?
       Tullah olhou para ele, apertando os olhos. O que ele estava dizendo fazia sentido e, pelo que tinha visto de Louise, tinha de reconhecer que ela estava longe 
de ser a menina tmida e vacilante que tinha fantasiado. Na verdade, era , | bem capaz de se agarrar obstinadamente  sua determinao de fazer Saul corresponder 
sexualmente a ela e era bem provvel tambm que a nica coisa que talvez a fizesse desistir seria alguma evidncia concreta de Saul estar com outra mulher.
       - Outra mulher - ela concordou cuidadosa e intencionalmente. - Mas no eu.
       - Mas voc  a escolha perfeita, a escolha bvia - Saul insistiu. - Ela j sabe de sua existncia, j a viu na minha casa... - Parou e acrescentou suavemente: 
- Na minha cama.
       O rosto de Tullah corou.
       - Esta no  a sua cama!
       Mas Saul a ignorou e continuou.
       - Pelo que sei, Meg j disse a ela que eu a despi e a trouxe para a cama. - Saul ignorou a expresso de contrariedade de Tullah. - Alm disso, ao que me parece, 
ela j havia tirado suas concluses sobre o tipo de relacionamento que mantemos antes mesmo de vir aqui tentar confront-la.
       - No temos um relacionamento - Tullah alegou.
       - Poderamos ter - Saul tentou persuadi-la, acrescentando com indiferena: - Voc estava to preocupada com o bem-estar moral de Louise, com o perigo que 
representa para ela ficar com ideia fixa em mim... Era de esperar que voc aproveitaria a chance de tentar proteg-la.
       Tullah abriu e fechou a boca. Ele estava certo, claro, mas...
       - E eu pensava que voc... - e parou.
       - Voc pensava o qu? Que eu estava me aproveitando da vulnerabilidade dela? Nem sempre  o mais velho quem provoca, sabia, Tullah? Sei que h muitos casos 
de homens que deliberadamente procuram satisfazer seus prprios egos da maneira mais egosta, o que , na minha opinio, absolutamente imperdovel, mas h excees 
tambm, h casos em que... - Saul fez uma pausa. - Ele a magoou muito, no foi?
       - O qu? - Tullah enrijeceu defensivamente antes de perguntar, perplexa - Como... como voc soube... quem foi que contou...?
       - Olivia mencionou por alto sua histria - Saul disse gentilmente. - Mas no seria difcil supor que voc devia ter alguma histria muito sofrida em seu passado. 
O que aconteceu?
       Tullah tentou resistir ao som suave da voz dele, mas no conseguia.
       - Ele era um amigo da famlia... do meu pai... e aps o divrcio de meus pais... - Ela abaixou a cabea e mordeu o lbio. - Ele parecia to bom, to carinhoso... 
Ele era algum que eu achava ser um amigo no comeo, mas ento foi se tornando mais prximo. Ele dizia que me amava... que estava esperando que eu crescesse. Disse 
que ficaramos juntos para sempre, que...
       Para sua humilhao, ela sentiu que suas emoes ameaavam subjug-la. Que diabos ela estava fazendo, deixando Saul, logo Saul, v-la em um estado to vulnervel, 
to... to... Tullah jamais havia dito a ningum com maiores detalhes como tinha sido tola... como... como tinha sido estpida. E contar ali para Saul...
       - Voc ainda o ama?
       A pergunta de Saul a deixou aturdida. Ela levantou a cabea e olhou para ele.
       - Am-lo? No,  claro que no! Acho que nunca o amei de verdade! S estava apaixonada pela ideia de estar apaixonada. S queria sentir que era amada... desejada...
       - Voc precisava de ajuda, compaixo, compreenso e, acima de tudo, de algum que tivesse sabedoria o bastante para entender pelo que estava passando e porqu. 
- Saul disse a ela com ternura. - Que nem Louise, agora. Seus olhos se encontraram.
       - Ns no podemos fingir que... que estamos envolvidos - ela objetou, mas sabia que sua voz estava perdendo a convico. - Voc est realmente falando srio? 
- ela lhe perguntou quando ele continuou simplesmente a olhar para ela. - Voc realmente acha que Louise vai se convencer s por que viu... porque...
       - Sim, eu estou falando srio - Saul respondeu - e, como deu certo para Luke; alis, deu certo at demais... Homem de sorte - ele terminou, de um jeito curioso.
       - O que foi que deu certo com Luke? - ela perguntou a ele, confusa.
       Mas ele limitou-se a balanar a cabea e sorrir para ela.
       - Confie em mim, Tullah, tudo ser para melhor, eu prometo.
       E ento, antes que Tullah pudesse det-lo, ele se inclinou e a tomou nos braos, beijando-a de maneira firme na boca. Um beijo perturbadoramente familiar, 
bem como a textura clida e firme de sua boca. To familiar, na verdade, que ela devia mesmo j t-lo beijado antes de verdade e no s em sonho.
       Tullah se afastou dele e perguntou, abalada.
       - Mas para que isto? Eu...
       - Isto - Saul informou a ela -  para selar nosso acordo, mas isto...
       Com os olhos arregalados de estupor, Tullah viu que Saul envolveu seu rosto com as mos, olhando bem no fundo de seus olhos, quase que a hipnotizando, depois 
observou seus lbios entreabertos sem pressa e ento...
       Tarde demais, Tullah lutou para se livrar, para impedi-lo de fazer aquilo, mas a boca de Saul j estava tocando e acariciando a dela e seu corao ricocheteava 
no peito como se fosse feito de borracha.
       Como era possvel que ela sonhasse de maneira to precisa com o beijo de Saul? Aquela sensualidade to intensa simplesmente no poderia existir de verdade, 
s poderia ser produto de sua prpria imaginao, de seus sonhos causados pela febre, no poderia partir dele... No, isso nunca. No, aquele desejo no poderia 
ser por Saul. Ele foi s um alvo conveniente, s isso.
       E era por causa daquele sonho miservel que, em vez de estar lutando para afast-lo, ela estava lutando consigo mesma para no o abraar, para no deitar 
a cabea no travesseiro e pedir a ele que fizesse mais, muito mais que apenas beij-la.
       Ela queria que ele... queria que ele... com um pequeno sobressalto ela percebeu que, das duas uma, ou tinha falado seu desejo em voz alta, ou Saul tinha lido 
sua mente, pois de repente a presso de seu beijo se aprofundou e ela sentiu as mos dele acariciando seu corpo nu por debaixo das cobertas, ciciando sensualmente 
sobre sua pele antes de finalmente pegar seus seios e manipular seus mamilos j eretos com as pontas dos dedos enquanto ela gemia'de prazer incontrolvel com os 
lbios junto aos dele.
       Ela o desejava tanto. Tanto!
       Como se estivesse sentindo sua hesitao e ambivalncia, seus carinhos hipnticos lentamente cessaram. Tullah podia sentir que ele a observava... esperava.
       Esperava pelo qu? Por permisso para atorment-a ainda mais?
       Sentiu que ele foi tirando as mos do seu corpo  medida que seus msculos foram se enrijecendo, deixando-a nervosa, doendo... querendo...
       - E isto ento foi para qu? - Tullah balbuciou quando Saul finalmente encerrou a prazerosa explorao de sua boca. Como ela conseguiu resistir queles tentadores 
convites paia retribuir ela realmente no sabia e, em uma tentativa de retomar algum tipo de controle sobre uma situao a qual, para dizer a verdade, ficava cada 
vez mais grave e fora de controle, ela se esforou para manter uma distncia segura entre ambos e encar-lo como quem no gostara do acontecido, algo ainda mais 
difcil por seu cabelo estar, sem dvida, bagunado como uma nuvem de cachos e tambm por ela ter de se enrolar  roupa de cama para cobrir-se.
       - Isto foi para mim mesmo - Saul admitiu de maneira ultrajante, deixando-a sem munio para mais ataques.
       Tudo o que ela conseguiu foi dizer, com a voz vacilante:
       - E por quanto tempo esta nossa suposta relao precisa durar? Porque eu...
       - No por muito tempo. Louise vai voltar para a universidade no final de setembro - ele disse: - Ento eu devo...
       - Setembro? - Tullah quase engasgou. - Mas so meses! Eu... ns no podemos... eu no posso...
       - Pense nisto como um nobre sacrifcio que voc est fazendo em benefcio de uma representante do mesmo sexo - Saul troou. - Deve ajudar o tempo a passar 
mais rpido.
       - Louise jamais aceitar - Tullah objetou. - Ns no parecemos...
       - Amantes - Saul completou para ela. - Ento s precisamos dar um jeito de ser convincentes, no? No se preocupe - ele a aconselhou.
       - No vai dar certo - Tullah objetou, fazendo que no com a cabea, mas Saul apenas riu.
       - Faremos dar certo - ele disse. - Espere e ver.
       
       
     Captulo Dez
       
       - Bem, tenho que confessar que voc  mesmo surpreendente - Olivia disse a Tullah. - Voc e Saul... E eu aqui, pensando que voc ia se interessar por James, 
quando o tempo todo voc... eu achei que voc era totalmente contra o Saul. Voc disse que...
       - Eu sei, eu sei - Tullah concordou, desculpando-se.
       Ela sabia que aquela conversa seria especialmente difcil. Andava apavorada de ter que encarar Olivia e as perguntas que ela faria e mencionou a Saul, que 
simplesmente franziu o cenho por alguns instantes e ento se ofereceu para explicar tudo em seu lugar.
       - Acovardar-me atrs de voc como se eu fosse uma frgil herona vitoriana? - Tullah perguntou, contundente. - De jeito nenhum! No quero e nem preciso de 
voc para me esconder ou proteger, Saul! Estou simplesmente mostrando os problemas que... que esta situao que voc criou vai causar. Olivia  minha amiga. Ela 
vai ficar pensando por que diabos eu no disse nada para ela e tambm...
       - E tambm o qu? - Saul a encorajou.
       Estavam na cozinha dele durante a conversa. De alguma maneira ele havia conseguido persuadi-la que no deveria voltal para casa, apesar de sua enxaqueca j 
haver passado, antes de terem discutido os detalhes de sua atua-o como casal. Uma coisa levou a outra e, antes de ela saber onde estava, se pegou ajudando a preparar 
o jantar e a botar as crianas para dormir, o que inclua a leitura de alguma histria.  claro que Saul insistiu ento que ela no poderia ir embora antes de beber 
algo. e no final, como j era muito tarde, ela concordou, relutantemente, que deveria passar a noite l, principalmente porque daria mais verdade e seriedade ao 
tal "plano".
       Foi quando estavam tomando uma xcara de chocolate quente antes de dormir que ela tocou no assunto da reao de sua famlia s " novidades", mais especificamente 
a de Olivia.
       - Bem, voc teve... teve uma relao especial com ela
       - ela sentiu-se compelida a observar - e ela deve pensar, sentir,..
       - Ns somos primos e tambm bons amigos, amigos ntimos - Saul concordou, comeando a franzir o cenho.
       - Mas como devemos dizer que nos apaixonamos intensa e profundamente durante nossa viagem a Haia, no vejo como poderia ter falado com Olivia sobre nossa 
relao antes de ela ter acontecido, e na verdade...
       - No foi isso que eu quis dizer - Tullah o interrompeu, sacudindo a cabea com irritao.
       Ser que ele tinha de ser to obtuso, ou simplesmente pensava que ela no sabia o que j houvera entre ele e Olivia?
       - Voc e Olivia j foram mais que... mais que simplesmente primos, ou mesmo bons amigos - ela o lembrou de maneira bem objetiva - e ela pode pensar...
       - Agora espere um pouco - Saul a interrompeu, de cara feia. - Houve uma poca em que eu achei, por pura tolice minha, que tinha uma queda por Olivia, quando 
ramos ambos jovens demais! A coisa poderia ter ido adiante e se transformado em algo mais srio, mas o que houve foi... - Ele fez uma pausa, com um vinco pronunciando-se 
em sua testa, e perguntou: - Voc j conversou sobre isso com Olivia?
       - No... no em maiores detalhes - Tullah reconheceu. - Afinal de contas, no  mesmo da minha conta e...
       - Ento Olivia no lhe disse nada sobre...
       - Olivia no disse coisa alguma - Tullah o interrompeu. - Se voc quer saber, duvido que fosse desconfiar de que algo pudesse ter acontecido no passado entre 
voc e Olivia se no fosse por uma conversa que ouvi de duas convidadas no casamento dela com Caspar, comentando sobre vocs dois. E depois Max confirmou tudo.
       - Falando sobre ns...? O que elas estavam dizendo? - Saul perguntou, colocando sua xcara na mesa e se pondo de p em frente a Tullah, demonstrando que no 
permitiria que ela fugisse da pergunta. A maneira com que a encarou, encostado na mesa e com os braos cruzados, fez com que ele parecesse nem to ameaador assim, 
mas estava claro que ele realmente estava disposto a extrair cada palavra dela, nem que levasse a noite inteira.
       - Elas diziam... - Tullah respirou fundo e forou-se a olh-lo nos olhos. - Diziam que no era de surpreender que seu casamento tivesse acabado, j que voc 
havia trado sua esposa com Olivia, quase fazendo ela e Caspar romperem tambm. Tambm disseram algo sobre Louise ter aparentemente substitudo Olivia em suas preferncias... 
afetivas.
       - O qu? - Saul rangeu os dentes. - Quem eram? Descreva-as para mim!
       - Eu no sei - Tullah respondeu. - Eram s duas mulheres. Duvido que consiga reconhec-las se as encontrar de novo - respondeu, sinceramente.
       - Mas voc lembrou do que elas disseram e acreditou no que ouviu. Voc na realidade pensou que... - Ele se virou e apoiou as mos na mesa, posicionando-se 
de costas para ela. - Olivia e eu sempre fomos prximos e realmente houve uma poca em que pensei... Hillary, minha ex-esposa, foi quem quebrou nossos votos matrimoniais, 
no eu, e foi ela que tambm tentou se colocar entre Caspar e Olivia, mas felizmente Caspar... E quanto a Louise...  ela era praticamente uma criana quando Olivia 
e Caspar se casaram. Uma criana de dezesseis anos de idade... Max tem seus prprios interesses,  claro. Seu casamento I est longe de ser estvel, e mesmo que 
fosse, ele  o tipo  de pessoa que gosta de procurar problemas. - Ele espaou as palavras lentamente e com bastante cuidado enquanto se virava para confront-la. 
- Eu era um homem de trinta e cinco anos de idade, caminhando para trinta e  seis. Voc faz alguma ideia do que eu seria se eu tivesse... |
       Tullah teve de morder o lbio inferior com fora para tentar conter a tremedeira que denunciava seus sentimentos.
       - Eu tinha quinze anos quando meus pais se divorciaram - ela contou, com a voz vacilante. - Meu... John tinha quase quarenta anos, mas isso no o deteve.
       Ela parou e fechou seus olhos para evitar as lgrimas que j sentia que ameaavam rolar e, para seu estupor, viu-se caindo nos braos de Saul. Ele a abraou 
forte, passando a mo em suas costas do mesmo modo que um adulto faria para consolar uma criana. Tullah afundou seu rosto em prantos no ombro firme e confortvel 
de Saul, que tentava controlar os soluos dela.
       - Desculpe, desculpe... - ela disse, entre soluos. - Eu...
       - Eu tambm - ela o ouviu murmurar. - Lamento muito no poder pr minhas mos nele, seja quem for, onde quer que esteja, e mostrar o que acho de um homem 
que faz o que ele fez a uma criana inocente como voc era. Meu Deus, ele devia ser...
       A calorosa e protetora proximidade de seu corpo, o modo com que ele a estava abraando era to reconfortante e tranquilizador que foi um choque para ela descobrir 
que, mesclado  sua reao natural quelas coisas, havia um trao agudo e inesperado de desejo fsico, uma necessidade de que ele a abraasse, no apenas do modo 
protetor com que abraaria uma criana, mas pelo prazer da atrao de um homem por uma mulher. Instintivamente, ela se aproximou ainda mais, querendo, buscando um 
sinal de que ele a queria tanto como mulher quanto ela o queria como homem, querendo provar subconscientemente sua feminilidade e testar a masculinidade dele e, 
quando o corpo de Saul se enrijeceu ao contato com o dela, a emoo intensa do choque fez sua pele arrepiar. E no era por raiva nem por medo.
       Enquanto sua mente a avisava que ela estava fazendo um jogo perigoso, suas emoes a instilavam a corresponder  mensagem silenciosa da linguagem de seu corpo 
de maneira igualmente eloquente.
       Era uma tamanha mistura de emoes e sensaes poderosas de uma s vez que ela se sentiu simultaneamente protegida, segura e desejada. Inebriante demais para 
ela, reconheceu, percebendo o perigo no qual estava se metendo. Afastou-se dele, relutantemente. Por um momento, pensou que ele fosse reclamar, pux-la para perto 
de si> mas ele permitiu que ela mantivesse certa distncia.
       - A culpa tambm foi minha - Tullah disse, com a voz contida. - Eu sabia... Eu queria...
       - Voc queria algum para ocupar o lugar do seu pai - Saul a interrompeu, incisivo. - Voc queria algum que a confortasse e lhe desse segurana, algum que 
a amasse. Voc queria o seu pai, Tullah, e o que voc teve foi... E voc ainda achou que eu... que Louise... - Tullah comeou a tremer ao ouvir o tom de raiva na 
voz dela, mas para sua surpresa, ao invs de transformar a raiva em palavras, ele simplesmente disse, calmo: - Bem, pelas circunstncias eu suponho que no posso 
culp-la. Mas espero que voc saiba que eu jamais iria, jamais poderia...
       - Sim. Sim, eu sei - Tullah concordou, engolindo em seco e acrescentando em seguida, exaurida: - Afinal de contas,  por isto que voc est passando por todo 
este problema, no ? Fingindo que voc e eu...
       Eles no conseguiram terminar a conversa, pois Jemima apareceu de repente, dizendo que havia descido porque no conseguia dormir.
       - Voc e Saul - Olivia repetiu, e ficou pensando. - Eu jamais poderia sequer imaginar.
       - Eu sei... foi algo bastante chocante para mim, tambm - Tullah disse, sendo bem honesta.
       - Hummm... bem, Louise no est muito satisfeita - Olivia avisou. - Jenny estava me dizendo que Louise anda falando que voc forou a barra para entrar na 
vida e na cama de Saul, e que...
       - Ela disse o qu? Ao contrrio, ela no poderia estar mais errada - Tullah informou a Olivia, resolutamente.
       - Bem, seja como for, Jenny est bastante feliz - Olivia prosseguiu. - Ela espera que agora a filha entenda que Saul est fora de alcance e finalmente volte 
a si, superando essa paixonite.
       - Esperamos todos! - Tullah murmurou piedosamente, entre dentes.
       -  uma pena que voc no possa anunciar seu noivado no baile de mscaras - Olivia continuou, - Seria um local maravilhoso e o vestido que voc vai usar lhe 
cai to bem. Alis, voc j mostrou o vestido a Saul? Eu ainda no mostrei o meu a Caspar. Quero fazer uma surpresa.
       - Que noivado? - Tullah perguntou, nervosa. - Ns no...
       - No... eu sei. Saul disse que vocs dois concluram que  melhor esperar Hugh e Ann voltarem para anunciar oficialmente que esto juntos e disse tambm 
que voc quis manter tudo bem discreto at que as crianas se acostumem  ideia de ter voc por perto. Agora, veja voc, eu acho que as crianas esto alguns passos 
 frente de vocs, pois Meg me disse outro dia desses que vai ser a dama de honra quando Tullah e papai" se casarem" e que voc vai ser a mezinha dela.
       - O qu? - Tullah se assustou. - Ns no... eu no...
       Aquilo era algo sobre o que ela estava bem determinada. Ela tinha deixado claro para Saul que de jeito nenhum iria deixar que as crianas fossem atingidas 
pelo que eles estavam fazendo.
       Para sua surpresa, a reao de Saul fora tom-la nos braos, dizendo com uma voz carregada de emoo.
       - Tullah, Tullah, eu poderia am-la s por isso. As crianas no sero atingidas - ele garantiu. - Pode estar certa.
       Foi s mais tarde que ela entendeu exatamente o que ele havia dito. O que ele havia dito, sim, mas dificilmente o que ele quis dizer. Ela devia ter em mente, 
forou-se a pensar, que ele havia usado a palavra "poderia" querendo dizer que seria possvel que ele a amasse. Mas era bem evidente que no era o caso, o que no 
era problema, j que ela com certeza no o amava, no poderia am-lo e no o amaria. Como poderia am-lo?
       - Ainda bem que voc e Saul tm bons empregos - Olivia disse, rindo, aparentemente ignorando o estado de choque em que Tullah se encontrava. - Vai ser uma 
famlia e tanto para sustentar. Meia dzia, no mnimo, eu diria, e...
       - O qu? - Tullah grunhiu em protesto. - Olivia... ns no...
       - Tudo bem, tudo bem - Olivia a tranquilizou. - Eu entendo. Mas voc foi feita para ser me, Tullah. As crianas j a adoram e posso apostar que Saul mal 
pode esperar para v-la com um beb... com o filho dele em seus braos. Ele  esse tipo de homem. Adora crianas, sempre adorou.
       - Ele... ele adora? - Tullah exclamou fragilmente. A imagem que Olivia acabara de descrever, de Tullah deitada na cama segurando seu bebe, o beb deles, enquanto 
Saul e as outras trs crianas a observavam, embevecidos, a deixou por demais confusa para que pudesse revelar a Olivia o verdadeiro propsito por detrs de sua 
"relao" com Saul.
       Afinal de contas, no haveria mal nenhum se Olivia soubesse a verdade, mas parecia que, longe de imaginai" que a sbita descoberta do " amor" que sentiam 
um pelo outro fosse uma encenao, Olivia estava se deleitando com o rumo que as coisas tomavam. Ao ouvi-la, Tulah reconheceu que, por mais tolo que fosse, ela 
simplesmente no conseguiria resistir a se permitir o perigoso prazer de acompanhar o entusiasmo de Olivia, de fingir para si mesma, e para Olivia, que ela e Saul 
tinham um futuro em comum.
        claro que ela iria esclarecer tudo a Olivia to logo tivesse uma boa oportunidade, pensou com convico.
       Em nome dos cus, o que diabos estava acontecendo com ela? Ela no estava... no foi.., no teve... ela era uma mulher emancipada e no...
       - Ns podemos sempre usar sua consultoria no nosso escritrio, se voc sentir vontade de voltar ao trabalho --Olivia continuou. - Na verdade, estamos ficando 
to sobrecarregados de trabalho que j pedi a Bobbie que aceitasse trabalhar em meio expediente. Estamos tendo at de publicar anncios para um bom advogado de tribunal.
       - Olivia - Tullah sentiu-se impelida a dizer  amiga. - Saul e eu nem mesmo... Ns mal... Ns nem mesmo falamos ainda sobre... sobre o futuro, ou sobre formar 
uma famlia - ela finalmente conseguiu dizer, com sinceridade.
       - No  conversando que se faz uma famlia, nem filhos - Olivia disse, maldosamente. - Escreva o que lhe digo - acrescentou, sabiamente. - Daqui a um ano 
voc e Saul vo...
       - Daqui a um ano Tullah e Saul vo o qu? - Caspar perguntou, aparecendo em boa hora aps fazer uma pausa em seu estudos, interrompendo uma conversa que, 
para Tullah, estava ficando cada vez mais capciosa.
       - Deixa para l - Olivia disse ao marido. - E no se esquea que voc e Saul e Jon tero de experimentar suas fantasias amanh. - Quando ele resmungou, ela 
o relembrou: - O baile  neste fim de semana, Cas...
       - Eu sei, eu sei - ele concordou. - Como poderia deixar de saber se voc no tem falado de outra coisa nas ltimas semanas, sobre isso e sobre Tullah e Saul?
       Tullah usou a abenoada desculpa de ter de fazer umas compras para escapulir antes que Oivia fizesse ainda mais perguntas.
       Ela e Saul casados, com uma famlia, filhos... um beb... bebs deles mesmos. Ah, mas  claro que era absolutamente impossvel e Olivia seria a primeira a 
concordar se soubesse o que estava se passando de verdade. Sim, era completamente impossvel. Totalmente e completa-mente e era melhor que ela se lembrasse sempre 
disso, pois do contrrio...
       Do contrrio, se ela fosse tola o bastante para se deixar levar por aquela encenao ridcula que Saul havia armado de eles formarem um casal... Mas  claro 
que ela no seria to tola, no ?
       Agradecia pelo baile de mscaras estar se aproximando. Faltavam apenas alguns dias, o que pelo menos desviaria a ateno das pessoas sobre o suposto romance 
entre ela e Saul.
       A impresso geral que suas colegas de trabalho lhe transmitiram foi, no mnimo, de uma inveja saudvel.
       - Sua sortuda, ele  lindo, um verdadeiro gal e muito, muito legal - uma delas disse, dando voz  sua inveja.
       Tullah riu e concordou e ento percebeu, cheia de dedos, que estava sendo fcil demais fingir que estava apaixonada por Saul.
       Fcil demais?
       - Eu no vou deixar ela tirar Saul de mim - Louise disse passionalmente enquanto caminhava de l para c no quarto que dividia com sua irm gmea, tambm 
de frias da faculdade.
       - Ela j tirou - Katie observou, pragmaticamente. - Voc s o quer porque no pode t-lo. A propsito, j terminou aquele trabalho da faculdade? - ela perguntou. 
- Voc sabe que o professor Sifnmonds disse que...
       Louise fez uma cara feia e imitou a irm.
       - Professor Simmonds? Ele  um chato. E o que ele sabe?
       - Sabe o bastante para reprov-la se voc perder mais uma de suas aulas e no apresentar seus trabalhos - Katie avisou a irm. - Ele est de olho na gente, 
Lou. Ele sabe que eu fiquei no seu lugar em algumas das aulas. Ele at me chamou de Katherine na semana passada e me disse que quer v~la e que voc deve aparecer 
com todos os trabalhos que deve.
       
       Louise fez um careta ainda maior.
       - Velho intrometido e bisbilhoteiro.
       - Ele no  velho - Katie objetou. - Ele  um dos professores mais jovens que j deram aula por l e tambm no  bisbilhoteiro. Supe-se que voc seja uma 
de suas alunas e, se voc continuar perdendo as aulas dele...
       - Voc concordou em se fazer passar por mim.
       - No concordei no. Voc disse que eu tinha que fazer. Eu no tenho tempo, Lou. Tenho meus prprios trabalhos de faculdade para fazer. Voc sabe como a mame 
e papai vo se aborrecer se voc for expulsa. Vo achar que voc tambm puxou o tio David, que nem Max.
       Louise fez cara de quem no gostou da referncia.
       - Bem, no  o caso. No sou nem um pouquinho parecida com tio*David.
       - E, sim - Katie a contradisse. - Quando voc pe uma ideia na cabea,  como se tivessem lhe vendado os olhos. Voc no pode forar algum a am-la e, se 
pudesse, deveria fazer com que o professor Simmonds a ame. Voc precisa muito mais do amor dele do que do de Saul... tio Saul -- ela enfatizou. - Voc realmente 
precisa arregaar as mangas, Lou - ela aconselhou com seriedade.
       - Ah, pelo amor de Deus, no comece de novo. E Saul no  tio - Louise disse, irritada. - Tudo bem, eu vou fazer o trabalho da faculdade. Satisfeita?
       Mas no era no trabalho que ela estava pensando meia hora depois que Katie saiu. Tinha de haver alguma maneira de fazer Saul enxergar como aquela Tullah era 
errada para ee, e que era ela quem servia para ele de verdade. Ela descobriria uma maneira. Ah, descobriria mesmo.
       
       
     Captulo Onze
       
       Um tanto nervosa, Tullah ajeitou o pesado brocado de seu traje alugado. Os tons de carmesim e ouro da roupa combinavam  perfeio com a cor de sua pele, 
e a mscara que acompanhava conferiam um tom misterioso s suas feies semi-escondidas.
       Saul sugeriu apanhar Tullah para ir ao baile de mscaras e estava a caminho.
       - As meninas querem ver voc usando sua fantasia - ele explicou. - Principalmente Jem,
       As crianas iriam todas passar a noite em Queensmead. Havia espao mais que suficiente l, Olivia disse quando a gmea de Louise, Katie, se ofereceu para 
tomar conta delas.
       - Voc vai gostar dela - Olivia disse a Tullah. - Ela no  infantil como Louise. Na verdade, apesar de fisicamente serem exatamente a mesma coisa, em termos 
de temperamento no poderiam ser mais diferentes.
       Tullah e Saul tinham planejado deixar os filhos dele em Queensmead no caminho para o baile.
       - Voc j conheceu o av de Livvy? - Saul perguntou a Tullah e, quando ela fez que no com a cabea, ele deu um sorriso irnico. - Bem, ele  uma verdadeira 
figura, do tipo bem antiquado. A honra e a integridade da "famlia" so muito importantes para ele. Ele e meu pai so meios-irmos. O pai deles casou duas vezes, 
e h uma grande diferena de idade entre o av de Olvia e o meu pai. Eles nunca foram especialmente prximos. Ben, o av de Olivia, no  muito fcil para se fazer 
amizade e, lendo nas entrelinhas, suspeito que ele ache que meu pai, sendo filho mais novo e tendo uma me que veio de uma famlia bem rica, foi mais favorecido 
pela sorte. Ben foi, na verdade, o sobrevivente de um par de gmeos e o que se sabe  que ele cresceu sabendo que seu pai jamais superaria a perda de seu primognito 
e, de certa forma, at culpava Ben por isso.
       - Ah, pobre homem - Tullah demonstrou compaixo imediatamente. - Que triste.
       - Sim, acho que sua vida tem sido mesmo muito triste em vrios sentidos - Saul concordou, pensativo. - E mesmo assim, at agora nunca vi as coisas desta maneira, 
sempre tive a tendncia a achar que ele era mais um sujeito terrivelmente esquisito e um tanto esprito de porco. Com certeza sou grato por ser filho do meu pai 
e no dele. A vida de Jon quando era criana e adolescente no foi nada fcil. David sempre foi a menina dos olhos do pai e . o pobre Jon sempre foi colocado  sombra 
do irmo.
       - David  pai de Olivia, no ? - Tullah perguntou, interessada.
       - Sim - Saul afirmou. - Ele desapareceu depois de um ataque cardaco. Ningum sabe para onde ele foi, ou por qu, apesar de que tenho para mim que... - Parou 
de repente, e Tullah teve a sensibilidade de no pression-lo.
       Ela desconfiava, devido s coisas que Olvia dizia s vezes, que sua amiga passara por momentos difceis com os pais, principalmente com o pai, e que ele 
tinha certas falhas de personalidade, o que queria dizer que Olivia no lamentava muito o fato de ele no fazer mais parte de suas vidas.
       - Mesmo quando eu era criana, sempre fui mais prxima de Jenny e Jon - ela admitiu a Tullah em uma ocasio. - Vov sempre dizia que Max deveria ser filho 
de David e eu de Jon.
       Tullah s havia encontrado Max e sua paciente, sofredora e discreta esposa, Madeleine, umas duas vezes, e logo formou uma opinio sobre ele: ele era um aventureiro, 
um homem que gostava de viver a vida em alta velocidade, um sujeito no agraciado com a capacidade de ser gentil ou sensvel. Ele certamente no devia ser muito 
bom para sua esposa, se fossem verdade os rumores que ouvia sobre sua infidelidade.
       Ela ficou tensa ao ouvir Saui chegar l fora, seu corao j comeando a bater rpido demais. Era por causa daquele espartilho apertado que fazia parte da 
fantasia que estava usando, que a fazia ficar com a respirao curta, concluiu irritada enquanto descia as escadas, um dos castigos que faziam parte da cintura miraculosamente 
pequena que o lao apertado do corpete conseguira moldar. No era, de forma alguma, por causa da chegada de Saul,  claro.
       Era claro!
       Como ela, Saul j estava vestido com sua fantasia e, quando abriu a porta, Tullah sentiu um aperto na garganta.
       Realisticamente, poderia haver um qu de ridculo e tolo em um homem do sculo vinte e um com calas batendo nos joelhos, meias brancas compridas, um casaco 
comprido brocado, carregando uma bengala e um chapu de trs pontas, mas o que seus sentidos lhe comunicavam era algo bastante diferente.
       Georgette Heyer tinha grande parte naquilo, Tullah concluiu, sentindo seu corao disparar e descobrindo que estava perigosamente prxima daquilo que seu 
equivalente do sculo dezoito chamaria de desfalecimento, mas a Tullah do sculo vinte e um seria mais direta e diria simplesmente tratar-se de um ilgico e pouco 
recomendvel surto de luxria.
       - Eu deveria estar usando uma peruca, mas minha cabea coava tanto com aquilo que desisti de usar - ela ouviu Saul contar ironicamente. - O que nunca vou 
entender como diabos algum conseguia viver uma vida minimamente normal vestindo estes troos.
       - Eu... eu suponho que eles no usassem isso tudo - Tullah conseguiu responder, entre vertigens. - Suponho que eles, como ns, usavam coisas mais prticas 
durante o dia-a-dia.
       Ela havia posto a capa que fazia parte do traje e cobria a fantasia antes de descer as escadas, subitamente tmida e acanhada de Saul v-la, e correu agora 
at a porta.
       - No podemos nos atrasar - ela disse.
       - No vamos nos atrasar - Saul respondeu calmamente, acrescentando. - Onde est sua maleta? Guardarei no porta-malas.
       Sua maleta... Claro, havia esquecido l ern cima! Foi o comentrio inocente de Olivia sobre o fato de ela e Saul sem dvida estarem se aproveitando bastante 
da rara ausncia de crianas, que iri am dormir em Queensmead, que fez com que Saul dissesse a ela que seria estranho se, depois do baile, ela insistisse em voltar 
para casa sozinha, e ela relutou muito em passar a noite na casa de Saul, ir com ele pegar as crianas de manh e comparecer ao almoo de famlia que Jenny estava 
planejando para todos eles em Queensmead.
       - ...  l em cima - ele disse a ele, vacilante. - Eu vou...
       - No, fique aqui. Eu pego - Saul disse, subindo as escadas bem mais facilmente do que ela o faria usando aquelas saias cheias e exageradas. O traje fazia 
maravilhas  sua aparncia, algo com o que ela no estava muito certa de se sentir muito confortvel. Olivia riu quando ela mostrou sua contrariedade e expressou 
suas dvidas em relao quele espartilho to apertado que deixava sua cintura to fina que quase podia ser abarcada pela mo de um homem, e seus seios firmes e 
voluptuosamente arredondados.
       - Voc tem tanta sorte - ela confessou a Tullah. - Acho que vou precisar da ajudinha de um bom enchimento para conseguir a aparncia arredondada tpica dos 
seios do sculo dezoito. - Fez uma pausa e disse, maliciosamente. - Nunca tinha reparado que voc tem um sinal a - e riu quando Tullah tentou puxar o lao pendurado 
de seu espartilho para esconder a pequena mancha escura, linda e provocativmente posicionada de maneira que, normalmente, a nica pessoa a v-la seria ela mesma 
ou um amante.
       No segundo andar, no quarto de Tullah, Saul logo viu a maleta. O quarto em si era arrumado e limpo, e ao mesmo tempo irresistivelmente feminino, com um par 
de chinelos de cetim meio escondidos debaixo da cama, um pequeno pote laqueado cheio de batons na penteadeira e o aroma do perfume de Tullah pairando no ar. Ele 
deu uma olhada rpida na cama e ento virou para o outro lado.
       Ele tinha reclamado que as calas curtas de cetim que faziam parte de seu traje estavam um pouco apertadas dos lados, mas lhe disseram que era o estilo da 
poca. Estilo ou no, era desconfortvel demais quando Tulah estava por perto e ele... Rapidamente pegou sua maleta e se dirigiu  porta.
       O espartilho era sem dvida apertado demais, Tullah concluiu ao ver Saul voltar e descobrir que ela estava tendo, dificuldade em respirar. Nada a ver com 
o fato de o estilo justo do traje dele revelar que Saul tinha coxas extremamente poderosas e que... Corando, ela olhou para o outro lado ao perceber que direo 
seus pensamentos estavam tomando.
       Ela ficaria feliz quando aquelas semanas finalmente passassem e Louise estivesse s e salva de volta  universidade e aquela relao pudesse terminar, pensou 
enquanto se sentava no banco da frente do carro de Saul, e ento se virou para falar com as crianas no banco de trs.   
       - Mas que negcio  este? - Katie perguntou, olhando de modo constrangedor para a irm.
       - O que lhe parece? - Louise respondeu, piruetando em frente ao espeiho do quarto que dividia com a irm. - E um baile  fantasia do sculo dezoito.
       - Sim, mas onde voc conseguiu isto e o que pretende fazer? Voc no foi convidada para o baile!
       - Hummm... - Louise murmurou, sem dar ateno e franzindo a testa, enquanto abaixava um pouco mais a parte da frente de sua fantasia e virava de lado para 
observar o efeito.
       - Voc no tem entrada para o baile de mscaras - Katie continuou. - Voc no pode ir...
       - Quem vai me deter? - Louise perguntou, rindo.
       - Voc no quer dizer que vai entrar de penetra, no ? Voc no pode - Katie protestou, abismada. - E se nossos pais descobrirem e...
       - No vo descobrir - Louise garantiu. - Veja - disse  irm, e foi at a grande caixa no cho do quarto. - Quando eu puser esta mscara, ningum vai me reconhecer!
       Katie foi forada a admitir que estava certa, mas ainda assim sentiu a desconfortvel conscincia de que tinha de dissuadir Louise do que ela planejava.
       - Por que voc quer ir? - ela perguntou. Louise levantou a sobrancelha:
       - Por que voc acha? Saul vai estar l.
       - Ele estar com Tullah - Katie a lembrou. - Voc no deveria fazer isso.
       - Ah, no? E quem vai me impedir? Seu precioso professor Simmonds?
       - Ele no  o meu professor,  o seu - Katie lembrou a ela, acrescentando. - Bem, ele  seu tutor, de toda forma, Ah, Louise, voc j pensou como papai e 
mame ficaro aborrecidos se...
        - Eles no ficaro aborrecidos porque eles no vo sa- ber - Louise disse, com firmeza, acrescentando. - Te- nho de fazer algo para mostrar a Saul como ele 
est sendo bobo. S preciso de uma chance para mostr-lo. No est na hora de voc ir para Queensmead tomar conta das crianas?
       - Lou, desista e venha comigo - Katie pediu, mas Louise simplesmente balanou a cabea.
       - No - disse, irada. - J estou decidida.
       - Certo, estamos todos prontos? - Olivia perguntou. Eles tinham chegado em Queensmead quinze minutos antes, ou algo assim, e as crianas j estavam todas 
em suas respectivas camas.
       Tullah foi apresentada ao av de Olivia, um homem idoso e magro que olhou para ela de maneira penetrante e disse que Saul era um homem de muita sorte, e logo 
depois anunciou que iria passar a noite em seu escritrio e no queria ser perturbado.
       Tullah foi at o segundo andar com Olivia para ajudar a acomodar as crianas e, a pedido de Meg, tirou a capa para que vissem sua fantasia. Os olhos de Meg 
se arregalaram de admirao ao v-la, mas foi a expresso no rosto de Jemima, enquanto ela tocou, hesitante, o rico tecido do traje que emocionou Tullah. Agindo 
por instinto, ela abraou bem forte a menina mais velha, que disse, asfixiada:
       - Voc  to bonita! Eu queria ser bonita.
       - Voc ... voc  - Tullah disse a ela, emocionada.
       - No sou no - Jemima negou. - Minha me dizia que eu era a criana mais sem graa que ela j vira.
       Tullah sentiu sua respirao parar na garganta com a dor que podia ouvir na voz de Jemima. Como a ex-mulher de Saul, por mais difcil que sua vida pudesse 
ser na poca, por mais infeliz que o casamento a fizesse sentir-se, podia ter dito algo to cruel e falso para a prpria filha?
       - Se ela disse isso, ento acho que sua me precisa de culos - Tullah disse carinhosamente. - Porque voc com certeza no tem nada de sem-graa.
       - Voc s est dizendo isso por que eu pareo com papai e voc o ama - a menina replicou, tristemente.
       - Ah, Jemima - Tullah quase chorou enquanto a abraava ainda mais forte. - Simplesmente no  verdade. Voc no  sem graa, eu juro. No mesmo. Ao contrrio, 
acho que voc vai crescer e virar uma verdadeira destruidora de coraes.
       Pobrezinha, Tullah pensou cinco minutos depois, quando ela e Olivia desceram de volta. Como a me dela podia ter dito aquilo, especialmente se era to evidente 
que no era verdade?
       Ser que era por isso que Jemima estava sempre to quieta e introvertida, porque parecia escolher roupas chochas e quase feias? Se era, ento no futuro ela 
faria a garota saber que era atraente e que merecia usar roupas bonitas e coloridas, e que seria bom se ela e Saul adiassem aumentar a famlia at que a menina se 
sentisse mais confiante. A ltima coisa que Tullah queria era faz-la sentir-se ainda mais insegura.
       Tullah ficou tensa de repente. O que ela esta fazendo... que diabos estava pensando? Ela e Saul no iriam formar uma famlia. Ela no tinha papel nenhum a 
desempenhar na vida de Jemima. Ser que ela estava ficando completa-mente louca?
       Apesar de que, em sua maioria, os eventos da noite ocorreram ao ar livre, uma marquise foi erigida para servir de vestirio, e como Olivia comentou com Tullah 
ao chegarem, estava certamente quente o bastante para que eles dispensassem suas capas.
       - Os organizadores tiveram sorte com o tempo. Est uma noite adorvel. - Enquanto pegavam suas entradas, ela disse-Estas mscaras so uma ideia legal, no 
acha? Elas realmente fazem um bom disfarce, ainda que no no seu caso - ela acrescentou jocosamente, dando uma olhada sugestiva no decote de Tullah. - Eu duvido 
muito que Saul tenha dificuldade em reconhec-la. Por causa de seu colo, quis dizer - ela acrescentou enquanto Tullah a olhava de maneira suspeita.
       Ela ainda estava rindo quando ambas se juntaram aos homens e, para constrangimento de Tullah, Caspar pediu para saber qua! era a piada.
       Saul estava conversando com algum de costas para eles e s se virou quando Olivia estava na metade da explicao a Caspar. Ao ver Tullah, ele pareceu congelar 
por um segundo, seu corpo todo se enrijecendo enquanto ele a observava.
       Ento Olivia exortou-o.
       - Saul,  verdade, no ? Mesmo usando a mscara, voc reconheceria Tullah graas a seus seios, no ?
       Rindo de novo, ela apontou para a pequena mancha negra no seio de Tullah, enquanto ela instintivamente levou a mscara ao rosto para esconder como ficara 
corada.
       - Eu poderia reconhecer mesmo sem isso - ela ouviu Saul responder calmamente a Olivia. - Mas concordo que  bem... chamativo - e depois, para consternao 
de Olivia, acrescentou com uma voz sensual - e muito, muito bons de beijar.
       - Ah, pobre Tullah, agora a deixamos constrangida - Olivia zombou enquanto Tullah soltou um som levemente agoniado entre dentes. - James deve vir tambm. 
Imagino seja ter chegado - Olivia comentou.
       - Cerca de quinhentas pessoas foram convidadas - Saul avisou. - Ento, mesmo que ele ja esteja aqui, talvez no o vejamos.
       - Os jardins no esto lindos? - Olivia entusiasmou-se.
       - Lindos mesmo - Caspar concordou, imperturbvel. - Apesar de que tenho para mim que no sculo dezoito eles seriam iluminados com fogo e no eletricidade.
       Olivia no se fez de rogada.
       - Pode acreditar... mas eu suponho que as tochas eltricas sejam bem mais seguras. Adoro como fizeram estas cabines e pavilhes. Ah, veja s isto! - ela exclamou, 
excitada, enquanto uma tropa de acrobatas saltava e dava cambalhotas por trs deles, seguidos por um comedor de fogo. - Ah, Saul,  maravilhoso! Nunca vi nada assim 
- ela reconheceu.
       Nem Tullah, que estava to distrada e boquiaberta com o ambiente quanto Olivia.
        distncia puderam ver a magnfica tela de fundo do salo, alm dos limites da festa, incluindo os jardins privativos que cercavam o local. Abaixo deles, 
no canal artificial que desaguava no lindo lago com uma caverna e um templo, gndolas ondulavam levemente na gua plcida, pintadas em cores vibrantes, cada uma 
com seu gondoleiro.
       Tullah sorriu ao ouvir o som do quarteto comeando a tocar, animando a pista de dana a vrios metros de onde estavam.
       - Vamos danar? - Saul sugeriu, oferecendo o brao a Tullah, como quem faz a corte.
       - Olhem bem, vocs dois - Olivia avisou enquanto Tullah se aproximava de Saul. - S se lembrem que, no sendo oficialmente noivos ainda, vocs no devem ficar 
juntos sem uma dama de companhia.
       - A madame est perfeitamente segura em minha companhia - Saul respondeu, com bom humor. - E quanto  dama de companhia, este luar brilhante no est aqui 
para guard-la e proteg-la? Apesar de que, devo admitir, me deparando com tamanha beleza... tamanha tentao...
       Tullah tentou rir junto com os outros, mas seu peito estava extraordinariamente apertado, como num desejo desesperado... uma necessidade.
       - Eu no estou com muita vontade de danar - ela mentiu, se afastando de Saul. - Eu... estou com sede. Onde posso arrumar uma bebida?
       - Eu vou pegar algo para voc. O que gostaria de beber? - Saul ofereceu-se educadamente, mas um tanto distante, Tullah pensou.
       Dez minutos depois, quando Saul j tinha voltado com a bebida de Tullah, Oivia e Caspar estavam danando e, quando Saul foi detido por um dos membros da 
diretoria que queria discutir afgo com ele, Tullah resolveu sair para explorar os arredores por si mesma. A viso de um casal se beijando apaixonadamente nas sombras 
fez seu corao doer de inveja.
       Ela estava sendo ridcula, ralhou consigo prpria. Ela no estava apaixonada por Saul, como poderia estar? S porque havia descoberto que ele no era o homem 
que ela pensava que fosse? No era razo para que ela fosse de um extremo ao outro e mudasse de dio para amor.
       - Com licena...? - Tullah franziu o cenho quando uma mulher mascarada a abordou.
       -  a minha amiga - a outra disse com urgncia na voz. - Ela caiu e se machucou. Ser que voc podia ajudar?
       Enquanto falava, ela j ia puxando Tullah na direo do labirinto de plantas que era uma parte famosa dos jardins da propriedade, um lugar que Tullah presumia 
estar fora do alcance dos convidados da festa, mas a mulher estava caminhando to rpido, na verdade, quase correndo, que foi bastante difcil para Tullah acompanhar 
o passo e lidar com suas prprias saias antiquadas para conseguir perguntar alguma coisa. A urgncia e o alarme da outra tambm foram prementes, por isso ela s 
hesitou ligeiramente antes de se permitir ser evada para dentro do labirinto.
       Tullah perguntou, ansiosa:
       - O que aconteceu  sua amiga? Se ela caiu e se machucou no  melhor procurarmos ajuda profissional para ela? H uma tenda de primeiros-socorros aqui e...
       - No, no h tempo. Ela est com medo, entende? Ela no quer que eu a deixe. Est muito escuro no labirinto e ela odeia o escuro...
       Havia um certo nvel de prazer amedrontador na voz da outra e Tullah tinha a estranha e perturbadora convico de j conhec-la, apesar de no conseguir localizar 
onde teria escutado aquela voz rouca antes.
       -  por aqui - ela conduziu Tullah, entrando nos longos tneis verdes que, como ela havia dito, eram bastante escuros e sombrios quela hora da noite.
       Ainda bem que a mulher sabia aonde estava indo, Tullah reconheceu, pois ela certamente jamais conseguiria descobrir o caminho... Elas haviam dado tantas voltas 
que j estava confusa. Ela ia comentar exatamente isso, mas levou um susto quando, totalmente de repente, a outra a deixou e partiu por um espao na parede de plantas. 
Mas quando'Tullah a seguiu, no havia sinal dela, a avenida de um verde sombrio estava j totalmente deserta.
       Presumindo que a mulher no havia percebido que a perdera, Tullah esperou que ela reaparecesse. Aps vrios minutos, ao ver que ela no vinha mais, a confuso 
e a irritao de Tullah comearam a virar raiva.
       O que estava acontecendo? Estaria algum, uma de suas colegas talvez, fazendo algum tipo de brincadeira? Se fosse, no estava achando nada agradvel. Estava 
frio l dentro, e muito escuro, e Tullah j estava comeando a desejar ter trazido sua capa.
       - OK! - ela gritou, com firmeza. - A brincadeira acabou, eu desisto! Agora venha e me tire daqui!
       Silncio.
       Ela no iria comear a entrar em pnico... ainda, Tullah disse a si mesma. Afinal de contas, deveria ser um processo suficientemente simples seguir seus passos, 
no seria? Ela estava comeando a concluir que havia sido enganada, atrada at l para ser largada ali mesmo, uma brincadeira cretina.
       Certamente tudo o que ela precisava fazer era se concentrar e tentar lembrar das voltas que deram. O problema era que havia caminhado com tanta pressa para 
dentro do labirinto, nervosa pela suposta amiga que havia cado, que no havia prestado muita ateno na rota que tomaram e, para ser honesta, jamais tivera mesmo 
muito senso de di-reo. Na verdade, a outra mulher a apressara tanto que a pequena bolsa que estava carregando devia ter cado de seu brao em algum momento, pois 
percebia agora que no estava mais com ela.
       Ela comeou a tremer e esfregar os braos, tentando conter os arrepios de frio que percorriam sua pele. A lua, que antes parecia brilhar to forte, era toda 
sombra sobre o labirinto. As paredes verdes deviam ter no mnimo trs metros, Tullah refletiu, se esforando para tentar visualiz-las como se fossem menores para 
tentar dominar seu pnico crescente, como se fosse possvel enxergar por sobre elas. Se ao menos... Quanto tempo ela seria deixada l e por qu?
       Se aquilo era o que algum chamava de pegadinha, era uma das mais cruis. No podia pensar em ningum que a detestasse tanto para submet-la a algo assim. 
Ou conhecia...? Ela tremeu mais uma vez, mas no de frio. Louise! Era por isso que ela achava que reconhecia a voz. Tinha sido Louise! Louise a enganara para enfi-la 
no labirinto, como uma armadilha.
       Mas para qu? Cedo ou tarde algum daria por sua falta. Cedo... ou tarde. Quanto tempo mais tarde... e quanto tempo antes de a encontrarem?
       Uma pequena bolha de histeria aflorou em sua garganta. O labirinto ficava fora da festa, ela estava certa. Ali seria o ltimo lugar que qualquer um pensaria 
em procur-la. Seu corpo inteiro sucumbiu  sensao de derrota e cansao.
       Saul franziu o cenho ao procurar mais uma vez entre as pessoas na pista de dana. Fazia mais de meia hora desde que tinha finalmente se livrado de seu companheiro 
de di-retoria e, apesar de ter procurado muito por Tullah, no via nem sombra dela. Quando perguntou a Olivia, ela ficou surpresa ao saber que Tullah no estava 
com ele; suas colegas de trabalho balanaram as cabeas e ficaram olhando, curiosas, quando ele saiu, suspeitando que tivesse havido uma briga de casal.
       - Saul - Ele olhou com raiva Louise correndo atrs dele e jogou o corpo para o lado no ltimo minuto, habilmente evitando que ela casse em seus braos, como 
era sua bvia inteno.
       - Louise, o que est fazendo aqui? - ele perguntou. Louise fez um biquinho provocante para ele. Ela sabia que era provocativo porque tinha praticado no espelho. 
Uma boa parte dos garotos da universidade j havia demonstrado atrao por ela e a chamava para sair, mas s havia um homem pelo qual ela se interessava, apenas 
um. Saul.
       - Voc no disse como estou bonita - ela disse a ele, ignorando a pergunta e recuando para dar uma pequena voltinha na sua frente. Ela ficou feliz corn a 
maneira que o espartilho forava seus seios para cima e para fora, deixando-os mais encorpados e com uma linha divisria que ela no tinha naturalmente. Katie no 
aprovara muito quando a vira.
       - Se este espartilho estivesse um pouco mais baixo voc correria o risco de mostrar os mamilos - ela disse  irm de modo bem direto.
       Louise limitou-se a fazer cara feia. Saul, contudo, longe de ficar impressionado com a generosa fartura de carne, mal a olhou.
       Mas ela tinha visto o modo com que ele olhara para Tullah antes, quando ningum sabia que ela os estava observando, escondida na segurana de sua mscara 
e certificando-se de estar na sombra. Mas at a, os homens sempre tiveram mesmo uma queda por aquele tipo de mulher excessivamente corada que Louise francamente 
considerava chamativa demais.
       - Est procurando por algum? - ela perguntou a Saul maliciosamente, tirando vantagem de sua preocupao para passar o brao no dele e se aproximar.
       - Sim... Tullah - Saul respondeu curto e grosso. - Voc a viu?
       Louise podia senti-lo se afastar dela enquanto ela tentava se encostar, o que fez sua raiva de Tullah crescer, afastando a culpa que sentira quando largou 
a outra mulher no labirinto. E claro que Tullah no estava correndo nenhum perigo real. Algum, algum dos empregados de Lorde Astlegh, iria nspecionar o labirinto 
no fim da noite, apesar de fora da rea da festa, e ela prpria iria passar l, em todo caso, quando tivesse certeza de que ningum a veria. Era uma noite clida 
e Tullah no seria exposta a qualquer perigo. Tudo o que Louise queria era tir-la do caminho por um tempo, para fazer Saul ver que ela simplesmente no servia para 
ele, e eis que ela percebia que Saul, sem querer, tinha tornado sua tarefa ainda mais fcil.
       Tentando ao mesmo tempo esconder seu triunfo e soar convincentemente casual, Louise deu de ombros e mentiu.
       - Sim, na verdade eu a vi...
       - Onde? - Saul perguntou sem permitir que ela terminasse e pela primeira vez ele se aproximou dela, com os olhos flamejantes.
       - Bem, foi h uns vinte minutos atrs ou algo assim - Louise respondeu loquaz. - Ela estava danando com algum. Eu.,.
       -Danando? - A expresso de Saul refletiu sua perplexidade. Ele procurou pela pista de dana por algum tempo, esperando ver Tullah., mas no a viu danando.
       - Sim... com um homem alto que usava uma peruca - Louise improvisou. - Eles estavam rindo de algo e depois caminharam juntos em direo ao estacionamento.
       - O qu? - Saul parecia trovejar.
       Aquilo era maravilhoso. Seu plano estava funcionando melhor do que ela esperava, Louise reconheceu enquanto tirava vantagem de Saul ter baixado a guarda para 
pr a mo em seu brao, de maneira possessiva, chegar ainda mais perto dele e dizer suavemente:
       - Eu lamento, Saul, mas ela, e fosse quem fosse seu acompanhante, pareciam bastante... ntimos. Ela...
       Tomada pelo aparente sucesso de seu plano, Louise estava distrada demais para perceber que do canto do olho, Saul viu o tecido acetinado da bolsa que ela 
havia enfiado no bolso de sua capa aps perceber que Tullah a deixara cair. Tramar uma armadilha e deixar Tullah no labirinto para impedir que ela se interpusesse 
entre si e Saul era uma coisa, mas deixar que ela perdesse a bolsa era uma ofensa bem diferente, o tipo de coisa que ela jamais faria. A bolsa seria devolvida a 
Tullah juntamente com sua liberdade assim que Saul tivesse sido persuadido a tirar Tullah de sua vida.
       Com a mente ocupada por seus planos, Louise nem sequer percebeu que Saul se aproximou e tirou a bolsa de seu bolso, at que ele perguntou de modo severo:
       - Onde voc arrumou isto?
       Louise sentiu que seu rosto corava, denotando sua culpa.
       - Louise - Saul disse, com uma expresso de ira. - Eu sei que esta bolsa  de Tullah. Agora diga, onde a conseguiu?
       Dez minutos depois ele finalmente conseguiu extrair a verdade de Louise, que ficou sob a vigilncia de Olivia. Tudo que Saul conseguiu fazer foi sacudir a 
cabea quando Olivia, sem entender o que se passava, perguntou o que estava havendo.
       - No tenho tempo para contar. Apenas fique de olho em Louise para mim, sim? E quanto a voc, minha garota - ele ameaou Louise amargamente -, considere sorte 
sua no ser minha filha e eu no ter nenhuma autoridade sobre voc. Porque se eu tivesse... Voc diz que  uma mulher, Louise, mas seu comportamento  o de uma criana 
irresponsvel e imatura e  assim que a vejo, como uma criana, e  assim que sempre vou v-la.
       Louise conseguiu conter as lgrimas que estavam prestes a brotar de seus olhos. De repente se sentiu como se no conhecesse Saul, como se ele fosse um estranho, 
uma figura autoritria e severa que lhe parecia to sem atrao j e irritante quanto seu professor. Seu professor. Ela podia at imaginar a reao dele se um dia 
soubesse o que tinha acabado de acontecer. No que ele fosse descobrir, claro. Fez fora para segurar as lgrimas. Olivia a observava com um misto de irritao e 
simpatia.
       - Saul est certo, sabe, Lou - ela disse gentilmente. - J  hora de voc comear a crescer.
       - Eu sou crescida - Louise replicou categoricamente e naquele momento percebeu que era verdade; que havia um enorme e doloroso vazio dentro dela onde antes 
ficava seu amor por Saul; que tudo o que ela queria era fugir de sua famlia e da cena de humilhao a que seria submetida e, mais que tudo, fugir de Saul. Agora 
no teria mais como ela passar o resto do vero em Haslewich, de jeito nenhum. No mesmo...
       Saul levou dez minutos para chegar ao labirinto e, uma vez l, no perdeu tempo. Seu pai e o conde eram da mesma poca; quando crianas ele e o irmo chegaram 
a visitar o salo com seus pais, quando eles ficavam em Queensmead. Costumavam brincar no labirinto com os filhos do conde e Saul, com seu crebro rpido e analtico, 
logo dominou a intrincada estrutura.
       Ele s esperava conseguir lembrar com preciso, do contrrio teria de ir ao salo de festas e buscar algum que pudesse, na ausncia do conde, arrumar um 
mapa do labirinto.
       Tullah piscou os olhos com lgrimas de raiva quando mais uma tentativa de descobrir o caminho para fora do labirinto a levou para um beco sem sada.
       Ela estava com frio e cansada e,.-o que era pior, comeando a prestar ateno demais nas imagens mrbidas e certamente fora da realidade produzidas por sua 
imaginao. Afinal, no era possvel que ficasse perdida l at morrer de fome. Era bvio que algum aparava aqueles impecveis muros verdes que a aprisionavam e, 
alm do mais, Louise no lhe transmitira a impresso de querer acabar com sua vida, mas sim com sua relao com Saul.
       Sua relao com Saul. Se Louise ao menos soubesse da verdade...
       Ela fechou os olhos. Descansaria apenas um pouquinho e depois tentaria novamente encontrar a sada.
       Ficou tensa ao pensar ter ouvido algum chamar seu nome, algum... Saul, chamar seu nome. Ficou to paralisada pela enorme onda de alvio que tomou conta 
dela que levou vrios instantes at conseguir responder.
       - Saul... Estou aqui... aqui... - ela gritou enquanto comeava a correr pela longa e sombria avenida verde, movida mais pelo instinto que pela lgica, pela 
emoo, pelo alvio, e mais do que tudo pela necessidade imperativa no s de ser resgatada, mas de estar com Saui.
       E ento, de repente ele estava l, emergindo da escurido no fim do tunel escuro.
       Saul!
       Sem parar nem hesitar, Tullah correu em direo a ele e se jogou em seus braos.
       Saul estava l, graas a Deus. Graas a Deus! Ela sabia, que algum acabaria sentindo sua falta e comearia a procurar por ela. Claro que ela sabia, mas ainda 
assim... ainda assim...
       Ela sabia que ficaria emotiva e aliviada, independente de quem a resgatasse, mas o fato de ser Saul tornou muito mais natural e instintiva sua entrega s 
emoes que, em outras circunstncias, teria tentado controlar, como uma adulta. Mas nos braos de Saul era fcil se permitir a sensao de alvio, a liberao de 
suas lgrimas e a vulnerabilidade de se agarrar a ele, trmula, tiritando, abandonando-se totalmente em seu calor, sua presena, sua proteo.
       - Ah, Saul, estou to feliz em v-lo! - ela disse atropelando as palavras, incapaz de cont-las. - Estou to contente que voc tenha me achado!
       - Eu tambm - ela o ouviu responder com a voz rouca, quase como se lhe doesse falar. - Eu tambm.
       Estranho como era diferente, como ele sentiu a diferena de quando se tratava da mulher que queria, da mulher que desejava e ansiava, como se fosse uma fome. 
A mulher que amava, cujo corpo podia sentir perto do seu, Saul reconheceu enquanto a envolvia com seus braos. Abraando-a, embalando-a enquanto ela soluava de 
choque e alvio em seu ombro, ele a reconfortou do mesmo jeito que faria com um de seus filhos.
       - Ah, Saul, eu achei que fosse ficar aqui para sempre, que jamais encontraria a sada... que ningum jamais saberia o que teria me acontecido - Tullah admitiu, 
aliviada demais pela presena dele para se preocupar em como ele a poderia considerar frgil e tola.
       Em resposta, os braos de Saul se apertaram em volta dela com ainda mais fora.
       -Eu jamais permitiria que isso acontecesse-ele disse, com firmeza. - Nem que tivesse que arrancar cada maldito pedao deste labirinto com minhas prprias 
mos.
       - Eu acho que o conde no ficaria muito satisfeito - Tullah soluou, dividida entre lgrimas e risadas.
       - No estou nem a. Tudo o que me importa  que a descobri e voc est a salvo. Tudo o que me importa  voc - ele disse, com a voz subitamente mais grossa 
e profunda.
       Tullah olhou para ele, hesitante.
       - Voc no precisa fazer o papel do amante ansioso - ela o relembrou. - S estamos ns dois aqui.
       - Quem disse que estou interpretando? - Saul replicou.
       Ela se sentia to maravilhosamente bem em seus braos que ele estava comeando a perceber que ela no tinha feito qualquer movimento para se afastar. Ele 
olhou para o rosto dela. A uz da lua emprestava uma tonalidade prateada  pele e s mas do rosto de Tullah, bem como ao seu maxilar to frgil e delicado,  suave 
curva de seu pescoo e ao contorno ainda mais delicado de seus seios.
       Ele respirou fundo e disse:
       - Se voc continuar me olhando desse jeito, terei de beij-la.
       Os lbios de Tullah se mexeram quando sentiu que tinha de engolir, mas ela no desviou o olhar.
       - Tullah - Saul avisou com uma voz crua ao ver que o olhar dela finalmente escorregou de seus olhos para sua boca e l se deteve.
       - Ela jamais sonhara que algo pudesse parecer to certo, to natural, to instintivo e fcil, e ainda assim to mstico e to predeterminado, algo quase espiritual, 
que parecia como se ela e Saul estivessem sendo atrados um ao outro por uma fora maior que eles.
       Ela se movimentou delicadamente, de um lado para outro, nos braos de Saul, que comeou a beij-la lentamente, demorando-se na lenta fuso de suas bocas, 
passando a mo nos cabelos dela, abarcando seu rosto com as mos e abraando-a como se seus lbios fossem uma fonte afrodisaca da qual ele bebia. Gradualmente ele 
sentiu a rea-ao dela, a suave aquiescncia de seu corpo, e o beijo ficou mais ntimo, mais exigente,  medida que ele se tornava um amante mais dominador e menos 
suplicante. Um homem, o homem dela, Tullah reconheceu enquanto se delrciava em reconhecer o desejo dele e a prpria necessidade de corresponder.
       - Voc sabe que eu amo voc, no sabe? - Saul murmurou quando finalmente se afastou da boca de Tullah e beijou o meio de seus seios com ternura.
       - Eu... Voc tem certeza? - Tullah perguntou, hesitante.
       - Voc no? - Saul perguntou, gentilmente. Tullah lanou-lhe um olhar inseguro e ento admitiu.
       - Sim... - e acrescentou, em uma exploso de ansiedade. - Mas eu no queria amar voc, Saul, e at eta noite voc no me amava e...
       - O qu? Mas  claro que a amava! Talvez no logo de imediato, quando a vi no casamento de Olivia, ou depois no batizado de Amlia. Apesar de ter tentado 
puxar assunto. - Deu de ombros. - Quando soube que voc estava entrando para a empresa e Olivia convidou ns dois para aquele jantar, eu pensei... mas depois voc 
acabou deixando claro que eu seria a ltima pessoa por quem voc se interessaria.
       - Porque eu pensava que...
       -Eu sei o que voc pensava - Saul cortou, com indiferena.
       - Desculpe - Tullah disse. - Mas...
       - Eu sei.
       - Voc acha que ns um dia ficaramos juntos se no tivssemos nos forado a fingir... que estvamos tendo um envolvimento? - Ela perguntou.
       - Ah, eu acho que acabaria dando um jeito - Saul assegurou suavemente, - Mas felizmente no tive necessidade. O estratagema de Luke funcionou to bem para 
mim quanto para ele.
       - O estratagema de Luke...? O que voc quer dizer?
       - Quando Bobbie veio para Chester, Luke fingiu que estava tendo uma relao com ela para se livrar de uma ex-namorada que estava tentando recomear um romance 
terminado havia muito tempo.
       - Como voc e eu e Louise - Tullah murmurou enquanto se aninhava ainda mais no calor dos braos dele.
       - Hummm... e quando o destino me deu a oportunidade de fazer a mesma coisa, eu me lembrei de como havia funcionado com Luke e como no final ele e Bobbie acabaram 
at casando. Foi ento que decidi fazer o mesmo para ver se daria certo comigo tambm.
       - Voc acha que um dia teramos descoberto o que sentimos um pelo outro se no fosse o que aconteceu esta noite, se no fosse por Louise? - Tullah perguntou.
       - Tenho certeza que sim - Saul respondeu positivamente. - Duvido muito que eu fosse aguentar ficar muito tempo lutando contra meus instintos mais bsicos, 
principalmente considerando que meu corpo j sabe como damos certo juntos - ele sussurrou antes de abaixar a cabea e comear a beij-la mais uma vez.
       Tullah teve de aguardar at que ele tivesse terminado para perguntar.
       - O que voc quer dizer? Ns no fizemos... nunca fizemos...
       - Ah, fizemos sim - Saul disse a ela com um sorriso malicioso, e ento abaixou a cabea para comear a sussurrar para Tullah exatamente o que ela havia dito 
a ele na noite em que fizeram amor.
       Tullah ficou olhando para ele, atnita.
       - Mas achei que tinha sido um sonho! Saul riu.
       - No foi sonho nenhum - disse, zombeteiro. - Quer que eu prove?
       Suas mos j estavam percorrendo o corpo dela, estimulando seus sentidos, fazendo sua sensualidade aflorar calorosamente para a vida sob seu toque, seus lbios 
se abrindo avidamente  proximidade dos dele, e os dele se aproximando atrados pelo fogo brando que emanava dos lbios dela. O medo que ela sentiu, o frio, o desconforto 
e o nervosismo que havia passado, estava tudo esquecido, e no foi por causa do ar frio o tremor que sentiu no corpo quando Saul delicadamente libertou seus seios 
da compresso do espartilho e comeou a brincar com eles e a acarici-los com a boca, mais e mais apaixonadamente.
       Tullah gemeu com voz rascante e seu corpo inteiro reagiu  boca de Saul em seus seios, com a cabea jogada para trs expondo o contorno bem delineado de seu 
pescoo.
       O luar fazia o corpo de Tullah parecer alabastro de cor creme e Saul grunhiu de vontade ao traz-la para si, apertando-a contra ele e sussurrando com uma 
voz crua.
       - Voc sabe o quanto eu a quero neste momento?
       - Eu tambm quero voc - Tullah admitiu, emocionada. - Mas... - Ela olhou ao redor, demonstrando incerteza.
       - Eu sei - Saul concordou. - Este no  o lugar certo e, alm disso, se no voltarmos logo algum vai acabar mobilizando uma equipe de busca para nos encontrar. 
Ento, por mais que eu queira t-la s para mim...
       Ele parou e ento ajeitou novamente o vestido de Tullah, beijando-a delicadamente na boca e depois um pouco menos delicadamente ao sentir que ela se aproximava 
dele, suas mos se agarrando s dele como se ela ainda estivesse com um pouco de medo que ele fosse desaparecer.
       - Eu a amo tanto, voc sabia? - ele sussurrou contra sua boca com muita emoo e ento a soltou e acrescentou, de modo mais objetivo. -  melhor voltarmos. 
Olivia ainda deve estar tomando conta de Louise at agora.
       - Louise...? Como voc soube que eu estava aqui? - Tullah perguntou.
       - Eu vi a ponta da sua bolsa saindo do bolso da capa de Louise. Ela tentou alegar no saber de nada no comeo, mas logo consegui extrair a verdade dela.
       - Minha bolsa! Eu a deixei cair. Louise deve t-la pegado. - Ela tiritou levemente. - Ah, Saul, eu lamento muito por ela.  evidente que ela o ama muito.
       - No mais - Saul garantiu, com indiferena. - Na verdade, suspeito que no momento eu seja o nmero um na lista negra dela, onde irei permanecer por um longo 
tempo. Ela pelo menos disse que voltaria para buscar voc depois - ele disse a Tullah com uma expresso sria. - Mas, por Deus, quando eu penso... eu no sabia se 
a sacudia ou se batia nela.
       Ele viu o olhar de Tullah e balanou a cabea.
       - No, claro que no - ele reconheceu em tom de reprimenda. - Eu jamais usaria violncia para dissuadir uma criana e em muitos sentidos Louise ainda  uma 
criana, apesar de ela no gostar que lhe digam isso.
       Ele fez uma pausa e sua voz ficou ainda mais sria.
       - Voc quer casar comigo, Tullah? - Ele se aproximou, pegando sua mo e levando-a a seus lbios enquanto se ajoelhava em frente a ela com um dos joelhos e, 
para o pasmo deleite de Tullah, continuou a pedi-la em casamento como se ela fosse mesmo uma dama do sculo dezoito e ele seu nobre galanteador.
       - Sim - ela sussurrou suavemente. - Sim, sim, sim!
       - No  s a mim que voc est levando - ele avisou quando finalmente saram do labirinto. - Tem as crianas tambm.
       - Eu sei - Tulah afirmou.
       - O que me lembra - Saul acrescentou, seus olhos brilhando de modo divertido e com algo alm que fez o corao de Tullah comear a bater mais forte enquanto 
ele a trazia para seu lado. - Hoje as crianas vo dormir em Queercsmead, o que quer dizer que teremos a casa inteira s para ns dois, o que quer dizer...
       Ele fez uma pausa e Tullah o encorajou.
       - O que quer dizer que...?
       - O que quer dizer - ele zombou dela ternamente - que voc ter amplas oportunidades de mostrar para mim o quanto consegue lembrar daquele seu sonho... cada 
segundo... cada beijo... cada toque... cada...
       - Saul - Tullah o repreendeu, ofegante.
       
       
      Eplogo
       
       
       - Bem, tudo est bem quando termina bem - Olivia comentou com Gaspar quando estavam no gramado de Queensmead, sob o forte sol de agosto, observando Tullah 
e Saul entre os convidados de seu casamento. - Amlia ficou uma lindeza vestida de dama de honra, no ficou? - ela comentou afetuosamente, passando a mo na barriga 
enquanto falava. - Ela fica me perguntando se vai demorar muito at o beb sair da minha barriga.
       - Hummm... bem, mais seis meses devem ser um tempo insuportavelmente longo para ela.
       - Jenny disse que ela recebeu uma carta de Louise no incio da semana. Parece que ela est se divertindo na Itlia e trabalhando muito. Jenny acha que ela 
est finalmente superando aquela paixonite por Saul.
       - Bem, Saul com certeza deixou bem claro que ela no tinha a menor chance com ele quando ele descobriu que Louise tinha deixado Tullah no labirinto - Caspar 
respondeu.
       - Hummm. Acho que foi isso que funcionou como um verdadeiro balde de gua fria e fez Louise voltar a si - Olivia concordou. -  uma graa a maneira com que 
os filhos de Saul se do bem com Tullah, no ? - ela perguntou a ele, observando com um sorriso enquanto Jemi-ma se posicionava bein ao lado de Tullah. - Principalmente 
Jem. Ela est comeando a sair de sua concha devido  influncia de Tullah.
       Sorrindo com carinho para Jemima, que segurava sua mo, Tullah apertou sua mo como que para assegur-la de seu carinho e se dirigiu a seu marido.
       Tinham valido a pena todo o esforo e os telefonemas secretos e encontros aos quais teve de comparecer para ver o rosto de Saul quando ele se voltou para 
ela no altar e percebeu que seu vestido de noiva era praticamente uma cpia do traje que ela havia usado na noite em que se declararam um ao outro no labirinto.
       Ela havia feito questo do mesmo tema para a festa de casamento. De acordo com o que Olivia havia dito, a julgar pela nsia e interesse do fotgrafo do jornal 
local, seu casamento seria o assunto do verlo em Haslewich.
       Tullah limitou-se a rir. No estava minimamente interessada no que os outros pensavam, no mesmo. Foi por Saul que ela aguentou as maantes sesses de prova 
e as interminveis discusses sobre tecidos e padres, e cada segundo daquilo estava valendo a pena, s para ver o brilho no olhar de Saul, Tullah reconheceu enquanto 
sentia que ele a observava e voltava-se para ela para lhe dar um sorriso.
       - Eu j lhe disse como voc est bonita? - ele perguntou de repente.
       - Claro que j, papai - Jemima respondeu no lugar de Tullah. - Voc j  disse isso a ela um monto de vezes.
       Saul olhou para Tullah com ligeira melancolia.
       - Voc tem certeza que vai ser uma boa ideia levar as crianas para Portugal conosco? - ele perguntou a ela, referindo-se ao fato de que, na manh seguinte, 
todos os cinco tomariam um avio para frias de um ms. - Uma lua-de-mel e tanto que voc ter.
       Apesar de ele estar sorrindo, Tullah sabia o que estava causando a pequena sombra que podia ver no fundo de seus olhos. Ela sabia porque eles j haviam conversado 
sobre o assunto, ou melhor, Saul havia falado sobre o assunto ao pergunt-la como se sentia em relao ao tema certa noite, quando ela estava deitada em seus braos, 
feliz da vida, o corpo ainda sensvel aps fazerem amor.
       - Voc tem certeza de que no se importa... de as crianas irem conosco quando formos a Portugal? No parece justo com voc. Afinal de contas,  a sua lua-de-mel.
       - Nossa lua-de-mel - Tullah o relembrou com firmeza. - E sim, tenho certeza. Vamos ser uma famlia, Saul, e quero que as crianas se sintam seguras do meu 
amor por elas, como se sentem em relao a voc. Se isso significa sacrificar o prazer de estar a ss com voc, ento  um sacrifcio que fao com a maior boa vontade. 
Ns vamos ter tempo de sobra para viajar, s ns dois, daqui a algum tempo, quando eles tiverem aceito minha presena em sua vida e nas vidas deles. Nada vai mudar 
minha relao com voc. Sim,  claro que eu gostaria de poder viajar a ss com voc - ela admitira. - Mas eu e voc somos adultos e as crianas no.
       - Voc  uma mulher muito especial e rara, sabia? - Saul sussurrou.
       O casamento perfeito
       Tullah sorriu de modo muito feminino e astucioso enquanto se aninhava nos braos de Saul. Ela no tinha qualquer inteno de corrigi-lo e dizer a ele que 
ela era to somente uma mulher apaixonada, muito apaixonada.
       Ela estava relembrando aquela conversa e aquela noite, enquanto balanava a cabea assertivamente e dizia a ele suavemente:
       - Nossa lua-de-mel ser maravilhosa e as crianas estarem conosco s a tornar ainda mais maravilhosa.
       Ela sabia que ele achava que, sendo divorciado e pai de trs crianas, estaria privando-a do direito de comear o casamento de igual para igual, ambos "novos" 
para o casamento, prontos a concentrar-se exclusivamente um no outro, mas Tullah, apesar de apreciar sua preocupao, no viu motivo para ela.
       Ela amava as crianas e havia assegurado a ele, no s por elas serem parte dele, mas por serem elas mesmas tambm. Agora que ela o conhecia e conhecia as 
circunstncias de seu primeiro casamento, a verdade era que aquele matrimnio anterior havia sido, como ele j admitira, um erro desde o primeiro momento, e Tullah 
j no tinha mais dvidas sobre a capacidade dele de permanecer fiel aos seus votos de casamento, longe disso.
       Ele a amava e havia mostrado de tantas, tantas maneiras diferentes, na cama e fora dela.
       Ao sentir que ele olhava para ela, Tullah devolveu o olhar.
       - Bem, ao menos temos a noite de hoje - ele murmurou. - As crianas vo pernoitar na casa de Olivia.
       - E ns temos de acordar s oito para peg-los e chegar ao aeroporto - Tullah lembrou com um sorriso, mas apesar de estar brincando, no podia esconder dele 
a expresso em seus olhos. E sabia que ele percebia muito bem que ela estava ansiosa pela noite que tinham pela frente, tanto quanto ele... estavam ambos ansiosos. 
Ansiosos por uma vida inteira juntos.
       
       
       



Penny Jordan                O Casamento Perfeito




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